sábado, 29 de abril de 2006

sapatos

o barulho dos sapatos toc-toc a descer as ruas da vila e o sol concentrado todo na sua cabeça protegida pelo boné que lhe tinha dado a mãe, era agora um homenzinho e os sapatos toc-toc, as costas muito direitas, o levantar, um pouco só, o chapéu quando passavam as senhoras, parar a olhar os jornais da capital para lhes descobrir as imagens e as letras gigantescas, ouvir um parceiro do lado a comentar guerras e jogos de futebol,

o barulho dos sapatos toc-toc na avenida principal, a calçada muito certinha e brilhante, aquele sol todo, a estação dos comboios ao fundo, pelo meio das árvores, e entrar no café, encostar-se ao balcão e pedir um copo de vinho branco muito fresco, ainda o cheiro das vinhas colado na borda do copo e os sapatos toc-toc no chão varrido do café, vozes muito altas a pedir bifanas e cafézinhos, uma mistura de vendedores e professores, a escola em frente,

algumas meninas a passear de mão dada e livros a esconder os peitos muito amarrados em colarinhos de rendas, os sapatos toc-toc e um sorriso malandro para o companheiro que enterrava o nariz numa sandes de fiambre e tinha os olhos muito abertos, o copo de vinho branco muito fresco numa mão e o boné pousado no balcão de pedra, algumas meninas a passear e a vontade de assobiar reprimida pelo olhar censor de um professor que entrava,

os sapatos toc-toc, as mãos a endireitar a camisa, o boné bem colocado como tinha visto, uma vez, nos filmes, alguma algazarra porque os filhos dos comerciantes gostavam de jogar ao boxe com os tipos que, como ele, vinham da aldeia, uma corrida até ao mercado outra vez, a carregar sacas de batata e couves para cima da camioneta outra vez, os sapatos toc toc a apertar muito os pés, e a camisa cheia de vincos e de pó daquele chão, uma criada que ainda lhe grita, rapaz, guarda-me três quilos que me atrasei,

e o regresso a casa pela noitinha, compor as sacas e renovar as couves, amanhã mercado outra vez, noutra vila, noutro lugar, o boné bem arrumado em cima de uma cómoda muito velha, a camisa a endireitar-se nas mãos da mãe que parece não dormir, sempre de pé quando ele acorda, ainda pela cozinha quando ele se vai fechar no quarto, o prazer de fumar um cigarro da janela para a rua e aquele silêncio, os sapatos toc-toc arrumados debaixo da cama, os pés doridos de um não aguentar aquilo tudo.

sexta-feira, 28 de abril de 2006

alferes

e agora vamos começar tudo outra vez, um dois esquerdo direito, um dois esquerdo direito, uma voz forte de tenente a gritar-me aos ouvidos enquanto eu fecho os olhos e começo a ver tudo muito devagar, assim como as cassetes vhs que podíamos ver câmara lenta, muito muito câmara lenta, com riscos de várias cores no lado de baixo do écrã e com a mãe a entrar na sala e a tentar dizer-nos, como se fosse uma estranha, que aquela coisa de ver os filmes em câmara lenta ia acabar por estragar todas as cassetes.

e agora vamos começar tudo outra vez, as botas muito engraxadas, as camisas muito engomadas e eu a passear pelos corredores da gulbenkian enquanto te esperava e a olhar para as fotografias de umas obras que eu não percebi muito bem de como eram todos aqueles jardins e casas e árvores plantadas antes de tudo ser como é hoje ou num dia daqueles que agora passou, pessoas de camisas às riscas a comer sandes de fiambre e o cantar dos passarinhos no meu ouvido como se de repente eu tivesse voltado atrás e

fosse a voz forte do tenente outra vez, o barco que eu me esquecera de apanhar porque era tarde ou porque era cedo, as cartas que tu me escrevias e mandavas para angola e que eu recebia aos montes uma vez por mês e mesmo assim escrevia-te quase todos os dias a tentar inventar na minha cabeça aquilo que me tinhas escrito e a tentar fazer um nexo entre as saudades que tu sentias de mim e a vontade que eu tinha de te possuir outra vez, porque não tinha muito jeito, eu saí de lisboa virgem, dezassete aninhos e virgem, o que haveria de pensar o meu pai, se fosse vivo,

e agora quando te escrevo já fodi umas quantas miúdas aqui da guerra, que vêm para a guerra para foder connosco e nós damos-lhe comidas e alguns que chegam pela segunda vez até roupas lhes trazem, foram dizer às mãezinhas que os pobrezinhos daqui e elas colectam roupas à saída da missa da sé para que depois os filhos fodam e façam filhos que um dia vão ser crescidos, pegar nas armas que os chefes dos papás vendem às escondidas (porque não precisam de foder as meninas da guerra, fodem as meninas da paz) e depois vão todos matar os paizinhos com tiros na cabeça e dançar e jogar futebol com as suas cabeças cornudas.

