quarta-feira, 31 de maio de 2006

uma pequena contribuição para a teoria dos frutos proibidos

de uma árvore nasciam saias vermelhas. eram como as folhas verdes, mas vermelhas e maiores. muito maiores, aliás. a uma árvore de que nascem saias é difícil dar um nome. e por isso o que fazíamos era sentarmo-nos à sua sombra, a ver as saias a desfolhar com o vento. quando uma saia voava, enfim, livre dos ramos das árvores, as meninas corriam a apanhá-la e os rapazes sorriam encantados.

de uma parede caíam maçãs vermelhas. a parede, curiosamente, era verde, e as maçãs eram como os candeeiros, mas vermelhas e menores. transmitiam uma luz que nos encadeava. a uma parede que faz cair maçãs é difícil dar um nome. e por isso o que fazíamos era sentarmo-nos na varanda, a apanhar sol, e a sentir o cheiro intenso das maçãs. quando uma delas caía, um dos rapazes levantava-se, polia-a na manga do casaco e mordia-a. as meninas sentiam calafrios.

do meio do caminho entre a parede e a árvore nasceu um dia um mar azul. a parede e árvore eram verdes, com coisinhas que nasciam vermelhas como as saias ou as maçãs. o mar azul era azul e tinha carros e pessoas e peixes e poemas. os carros pareciam azuis, as pessoas sonhavam azuis, os peixes brilhavam azuis e os poemas eram poemazuis. quando as meninas corriam a apanhar saias ou os rapazes a colher maçãs, molhavam-se todos no mar. e julgo adivinhar que eram felizes.

terça-feira, 30 de maio de 2006

fotografias - 3

tinha os dedos longos, afiados, as unhas recortadas no formato exacto do botão da máquina fotográfica. seguia à beira do mar, com os pés descalços, deixando-os marcados pela areia. a praia era comprida, inalcançável o seu fim, pelo menos à vista desarmada. ela continuava o seu caminho espreitando pelo zoom da lente.

tinha os cabelos salgados pelo vento e pelas ondas que, em certos lugares da praia, subiam fortes pelas suas pernas, apagando, em parte, os seus passos. o que se via agora era como se ela tivesse capacidade de voar, uma cadência de passos e depois o vazio da areia molhada, logo de seguido de outros passos. tinha os cabelos soltos, muito longos. dir-se-ia asas.

tinha uma camisa branca caída sobre a cintura, e nada mais. as suas pernas desenhavam-se entre a luz forte do sol e o imenso azul do mar sem fim. tudo combinava com aqueles dedos longos, afiados, de unhas recortadas no formato exacto do botão da máquina fotográfica. ela continuava o seu caminho, de camisa muito solta ao vento, procurando o fim da praia pelo zoom da lente. do alto da arriba, eu segui-a, da mesma forma.

segunda-feira, 29 de maio de 2006

you must be dreaming (fotografias - 2)

até já cheguei a pensar que o meu olhar poderia ser uma câmara fotográfica e que do bolso podia tirar as imagens impressas em papelinhos com linhas nas costas, para escrever poemas. até já cheguei a pensar que os dias poderiam começar com asinhas nas orelhas e levar-me para uma esplanada, em frente ao mar, onde passasse pela minha retina o filme das fotografias que tirei na minha vida inteira.

também já cheguei a pensar que os meus dedos eram tesouras e que eu podia recortar pedacinhos de todas as coisas do mundo que eu gosto muito muito e guardá-los num caderno que iria crescendo consoante a quantidade de pedacinhos, sendo no início um caderninho capaz de caber no bolso de uma camisa e no fim um caderno só transportável em grandes camiões que andam pelas auto-estradas.

e cheguei mesmo a pensar que os meus pés eram remos e que podia caminhar pelo mar e pelos rios sem nunca nunca parar. e o que podia fazer era tirar fotografias e fazer recortes de todos os lados do mundo, porque a remar sobre a água não havia quem me parasse, ai isso eu quase que aposto. e depois eu ia e vinha quantas vezes eu quisesse, e já nem grandes camiões poderiam levar o meu caderno nas auto-estradas.

