quarta-feira, 12 de abril de 2006

Espelhos, batons e meias verdades*

olho devagar as coisas que passam se estou sentado no lugar de onde se vê a entrada deste café. trouxe o casaco para manter as mãos nos bolsos mas elas fogem sobre o tampo da mesa, a querer fazer gestos e desenhos no ar, coisas que talvez não percebas, mesmo que as olhes durante muito tempo, a noite toda. enquanto me levanto para procurar um cinzeiro, tu corriges a geometria da tua franja em frente a um espelho. e ao sentar-me retiro os cigarros do bolso.

sinto o tempo a passar por mim só porque me crescem alguns cabelos brancos sobre a orelha esquerda. tenho um metro e setenta e oito e alguns quilos a mais, a barba feita esta manhã. se estou sentado no lugar de onde se vê a entrada deste café, sou capaz de me aperceber do exacto momento em que tu entras. para as outras pessoas sou só um homem que fuma. para ti, sou o homem que fuma à tua espera. tens um baton muito suave a delinear-te os lábios, um perfume capaz de fazer dançar uma fotografia. e eu tiro o cigarro dos lábios, deitando o fumo fora numa nuvem.

muitas coisas me fizeram sentir pequeno desde o tempo em que tenho idade para me lembrar das coisas. também sou capaz de me lembrar de algumas outras coisas sem idade. sentados na mesa do café, podíamos rodopiar como um filme do tarantino, sem a sensualidade dos actores, mas com algumas palavras bonitas a saírem-nos dos lábios como dedos que se seguram uns nos outros. se estou sentado no lugar de onde se vê a entrada deste café, as meias verdades não resultam. e eu apago o cigarro, por fim.

* frase retirada do blog escada rolante de autoria de Daniela Catulo

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