sexta-feira, 28 de abril de 2006

alferes

e agora vamos começar tudo outra vez, um dois esquerdo direito, um dois esquerdo direito, uma voz forte de tenente a gritar-me aos ouvidos enquanto eu fecho os olhos e começo a ver tudo muito devagar, assim como as cassetes vhs que podíamos ver câmara lenta, muito muito câmara lenta, com riscos de várias cores no lado de baixo do écrã e com a mãe a entrar na sala e a tentar dizer-nos, como se fosse uma estranha, que aquela coisa de ver os filmes em câmara lenta ia acabar por estragar todas as cassetes.

e agora vamos começar tudo outra vez, as botas muito engraxadas, as camisas muito engomadas e eu a passear pelos corredores da gulbenkian enquanto te esperava e a olhar para as fotografias de umas obras que eu não percebi muito bem de como eram todos aqueles jardins e casas e árvores plantadas antes de tudo ser como é hoje ou num dia daqueles que agora passou, pessoas de camisas às riscas a comer sandes de fiambre e o cantar dos passarinhos no meu ouvido como se de repente eu tivesse voltado atrás e

fosse a voz forte do tenente outra vez, o barco que eu me esquecera de apanhar porque era tarde ou porque era cedo, as cartas que tu me escrevias e mandavas para angola e que eu recebia aos montes uma vez por mês e mesmo assim escrevia-te quase todos os dias a tentar inventar na minha cabeça aquilo que me tinhas escrito e a tentar fazer um nexo entre as saudades que tu sentias de mim e a vontade que eu tinha de te possuir outra vez, porque não tinha muito jeito, eu saí de lisboa virgem, dezassete aninhos e virgem, o que haveria de pensar o meu pai, se fosse vivo,

e agora quando te escrevo já fodi umas quantas miúdas aqui da guerra, que vêm para a guerra para foder connosco e nós damos-lhe comidas e alguns que chegam pela segunda vez até roupas lhes trazem, foram dizer às mãezinhas que os pobrezinhos daqui e elas colectam roupas à saída da missa da sé para que depois os filhos fodam e façam filhos que um dia vão ser crescidos, pegar nas armas que os chefes dos papás vendem às escondidas (porque não precisam de foder as meninas da guerra, fodem as meninas da paz) e depois vão todos matar os paizinhos com tiros na cabeça e dançar e jogar futebol com as suas cabeças cornudas.

ai credo, diria a mãezinha do menino se soubesse e já não diz nada quando a notícia chega pelo carteiro porque lhe dá um ataque de coração e pronto. e estava eu com a tesão toda quando voltei, tinha quinze quilos a mais, a cabeça cheia de tiros por todos os lados, um nervoso miudinho até para dizer bom dia e tu agora eras revolucionária e aquilo que sempre me negaste por seres de boas famílias (e eu tão ingénuo), davas agora aos camaradas em nome da libertação e acho até que eram as tuas mamas que eu um dia vi quando ia a sair do café e passavas no meio da manifestação, eu todo encolhido a um canto com medo que fosse a guerra outra vez, a correr para dentro e a fechar-me na casa-de-banho,

onde, de repente, eu parecia que ia ficar sossegado ou então era outra coisa qualquer, a voz do tenente ou o cantar dos passarinhos, a tropa que eu nunca fiz ou as cassetes, sabes, eu confundo tantas coisas umas com as outras que, às vezes, já nem sei bem que idade tenho, mas sei que era pequenino, dezassete aninhos e tão virgem, e depois quando já era grande e sujo, tu disseste-me que quem escrevia as cartas era a minha tia que tinha ficado solteira e gostava muito de mim e eu acho que não percebi bem o que querias dizer, acho, porque me fechei dentro da casa-de-banho e me pareceu que agora ia mesmo começar tudo outra vez, um dois esquerdo direito, um dois esquerdo direito.

3 comentários:

  1. Sou muito curiosa de histórias da guerra, ando sempre à procura de testemunhos. Tiveste sorte e tens talento. É o que aqui se vê.

    ResponderEliminar
  2. o peso terrível da guerra.

    Gosto muito de o ler, a sério que gosto.

    ResponderEliminar