domingo, 28 de maio de 2006

um coração a bater por nada

apesar do relato do futebol no rádio, apesar da estrada esburacada, apesar do motor já velhinho passar o tempo a tossir, em mais lado nenhum do mundo faz tanto silêncio como dentro deste carro. a estrada vai dar sempre ao mesmo lado, estava até capaz de o fazer inteiro de olhos fechados. tenho a boca seca, talvez de todo este calor. o resto é o que já está escrito na enciclopédia de história universal.

antes de tudo isto, o sol. os pés dentro de um par de meias brancas, dentro de umas botas, acima uns calções, acima uma camisa, acima uns óculos escuros, acima os cabelos despenteados do costume. lá dentro, o mesmo rapazinho pequenino que se fechava no quarto a dizer, baixinho, um relato de futebol inventado, em frente a folhas onde com letras desenhadas escrevia os nomes dos jogadores.

no meio, ao longe, tu. ao longe, representação na memória, desfile de desenhos adaptáveis ao elemento encontrado. um pé para um lado, um pé para o outro. no meio, ao longe, eu. olhos nos olhos nos olhos nos olhos. lente escura, farol apagado. a palavra fica tímida, assim, ao sol. no meio, sentados na sombra, distante uma da outra, sombras. um coração, ainda, a bater, a bater por nada.

sábado, 27 de maio de 2006

poetas

os poetas cruzam-se nas ruas e encolhem os ombros perante as travagens bruscas dos automóveis - têm os cabelos despenteados e riem como estranhos neste mundo, acho muita piada a uma série de coisas sem piada nenhuma e tentando trazer à flor de pele pequenas palavras que só existem dentro das suas cabeças. os poetas almoçam, a maior parte dos dias.

os poetas vestem camisas de botões e acabam, quando velhos, a passear de braço dado com as meninas mais calmas da escola - precisam de um colo, de uma mão, de um olhar atencioso sobre as carecas, enquanto lá dentro arde um fogo intenso que já queimou florestas, comunidades, ideias inteiras. os poetas já não riem, sorriem, e procuram entre os papéis em cima da mesa da sala de jantar, aquele verso aquele único. os poetas nem sempre encontram, descobrem.

os poetas descalçam os sapatos e brincam com os dedos no tapete da sala, têm os dedos sujos de tinta e olham, desconfiados, para as coisas que aparecem evidentes aos olhos dos outros - usam óculos especiais, os poetas, cheios de cores e de sons e sabores e olhares e dedadas (de tinta) nas lentes. os poetas ainda sorriem, mas qualquer coisa de sério se apresta a conquistar os seus lábios. qualquer coisa de salgado e doce (diria eu, incerto). os poetas poetizam.

pode não responder porque se encontra no estado Ausente

deixei um copo de água sobre a mesa da cozinha e saí [a porta fechada com cuidado] enquanto tu ainda dormias tão bonita sobre a cama, os cabelos espalhados pela almofada, o sorriso infantil no sono quieto [depois da noite toda tanto grito tanto gemido] e, do lado de fora da janela, os passos de alguém que sai de casa para o trabalho ou chega a casa da noite passada.

fechei a porta com cuidado, não fosses tu acordar e perguntar-me [o que fazes aí ao canto do quarto assim vestido?] se eu voltava mais tarde ou amanhã, levei na mão um saco com algumas coisas que fui trazendo para tua casa [mobiliário miniatura: livros discos um isqueiro] e desci as escadas a pé, sim, a pé, qualquer solenidade momentânea me impediu de entrar no elevador.

do lado de fora da janela, com o calor inteiro destas manhãs de início de verão [coisas a que não estamos habituados boca seca], acendi um cigarro e abri um botão da camisa deixando o peito aberto [nada de balas nem de frases feitas calor só] para que passando debaixo da tua janela [do lado de fora] eu pudesse talvez imaginar que te ouvia a chamar o meu nome [do lado de dentro].

sexta-feira, 26 de maio de 2006

ficar em casa

trancou a porta com toda a força que encontrou nos punhos e respirou com inquietação. merda, merda, era o só o que andava por dentro da sua cabeça, apetecia-lhe dar pontapés pelas paredes e na mobília. foi até à janela da sala e colou a testa no vidro, tentando receber algum do frio que estava do lado de lá da matéria. as asneiras aos saltos no jardim dos cabelos.

