sábado, 8 de abril de 2006

eu, na livraria

depois de almoço, as pessoas da cidade andam mais devagar - só os meus intestinos insistem em fazer-se despachados, sempre prontos a deitar para fora aquilo que, inocentemente, levei à boca. as pessoas da cidade, na verdade, quase nem andam, têm os carros e os as mãos em concha, agarradas aos volantes, fazem-lhes as vontades; no meu tempo isto tinha um nome, passeios de sábado à tarde.

depois de almoço, os meus intestinos não me deixam descansar, empurram-me violentamente até à sanita e fazem-me despejar os detritos e as angústias. na minha cabeça imagino a maçã que acabo de descascar e mastigar a empurrar uma série de outras coisas comidas em dias anteriores que, sem oportunidade de gozar mais o espaço de estar dentro de mim, se vêm compelidas a massa despojada. na cidade, o silêncio corta-se aos pedacinhos pela passagem dos carros.

depois de almoço, talvez porque seja sábado e aos sábados as pessoas almoçam todas à mesma hora - ou ficam dentro das casas, nas cozinhas, todas entre as mesmas horas. esta sensação de tudo parar à nossa volta, só o alcatrão ainda sobreviver com o contactos da borracha dos pneus que o acaricia. não oiço sequer uma palavra. no entanto, enquanto me sento à sanita, uma série de coisas me afloram o espírito - não posso dizer muito mais, mas inventei um mundo que existe nestes tempos mortos, em que, mais que me dedicar à dissertação, concretizo datas e pessoas bem concretas.

depois do almoço, as calças de novo apertadas, a face inspecionada no espelho, os dedos mergulhados no meio dos caracóis que me povoam a careca, a rua sozinha e silenciosa, os passos a ouvirem-se com distinção, capazes de me fazer imaginar alguém que passa ao meu lado quando mantenho a cabeça baixa. depois do almoço, algumas sensações de trabalho bem feito, apesar de não haver trabalho nenhum, nem pedidos, nem ameaças, nem carinhos combinados para mais logo. depois do almoço, eu, na livraria.

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