sábado, 29 de abril de 2006

sapatos

o barulho dos sapatos toc-toc a descer as ruas da vila e o sol concentrado todo na sua cabeça protegida pelo boné que lhe tinha dado a mãe, era agora um homenzinho e os sapatos toc-toc, as costas muito direitas, o levantar, um pouco só, o chapéu quando passavam as senhoras, parar a olhar os jornais da capital para lhes descobrir as imagens e as letras gigantescas, ouvir um parceiro do lado a comentar guerras e jogos de futebol,

o barulho dos sapatos toc-toc na avenida principal, a calçada muito certinha e brilhante, aquele sol todo, a estação dos comboios ao fundo, pelo meio das árvores, e entrar no café, encostar-se ao balcão e pedir um copo de vinho branco muito fresco, ainda o cheiro das vinhas colado na borda do copo e os sapatos toc-toc no chão varrido do café, vozes muito altas a pedir bifanas e cafézinhos, uma mistura de vendedores e professores, a escola em frente,

algumas meninas a passear de mão dada e livros a esconder os peitos muito amarrados em colarinhos de rendas, os sapatos toc-toc e um sorriso malandro para o companheiro que enterrava o nariz numa sandes de fiambre e tinha os olhos muito abertos, o copo de vinho branco muito fresco numa mão e o boné pousado no balcão de pedra, algumas meninas a passear e a vontade de assobiar reprimida pelo olhar censor de um professor que entrava,

os sapatos toc-toc, as mãos a endireitar a camisa, o boné bem colocado como tinha visto, uma vez, nos filmes, alguma algazarra porque os filhos dos comerciantes gostavam de jogar ao boxe com os tipos que, como ele, vinham da aldeia, uma corrida até ao mercado outra vez, a carregar sacas de batata e couves para cima da camioneta outra vez, os sapatos toc toc a apertar muito os pés, e a camisa cheia de vincos e de pó daquele chão, uma criada que ainda lhe grita, rapaz, guarda-me três quilos que me atrasei,

e o regresso a casa pela noitinha, compor as sacas e renovar as couves, amanhã mercado outra vez, noutra vila, noutro lugar, o boné bem arrumado em cima de uma cómoda muito velha, a camisa a endireitar-se nas mãos da mãe que parece não dormir, sempre de pé quando ele acorda, ainda pela cozinha quando ele se vai fechar no quarto, o prazer de fumar um cigarro da janela para a rua e aquele silêncio, os sapatos toc-toc arrumados debaixo da cama, os pés doridos de um não aguentar aquilo tudo.

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