trancou a porta, procurou nas gavetas da cozinha algumas facas mais afiadas. tirou dos armários copos e pratos, algumas chávenas, latas de atum. sentou-se no chão e tentou fazer um plano. havia demasiado barulho dentro da sua própria cabeça, demasiada confusão para perceber o que é que poderia fazer primeiro. a única solução é fazer tudo ao mesmo tempo.

trancou a porta, mais uma, agora já parecia um restinho de cebola dentro de casca dentro de casca dentro de casca. começou a partir a loiça e a fazer montinhos de cacos do tamanho do seu corpo pelo chão.deixou-se cair muito devagar, as costas a sentir aquelas pequenas falhas que lhe entravam pela pele. olhou com muita atenção a lâmina da faca e trancou a porta.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

sem título, dedicado.

deixa-me que te diga ao ouvido:
eu vou fazer o que tem de ser feito, mas ao contrário, pegar nas tuas roupas e embrulhá-las em papel pardo, sair a correr pelas arcadas até encontrar a praça principal e, sem que ninguém me veja porque é de noite, atirar-me ao lago, refrescar-me, refazer-me.

deixa-me que te diga ao ouvido:
eu vou nascer outra vez na noite que vem e sair de dentro de mim e de ti como quem sai de uma cama sem saber para que lado da casa se virar, porque nunca se tinha dormido ali antes, ou melhor, nunca se tinha acordado, tu percebes o que eu quero dizer.

deixa-me que te diga ao ouvido:
"aperto as tuas coxas, carne da tua carne, a minha língua sabe-te mas eu não te conheço", repetir-te uma vez mais ao ouvido, "a minha cara colhe as tuas lágrimas e esta cama muda range no silêncio", uma vez, uma vez mais, "ouvir-te toda a noite e levar anos e anos a sentir-te"


* citações de Armando Silva Carvalho

sábado, 20 de maio de 2006

finis terrae

a areia magoava-te a face mas tu mantinhas o cigarro aceso entre os lábios. talvez seja por causa dos filmes, mas sempre te confundi com o fernando lopes, desconfio até que sejam a mesma pessoa. mas não, tu não foste da cidade como ele, nem do uísque, nem das putas. tu foste de ti mesmo, corpo de homem magoado pelas visões da infância, pelos cheiros da própria terra. a areia magoava-te a face, nunca te esquecias disso.

andavas pela beira da ria a ouvir os gemidos das pessoas mortas antes de ti. era uma história imensa, muitas vezes repetida, até a uma exaustão sem paralelo. desde pequeno que tentaste compreendê-las, escrevendo. mas a tua própria mão enganava-te e tu sabias. então usavas a ponta da caneta para riscar sobre as letras, tentar adivinhar-lhes outras formas de composição. fizeste a vida inteira o mesmo livro.

a areia magoava-te a face, mas era outra coisa (a alma?) que chorava. sobre o teu lado esquerdo trazias um coração maior que o peito, e uma forma só tua de ser apaixonado pela verdade, uma verdade que não se pode nunca ver com os olhos, só com os dedos muito próximos do papel, e os ouvidos muito lá longe num lugar onde talvez comece a natureza. tu mantinhas o cigarro aceso entre os lábios, disfarçando na face calma a inquietação.

o poema de ruy belo

vinha em mangas de camisa pela estrada principal do povoado, lá desde uma outra terra que se chamava Estrada até ao Forte, para tomar café e olhar o mar. o vento batia sempre mais forte e, na praia, os banhistas comiam gelados e gritavam às crianças. algumas senhoras distintas, vindas do Bombarral, das Caldas, de Torres Vedras, passeavam como pavões os fatos-de-banho demasiado garridos para este sol. corria o ano de mil novecentos e setenta e nove.

vinha em mangas de camisa pela estrada principal do povoado, dava os bons-dias aos meninos e às meninas que, de óculos de lentes escuras, tomavam o café da manhã. teria havido festa até de madrugada, talvez na garagem de alguma das casas senhoriais, talvez em Peniche, onde se misturavam filhos de pescadores e filhos de doutores, em noites de verão excitadíssimas em volta do Forte, como se quisessem exorcizar as memórias dos papás.

