quarta-feira, 26 de abril de 2006

coisas a fazer quando a noite chega

e ainda o meu estômago se desfaz de dentro de mim para se destruir pelo chão da casa - e sim, era isso que eu escondia no dia antes de ter morrido. todo eu a arder por dentro ainda agarrado a este teclado onde escrevo os meus últimos dias - horas- qualquer coisa pelo meio. era isto que eu te queria dizer ou escrever uma epopeia, o que ainda seria melhor. todos nós queremos que nos leiam muito, muito, e para isso não se conta com os leitores, basta escrever uma coisa enorme, que demore muito tempo para ser lida e exija umas quantas releituras até que seja percebida. e então a história da nossa vida começa com uma lista que quase nada tinha a dizer para as gerações que a encontraram - era uma arqueologia ignóbil, de umas quantas pessoas sem escrúpulos e sem namorados. quatro homens que viviam dentro de uma casa e que comiam apenas aquilo que desenterravam. chegaram a este acampamento ainda novos e passados poucos dias já se entretiam em exageradas práticas de sodomia até que, enfartados de tanto desprazer sexual, acabaram por se mutilar, dando marteladas nos dedos sempre que sentiam um desejo enorme de escavar as próprias feridas com os seus dedos de unhas roídas.

mas melhor, melhor ainda, era uma outra história em que o guarda do acampamento os olhava com uns binóculos militares trazidos de um cenário de guerra, enquanto lá fora os verdadeiros militares se divirtiam a alvejar civis e cobras de água. o meu nome era João, o meu nome era Álvaro, o meu nome eram todos esses nomes que agora já não me chamas. de onde vieste tu ontem à noite quando chegaste assim tarde a casa? e o mais engraçado é que já nem vivíamos juntos, estavamos divorciados, como toda a gente, e cada um de nós pendurado em gaiolas nas varandas da avenida de roma. entretanto chegaram os meus primos de angola, tinham camisolas compridas e os olhos com ramelas. eu não me fiz de esquisito e despejei o meu guarda-roupa na cama deles. e depois chegou a minha tia, a minha mesma tia de sempre, e cuspiu-me em cima enquanto soletrava baixinho o hino da marselhesa. era a esquerda livre e as tontices do costume, enquanto a tropa batia nos pretos e nos meus primos, e depois também em mim e na minha tia porque já nem ela era a filha predileta do general, nem o marido agora a queria para alguma coisa. somos todos muito felizes com esta saliva que deus nos deu.

um pouco mais à frente, na casa do lado, o caso era o de um alcoólico que fazia a contabilidade da companhia das índias. eu e a mariana ríamos muito baixinho com os ouvidos encostados ao rádio a pilhas do papá enquanto fazíamos planos de quecas a dar no século seguinte. nunca fui tão feliz como contigo, pensou o meu braço agarrado por ela, mas era mentira. tínhamos todos as bocas sujas e os cabelos demasiado crescidos. eu desci pela rua principal de benfica, aquela que vem das portas e vai dar ao califa, e encontrei o lobo antunes a comprar cigarros. pedi-lhe lume e ele disse-me bom dia como se eu fosse lá do bairro. mas isso era antes de começarem a estalar os foguetes na minha cabeça, antes até de eu acordar. era o barco para ir prá tropa e eram quinze virgens a dançar na minha frente, no baile da aldeia do papá. com tudo isto, a polícia proibiu-nos de ouvir rádios a pilhas.

mais uma coisa, só mais uma coisa. este vício de crescer assim aos bocadinhos, como a barba que se corta rente e desregrada com uma lâmina já gasta, é uma coisa que me vem de longe. comecei a escrever com quinze anos e pensava que o mundo ia acabar sem raparigas. por causa dessas mesmas coisas parvas que eu escrevia, uma mulher que eu não conhecia agarrou-me pelas calças, rompeu-me o fecho e quis fazer amor comigo. eu era demasiado novo ou demasiado parvo e a única coisa que me lembro foi de urinar calças abaixo enquanto chorava. sempre estive demasiado sozinho comigo mesmo e o escuro desta sala não me deixa sequer respirar. mas quantas vezes é preciso repetir a evidência até que ela deixe de existir. eu sou sempre uma outra coisa do que aquilo que sou na verdade. e as mulheres podem entrar e sair como quem vai às compras - o meu coração é uma porta rotativa.

quantas vezes mais chegaste tu a dizer-me que me querias tocar e eu ria-me. ria-me porque não sabia bem o que isso poderia significar na astrologia destes símbolos. depois foi também essa a maneira a que eu recorri para fingir que a morte se pintava de negro como os casacos. até ao dia em que entrei na sala onde o meu avô se tinha enforcado e não senti nada - não senti mesmo nada. olhei para o lugar, para o lugar onde ele tinha estado e nada. e agora que estou tão longe sinto o pescoço a apertar-se como uma gravata à qual não sabemos dar um nó. puxa daí ou daqui, era eu que estava a morrer devagarinho ou era o contrário? era este mundo ou era outro qualquer? tantas coisas que continuo sem saber dizer.

e chegaste enfim tu para me dizer que sempre me amaste e que eu não soube cuidar de ti. quando se pede a uma criança para tomar conta dos pais? eu vou descer as escadas com aquela aparência calma que toda a gente toma por verdadeira. e depois um dia estouro com os miolos (ou não estouro, não vou precisar, eu a morrer por dentro como o marinho, eu sei o que ele sentia todos os dias e eu sei como se faz, ele ensinou-me tanta coisa) e todos estes homens que se estão a matar na minha vida são como abraços que eu recebo de alguém. não sei mais a tua história mas a minha é clara, clara, clara. adeus amor, que se faz tarde, vou para o mar, vou para o mar.

porque já não havia ciência e agora perdeu-se a paciência. repetir repetir para quê? havia uma música que eu ouvia sempre e as vizinhas gordas a dançar contra as paredes. havia mensagens no elevador e coisas que não acabam nunca. o meu mundo não é o teu mundo nem é o mundo de nenhum daqueles artistas que tu viste na tv. eu sou aqui quieto e calado. eu sou aqui a morrer devagarinho, a arrancar-me pedaços para misturar com o iogurte. e quando eu te faço poemas de amor sou eu que morro mais um pedacinho, fábrica de transformar lágrimas em coisas que os rapazes vão acabar por ir oferecer às meninas na escola. e todo este enjoo e todo este nojo e toda esta morte, por dentro, devagarinho.

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