ai credo, diria a mãezinha do menino se soubesse e já não diz nada quando a notícia chega pelo carteiro porque lhe dá um ataque de coração e pronto. e estava eu com a tesão toda quando voltei, tinha quinze quilos a mais, a cabeça cheia de tiros por todos os lados, um nervoso miudinho até para dizer bom dia e tu agora eras revolucionária e aquilo que sempre me negaste por seres de boas famílias (e eu tão ingénuo), davas agora aos camaradas em nome da libertação e acho até que eram as tuas mamas que eu um dia vi quando ia a sair do café e passavas no meio da manifestação, eu todo encolhido a um canto com medo que fosse a guerra outra vez, a correr para dentro e a fechar-me na casa-de-banho,

onde, de repente, eu parecia que ia ficar sossegado ou então era outra coisa qualquer, a voz do tenente ou o cantar dos passarinhos, a tropa que eu nunca fiz ou as cassetes, sabes, eu confundo tantas coisas umas com as outras que, às vezes, já nem sei bem que idade tenho, mas sei que era pequenino, dezassete aninhos e tão virgem, e depois quando já era grande e sujo, tu disseste-me que quem escrevia as cartas era a minha tia que tinha ficado solteira e gostava muito de mim e eu acho que não percebi bem o que querias dizer, acho, porque me fechei dentro da casa-de-banho e me pareceu que agora ia mesmo começar tudo outra vez, um dois esquerdo direito, um dois esquerdo direito.

quinta-feira, 27 de abril de 2006

manifesto

quando a literatura for uma aula de linguística, eu desisto.

enquanto for qualquer coisa que rebenta constantemente dentro da minha cabeça, sou resistência armada.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

coisas a fazer quando a noite chega

e ainda o meu estômago se desfaz de dentro de mim para se destruir pelo chão da casa - e sim, era isso que eu escondia no dia antes de ter morrido. todo eu a arder por dentro ainda agarrado a este teclado onde escrevo os meus últimos dias - horas- qualquer coisa pelo meio. era isto que eu te queria dizer ou escrever uma epopeia, o que ainda seria melhor. todos nós queremos que nos leiam muito, muito, e para isso não se conta com os leitores, basta escrever uma coisa enorme, que demore muito tempo para ser lida e exija umas quantas releituras até que seja percebida. e então a história da nossa vida começa com uma lista que quase nada tinha a dizer para as gerações que a encontraram - era uma arqueologia ignóbil, de umas quantas pessoas sem escrúpulos e sem namorados. quatro homens que viviam dentro de uma casa e que comiam apenas aquilo que desenterravam. chegaram a este acampamento ainda novos e passados poucos dias já se entretiam em exageradas práticas de sodomia até que, enfartados de tanto desprazer sexual, acabaram por se mutilar, dando marteladas nos dedos sempre que sentiam um desejo enorme de escavar as próprias feridas com os seus dedos de unhas roídas.

mas melhor, melhor ainda, era uma outra história em que o guarda do acampamento os olhava com uns binóculos militares trazidos de um cenário de guerra, enquanto lá fora os verdadeiros militares se divirtiam a alvejar civis e cobras de água. o meu nome era João, o meu nome era Álvaro, o meu nome eram todos esses nomes que agora já não me chamas. de onde vieste tu ontem à noite quando chegaste assim tarde a casa? e o mais engraçado é que já nem vivíamos juntos, estavamos divorciados, como toda a gente, e cada um de nós pendurado em gaiolas nas varandas da avenida de roma. entretanto chegaram os meus primos de angola, tinham camisolas compridas e os olhos com ramelas. eu não me fiz de esquisito e despejei o meu guarda-roupa na cama deles. e depois chegou a minha tia, a minha mesma tia de sempre, e cuspiu-me em cima enquanto soletrava baixinho o hino da marselhesa. era a esquerda livre e as tontices do costume, enquanto a tropa batia nos pretos e nos meus primos, e depois também em mim e na minha tia porque já nem ela era a filha predileta do general, nem o marido agora a queria para alguma coisa. somos todos muito felizes com esta saliva que deus nos deu.

um pouco mais à frente, na casa do lado, o caso era o de um alcoólico que fazia a contabilidade da companhia das índias. eu e a mariana ríamos muito baixinho com os ouvidos encostados ao rádio a pilhas do papá enquanto fazíamos planos de quecas a dar no século seguinte. nunca fui tão feliz como contigo, pensou o meu braço agarrado por ela, mas era mentira. tínhamos todos as bocas sujas e os cabelos demasiado crescidos. eu desci pela rua principal de benfica, aquela que vem das portas e vai dar ao califa, e encontrei o lobo antunes a comprar cigarros. pedi-lhe lume e ele disse-me bom dia como se eu fosse lá do bairro. mas isso era antes de começarem a estalar os foguetes na minha cabeça, antes até de eu acordar. era o barco para ir prá tropa e eram quinze virgens a dançar na minha frente, no baile da aldeia do papá. com tudo isto, a polícia proibiu-nos de ouvir rádios a pilhas.