vinha em mangas de camisa pela estrada principal, sentava-se à mesa como o João Miguel e discutia a bola com os outros homens, enquanto ouviam, estrondosamente, o barulho dos matraquilhos. ao fim da tarde voltava a casa, no mesmo passo quieto e gordo, com um ou dois versos na cabeça, vindos das bocas dos outros. sentava-se no terraço, algum barulho de cozinhado lá de dentro de casa, e escrevia. corria o ano de mil novecentos e setenta e nove, um ano depois da sua morte.

sexta-feira, 19 de maio de 2006

cesariny, mon amour

o prestidigitador arregaça as mangas e sobe para cima da cadeira. tira cartas de amor do bolso, cartas escritas por inúmeras meninas inocentes do ultramar - o prestidigitador é, naturalmente, internacional. quando abre a boca, ouve-se assim : sou o lobo mau e quero os teus olhos claros no meu prato. no monitor, alguém espirra. e a história continua.

o prestidigitador tem moradas em várias vivendas construídas por emigrantes que, num determinado verão, desistiram da terra que os viu nascer. eram olhinhos pequenos nos arredores de Paris, dizia o jornalista enviado especial. o prestidigitador, em cima da cadeira, come morangos, enquanto um sumo lhe escorre do queixo para as pernas das meninas.

no ultramar ouve-se rádio e alguns escritores da moda deslocam-se até lá para fazer sessões de autógrafos em cadáveres. as meninas inocentes fazem fila e gastam o dinheiro dos livros escolares em cuecas de renda. o prestidigitador fica sensibilizado e enoja-se com tudo isto. faz-lhe lembrar a história do pater familias, as tardes no tribunal da boa-hora. e a história continua.

as mangas arregaçadas das camisas claras, as calças engomadas, o quarto alugado numas águas furtadas, sem mais sítio onde o encontrar que não nestes cafés da baixa onde ricos senhores comem, bem pago, o rabinho dos artistas lá do meu bairro. era isto e as meninas inocentes a chegar em barcos e a mudar de roupa, à frente de toda a gente, para escândalo do cardeal.

mas tudo isto era antes da tropa, antes da televisão, antes até da internet. o prestidigitador, em cima da cadeira, declama versos de poetas loucas que pairam sobre as cabeças das meninas inocentes, como fadas más do oeste. do outro lado da rua, um homem fuma, do alto da sua janela, encantado com tudo isto. a sua herança sorri e cospe-lhe na cara, na sopa, como ele sempre quis.

terça-feira, 16 de maio de 2006

replay - rewind

ela passava todos os dias, à mesma hora, pela porta da minha casa, ela passava todos os dias, à mesma hora, e eu vi-a detrás do cortinado, com um dedo na boca, à mesma hora, eu vi-a detrás do cortinado, e chamava por ela, muito muito baixinho, chamava sem que ela desse por isso, e chamava por ela, muito muito baixinho, enquanto ela passava todos os dias, à mesma hora.

ela sorria todos os dias, à mesma hora, em frente à porta da minha casa, ela sorria todos os dias, à mesma hora, fazendo-me pensar que já sabia, pensava eu para comigo, ela já sabe que estou, fazendo-me pensar que já sabia, pensava eu que podia sair também à rua e tirar o chapéu quando ela passasse, podia sair também à rua dizer-lhe olá, enquanto ela sorria todos os dias.

ela voltava todos os dias, à mesma hora, de olhos fechados pelo vento da esquina da minha casa, ela voltava todos os dias, à mesma hora, e eu vi-a detrás do cortinado, com um dedo na boca, à mesma hora, eu vi-a detrás do cortinado, e ficava no silêncio, muito muito encolhido, e ela de olhos fechados, eu ficaba no silêncio, muito muito encolhido, enquanto ela voltava, todos os dias, à mesma hora.

segunda-feira, 15 de maio de 2006

banda sonora para um crime

enfim, perder-te seria só mais uma forma de me repetir que um homem se faz de momentos intensos - podia agora abrir uma garrafa de vinho branco e sentar-me no sofá da sala a olhar para o quadro grande onde uma mulher olha para dentro da montra de uma loja, num filme. ficaríamos ali os dois, eu a olhá-la, fixa, na fotografia a preto e branco, e ela de olhos escondidos nuns enormes óculos escuros a não ver-me, aqui, sentado no sofá, com o copo na mão.

