sexta-feira, 19 de maio de 2006

cesariny, mon amour

o prestidigitador arregaça as mangas e sobe para cima da cadeira. tira cartas de amor do bolso, cartas escritas por inúmeras meninas inocentes do ultramar - o prestidigitador é, naturalmente, internacional. quando abre a boca, ouve-se assim : sou o lobo mau e quero os teus olhos claros no meu prato. no monitor, alguém espirra. e a história continua.

o prestidigitador tem moradas em várias vivendas construídas por emigrantes que, num determinado verão, desistiram da terra que os viu nascer. eram olhinhos pequenos nos arredores de Paris, dizia o jornalista enviado especial. o prestidigitador, em cima da cadeira, come morangos, enquanto um sumo lhe escorre do queixo para as pernas das meninas.

no ultramar ouve-se rádio e alguns escritores da moda deslocam-se até lá para fazer sessões de autógrafos em cadáveres. as meninas inocentes fazem fila e gastam o dinheiro dos livros escolares em cuecas de renda. o prestidigitador fica sensibilizado e enoja-se com tudo isto. faz-lhe lembrar a história do pater familias, as tardes no tribunal da boa-hora. e a história continua.

as mangas arregaçadas das camisas claras, as calças engomadas, o quarto alugado numas águas furtadas, sem mais sítio onde o encontrar que não nestes cafés da baixa onde ricos senhores comem, bem pago, o rabinho dos artistas lá do meu bairro. era isto e as meninas inocentes a chegar em barcos e a mudar de roupa, à frente de toda a gente, para escândalo do cardeal.

mas tudo isto era antes da tropa, antes da televisão, antes até da internet. o prestidigitador, em cima da cadeira, declama versos de poetas loucas que pairam sobre as cabeças das meninas inocentes, como fadas más do oeste. do outro lado da rua, um homem fuma, do alto da sua janela, encantado com tudo isto. a sua herança sorri e cospe-lhe na cara, na sopa, como ele sempre quis.

1 comentário:

  1. Um dos textos mais doidos, belos e ricos que li ultimamente. Parece que estás a gozar as próprias palavras, homem.
    Talvez em diálogo com cesariny- que desconheço completamente.

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