segunda-feira, 15 de maio de 2006

banda sonora para um crime

enfim, perder-te seria só mais uma forma de me repetir que um homem se faz de momentos intensos - podia agora abrir uma garrafa de vinho branco e sentar-me no sofá da sala a olhar para o quadro grande onde uma mulher olha para dentro da montra de uma loja, num filme. ficaríamos ali os dois, eu a olhá-la, fixa, na fotografia a preto e branco, e ela de olhos escondidos nuns enormes óculos escuros a não ver-me, aqui, sentado no sofá, com o copo na mão.

certas coisas sentem a necessidade de ser repetidas imensas vezes até que o nosso cérebro se convença da sua possibilidade. foi quando me tocaste à porta e eu a abri, assim, de pijama, que qualquer coisa se iniciou finalmente nas nossas vidas. tu vinhas já de há muito tempo atrás, os cabelos apanhados dentro de um chapéu, os olhos muito azuis a criar fendas pelo universo de homens que se perdem sempre a cada esquina. eu estava ainda de pijama e sentia-me para além da hora de abrir portas. mas ainda havia o vinho.

voltámos à cena do sofá, em frente ao quadro, mas agora eu de copo na mão, a garrafa sobre a pequena mesa de apoio, e tu a fumar enquanto olhavas uma árvore do passeio que, de tão alta, parece querer entrar por este segundo-andar. incomodava-me mais a tua presença, ali, de cigarro, do que a da mulher da fotografia. terias vindo interromper alguma coisa, ou pelo menos era isso que eu pensava até que tu apagaste o cigarro com muita força no cinzeiro, te voltaste para mim e disseste: "tinha saudades".

engulo muito devagar o resto do vinho que sobrava no copo. dentro da minha cabeça dividiam-se as confusões - havia uma parte de mim muito feliz por te ter de volta ao meu abraço, outra desesperada com a encenação de te voltar a amar. "começa a segunda volta do campeonato", disse eu, "apetece-me fumar o teu maço de cigarros". abriste a mala no mesmo ritmo nervoso que tentar impôr a todos os teus gestos e ofereceste-me um cigarro. eu verti um pouco de vinho para o chão da sala e ao levantar-me balbuciei, "agora, aos deuses..."

ainda lá está a fotografia da mulher a olhar uma montra num filme e eu há já tanto tempo que não vou ao cinema. tenho mais algumas garrafas de vinho branco no frigorífico e suficiente tempo de férias para me refazer dos poucos dias de vendaval que me criaste. tínhamos o sonho de ir à República Checa, chegar a Praga pelo Danúbio. coço institivamente o meu joelho, pedaço de carne abaixo dos calções. perder-te seria, agora, qualquer coisa de que não me lembro já o efeito que eu esperava que tivesse.

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