certas coisas sentem a necessidade de ser repetidas imensas vezes até que o nosso cérebro se convença da sua possibilidade. foi quando me tocaste à porta e eu a abri, assim, de pijama, que qualquer coisa se iniciou finalmente nas nossas vidas. tu vinhas já de há muito tempo atrás, os cabelos apanhados dentro de um chapéu, os olhos muito azuis a criar fendas pelo universo de homens que se perdem sempre a cada esquina. eu estava ainda de pijama e sentia-me para além da hora de abrir portas. mas ainda havia o vinho.

voltámos à cena do sofá, em frente ao quadro, mas agora eu de copo na mão, a garrafa sobre a pequena mesa de apoio, e tu a fumar enquanto olhavas uma árvore do passeio que, de tão alta, parece querer entrar por este segundo-andar. incomodava-me mais a tua presença, ali, de cigarro, do que a da mulher da fotografia. terias vindo interromper alguma coisa, ou pelo menos era isso que eu pensava até que tu apagaste o cigarro com muita força no cinzeiro, te voltaste para mim e disseste: "tinha saudades".

engulo muito devagar o resto do vinho que sobrava no copo. dentro da minha cabeça dividiam-se as confusões - havia uma parte de mim muito feliz por te ter de volta ao meu abraço, outra desesperada com a encenação de te voltar a amar. "começa a segunda volta do campeonato", disse eu, "apetece-me fumar o teu maço de cigarros". abriste a mala no mesmo ritmo nervoso que tentar impôr a todos os teus gestos e ofereceste-me um cigarro. eu verti um pouco de vinho para o chão da sala e ao levantar-me balbuciei, "agora, aos deuses..."

ainda lá está a fotografia da mulher a olhar uma montra num filme e eu há já tanto tempo que não vou ao cinema. tenho mais algumas garrafas de vinho branco no frigorífico e suficiente tempo de férias para me refazer dos poucos dias de vendaval que me criaste. tínhamos o sonho de ir à República Checa, chegar a Praga pelo Danúbio. coço institivamente o meu joelho, pedaço de carne abaixo dos calções. perder-te seria, agora, qualquer coisa de que não me lembro já o efeito que eu esperava que tivesse.

sábado, 13 de maio de 2006

amargo

não sei bem o que é, sei que é amargo e que os meus dentes estão a ficar cada dia mais amarelos. os olhos não os consigo abrir bem, muito menos em dias de sol assim. não sei bem o que é, sei que me dói, nas costas, na cabeça, no pescoço. sei que me custa a levantar da cama e sei que vou ficando sempre sempre com mais calor.

em cima da mesa da cozinha, há um pacote de bolachas aberto pelo meio e um monte de migalhas. as bolachas estão moles e já perderam o sabor. o sol da manhã cai sobre essa mesa e o som dos meus passos muito muito lentos faz estremecer o armário que ainda me há-de cair em cima. não sei bem o que é,

sei que é amargo na boca, assim uma espécie de espuma que ficou de uns dias antes. lembro-me, apenas vagamente, de estar sentado a um balcão enquanto bebia copos e copos, de alguém me telefonar e eu não saber quem era, de adormecer mal disposto mas justamente. não sei bem o que é, mas custa-me, custa-me mesmo, acordar de manhã.

quarta-feira, 10 de maio de 2006

simples

ao vigésimo dia de luz, tu sais de casa com um vestido de verão e és atropelada por um carro que não te viu nem travou, mesmo quando já beijava a pele das tuas pernas com o seu ferro quente. assim. simples.

não deixaste muito o que contar. eras jovem e bonita, de um país distante, como todas as fadas e todas as princesas. um dia apareceste-me na rua e eu segui-te até te ver entrar na faculdade. assisti a dezenas de aulas até arranjar coragem para te dizer:

olá.

tu sorriste para mim, pouco sabias dizer em português, saiu-te um

olá

assim mais esticado, distante, envergonhado, francês.

tomamos um café e depois outro e depois fomos ver o tejo e passear pelo bairro alto e fomos à praia e fomos a sintra e fomos a mafra e fomos à ericeira e fomos a peniche e fizemos todo esse mapa turístico que toda a gente conhece e portanto nem vou falar dele.

a pouco e pouco segurei-te a mão, a pouco e pouco seguraste-me o pescoço e beijaste-me de uma forma que ninguém antes tinha inaugurado. assim, luminosamente.

ao vigésimo dia de luz, acordas-me com um beijo, vestes o teu vestido de verão e sais porque tens aulas bem cedo. certas coisas passam demasiado depressa. e por serem tão rápidas ficam registadas como coisas simples nas nossas memórias.

segunda-feira, 8 de maio de 2006

restos de pele

se entrasses agora vias-me de olhos muito abertos e o pescoço a ser tomado por uma rigidez que logo te aperceberias como é dolorosa só pelos raios vermelhos que iriam estar em volta do castanho dos meus olhos. se entrasses agora dirias bom dia e eu não teria nenhuma resposta para ti, apenas os olhos assim, como te digo, e algumas lágrimas a soltarem-se cara abaixo.

se entrasses agora ias até achar um tanto inacreditável como eu ainda consigo escrever. sento-me aqui assim a sentir a tensão tomar conta do meu corpo enquanto imagino um cheiro de peixe cozido no ar. talvez não tenha muito sentido, mas de repente tudo parece ter deixado de ter sentido, e isso foi quando hoje de manhã entrei no duche e me apeteceu morrer ali debaixo daquela água quente.

se entrasses agora ias voltar atrás e seguir pela rua como se nada tivesse acontecido, ias preferir pensar que não me tinhas visto, que eu não estava aqui. Talvez parasses num café uns quarteirões abaixo e comesses um bolo enquanto tentasses olhar distraidamente para um jornal em cima da mesa. Talvez não recordasses nunca mais nem a rigidez do pescoço, nem os olhos vermelhos. e algumas lágrimas soltar-se-iam pela tua cara abaixo.

sábado, 6 de maio de 2006

what's the story morning glory?

manhã clara, janela aberta, o chilrear dos pássaros, o despertador, passos de vizinhos na minha cabeça, o duche do quinto frente, manhã cheia, barulhos em ritmo crescente na cabeça, o corpo pesado, os olhos sujos, a boca seca, mensagem no telemóvel, pequeno almoço, duche rápido, uma roupa qualquer,

pés na calçada, passo certo, bom dia aqui, bom dia ali, caras mais ou menos conhecidas, um carro que buzina, o sol que bate forte naquela janela, pés na calçada, roupa ajeitada, atravessar a estrada, olhar o relógio, em cima da hora, ver as montras, as caras das pessoas nas montras, as caras das pessoas do outro lado das montras,

entrar no café, curto como de costume, as capas dos jornais, as senhoras bons dias, os bolos tão lindos, o açucar a piscar-me o olho, uma criança a chorar, entrar no café, procurar moedas no bolso, deixá-las no balcão, líquido quente e espesso pela garganta, querer dizer ainda mais qualquer coisa, não ser capaz.

quarta-feira, 3 de maio de 2006

a solidão revisitada



eram algumas vozes no prédio, um rumor pelas escadas, o relógio da cozinha parado em frente aos meus olhos, três copos vazios sobre a mesa, a loiça suja ainda, o calendário com os risquinhos que tu lhe fazias, a roupa por lavar, a telefonia a acabar as pilhas, o cheiro do meu corpo a enjoar-me, o meu avô a chegar e a sentar-se a meu lado, o tempo todo esta mesma coisa em mim,

eram as cartas que ainda chegavam com o teu nome, os livros da escola dos miúdos cheios de humidade a um canto, alguns jornais antigos, os dois ou três livros que tu tinhas gostado de ler, os maços de cigarros que eu não parava de fumar, os chinelos que me apertavam os pés, os cotovelos das camisolas muito coçados, a meias por coser, o tempo todo esta mesma coisa em mim,

eram as notícias de coisas que eu cada vez percebia menos, a campaínha que se avariara de tanto tempo sem tocar, a vizinhança que eu já não via para lá dos vidros sujos, eram algumas vozes no prédio, vozes que eu já não reconhecia, um rumor pelas escadas que talvez me viesse buscar, era a minha atenção sempre em ebulição para o que não iria acontecer, o tempo todo esta mesma coisa em mim.

terça-feira, 2 de maio de 2006

n

nunca, nunca nada de ninguém, e os olhos a chorar ar condicionado e as mensagens que chegam só pela metade e as palavras que te custam a descolar da garganta e os dedos que fogem debaixo das mesas e os olhares que se fecham porque está sol e os carros que buzinam atrás de ti e um coelho atropelado à beira da estrada e um parágrafo aparentemente sem sentido,

nunca, nunca nada de ninguém, e os pés esticados debaixo da mesa e o aspirador a engolir meias na sala e as marcas do teu bikini na minha memória e a tua semiologia dos meus textos e a maneira como tu dizes que me queres e o duche que tomo ainda todos os dias e a barba que deixei por fazer e pensar em ir passear de mão dada contigo e umas quantas coisas que me pesam nas costas e as asas que me crescem mesmo assim,

nunca, nunca, nunca de ninguém, e as cartas na caixa do correio e os olhos que me espreitam lá ao longe e as vozes que eu oiço que não são a tua e os lírios do campo e os sinais de fogo e a poesia completa da natália correia e a música do josé mário branco e as encomendas e os livros e as revistas e as mensagens e as brincadeiras e os olhos a chorar ar condicionado e este texto inteiro, escrito, para quê?

duche

eu no duche, a água lava quase tudo, a olhar para o meu sexo recolhido, enquanto sinto a ligeira massagem dos líquidos sobre todo o meu corpo, os olhos que se vão fechando, os pés muito assentes na superfície escorregadia da banheira, eu, no duche, as mãos a espalharem sabonete pelo corpo, e a lucidez que me ataca sempre que é assim de manhã, sem nenhum carinho,

a repetir-me uma e outra vez a solidão, a repetir uma e outra vez esta vontade de não agir, não ir a lado nenhum, mesmo que noutras horas eu seja todo desejo, maquiavélico, o meu corpo e o meu sexo recolhido, no duche, são um acto de negação de mim para comigo, de todas as coisas, de todas as mulheres e todos os homens, de todo e qualquer acto de amor.

eu no duche, um pouco irreflectido, mastigo as palavras que não me saem da boca a estas horas da manhã, sinto os cabelos a colarem-se à minha testa com a força da água, sinto a falta que me faz um olhar quando sair do duche, mas eu, no duche, sou também a ferramenta que desfaz a compreensão dos dias, sou eu próprio o anjo anunciador da desgraçada, de tudo o que eu quero e

não vai acontecer nunca, nunca, porque eu não me vou permitir. eu, no duche, a pensar que toda e qualquer pessoa é só mais um sopro de vento na minha testa, que eu vou, com o passar da mão, limpar como se limpa o suor, enquanto nos meus dedos fica o gosto amargo das essências que eu expulso de mim, não como purificação, mas como ignóbil mistura de todos estes sentimentos.

segunda-feira, 1 de maio de 2006

olhares

era o desespero ou o encontro de olhares numa tarde que se fazia fria com o tempo - melhor assim, pensaste tu, enquanto vestias o casaco e te preparavas para ir embora, uma vez, uma vez mais - mas depois era isso, era isso mesmo, os olhares que se trocam mesmo quando os óculos escuros ou as línguas tão díspares, o cabelo levado pelo vento, os braços cansados, os contos de fadas ainda todos por começar.

era o desespero ou a mania de olhares para todos os lados mesmo quando estás acompanhada, um café e uma água com gás fresca, se faz favor, é um euro e setenta e cinco, pode pousar aí, do lado debaixo do muro a praia, eu a ler jornal e mais quinhentas pessoas penduradas nas nossas recordações, um título maior que o outro, os teus olhos - que atenção-, os erros dados na tipografia, mensagens de amor nervoso mas com todo o sabor que o amor deve ter.

era o desespero ou um bilhete de autocarro que nunca mais chega, é feriado, tudo bem, podes estar descansado, a que horas combinaste o jantar?, ganhar algum dinheiro para a renda, a reforma e o subsídio de desemprego, deixar o negócio e ir embora, quinze dias de férias e o subsídio, os olhares, os óculos, as borboletas, as malas feitas, os beijinhos, as recordações, ou isto tudo de outra maneira qualquer, num livro esquecido na esplanada em frente ao mar.