mais uma coisa, só mais uma coisa. este vício de crescer assim aos bocadinhos, como a barba que se corta rente e desregrada com uma lâmina já gasta, é uma coisa que me vem de longe. comecei a escrever com quinze anos e pensava que o mundo ia acabar sem raparigas. por causa dessas mesmas coisas parvas que eu escrevia, uma mulher que eu não conhecia agarrou-me pelas calças, rompeu-me o fecho e quis fazer amor comigo. eu era demasiado novo ou demasiado parvo e a única coisa que me lembro foi de urinar calças abaixo enquanto chorava. sempre estive demasiado sozinho comigo mesmo e o escuro desta sala não me deixa sequer respirar. mas quantas vezes é preciso repetir a evidência até que ela deixe de existir. eu sou sempre uma outra coisa do que aquilo que sou na verdade. e as mulheres podem entrar e sair como quem vai às compras - o meu coração é uma porta rotativa.

quantas vezes mais chegaste tu a dizer-me que me querias tocar e eu ria-me. ria-me porque não sabia bem o que isso poderia significar na astrologia destes símbolos. depois foi também essa a maneira a que eu recorri para fingir que a morte se pintava de negro como os casacos. até ao dia em que entrei na sala onde o meu avô se tinha enforcado e não senti nada - não senti mesmo nada. olhei para o lugar, para o lugar onde ele tinha estado e nada. e agora que estou tão longe sinto o pescoço a apertar-se como uma gravata à qual não sabemos dar um nó. puxa daí ou daqui, era eu que estava a morrer devagarinho ou era o contrário? era este mundo ou era outro qualquer? tantas coisas que continuo sem saber dizer.

e chegaste enfim tu para me dizer que sempre me amaste e que eu não soube cuidar de ti. quando se pede a uma criança para tomar conta dos pais? eu vou descer as escadas com aquela aparência calma que toda a gente toma por verdadeira. e depois um dia estouro com os miolos (ou não estouro, não vou precisar, eu a morrer por dentro como o marinho, eu sei o que ele sentia todos os dias e eu sei como se faz, ele ensinou-me tanta coisa) e todos estes homens que se estão a matar na minha vida são como abraços que eu recebo de alguém. não sei mais a tua história mas a minha é clara, clara, clara. adeus amor, que se faz tarde, vou para o mar, vou para o mar.

porque já não havia ciência e agora perdeu-se a paciência. repetir repetir para quê? havia uma música que eu ouvia sempre e as vizinhas gordas a dançar contra as paredes. havia mensagens no elevador e coisas que não acabam nunca. o meu mundo não é o teu mundo nem é o mundo de nenhum daqueles artistas que tu viste na tv. eu sou aqui quieto e calado. eu sou aqui a morrer devagarinho, a arrancar-me pedaços para misturar com o iogurte. e quando eu te faço poemas de amor sou eu que morro mais um pedacinho, fábrica de transformar lágrimas em coisas que os rapazes vão acabar por ir oferecer às meninas na escola. e todo este enjoo e todo este nojo e toda esta morte, por dentro, devagarinho.

mão

pegar-te na mão e encontrar, ao fundo, o banho onde nos recomeçamos, como recomeçam as pequenas histórias de amor inventadas nos livros infantis. recorrer, sempre, às palavras certas, dizendo-as baixinho para não assustar. ter, no tom de voz, a afirmação total do nosso encantamento. estas e outras coisas, tão leves, tão leves.

pegar-te na mão e num lápis, inaugurar páginas outrora brancas com letras e riscos que te fazem sorrir por longos minutos refractados na minha imagem do mundo. recomeçar, recomeçar, fazer-me acreditar que tudo é possível, porque, de facto, tudo é mesmo possível. abrir os livros uma e outra vez e em todos os lugares seres tu quem me aconchega.

pegar-te na mão e saber que aquele momento explode nos nossos corações como uma festa de aldeia. ouvir a tua voz de encontro à minha, abraçar-te. sentir devagar, como devagar se nasce e morrer, as saliências da tua pele. reconhecer-te como um mapa que trago dentro da cabeça, onde me entrego e nunca, nunca, me perco.

segunda-feira, 24 de abril de 2006

a vida toda

um dia, a vida toda, querer agarrar-te um momento, um minuto, uma canção, a solidão, três vezes quatro fazer as contas, um dia, uma manhã, a vida, a vida toda, um poema, uma morada, uma chegada, um encontro, um dia.

um dia, a vida toda, chamar pelo teu nome tão completo de tudo, pensar os teus olhos e voar pelo universo, cabelos que brilham nos dedos, um dia, a vida, a vida toda, uma canção, um irmão, um desejo, um desenho, um dia.

um dia, a vida toda, só querer e já te encontrar, nunca ser tarde demais para ter a tua voz, a tua mão, o teu abraço, esse conforto, um dia, a vida, a vida toda, a frase, o texto, a imagem, a água, os rios, o eu, o tu, um dia, a vida, a vida toda.

agenda

adeus/adeus - hoje não há trânsito nenhum nas estradas, as pessoas todas de férias - adeus- chuva no algarve e beijinhos da tia que já foi embora porque, mesmo amanhã sendo feriado, tem que pôr ordem na casa antes do início da semana (que desta vez serão só três dias). adeus - ou uma outra maneira de te dizer que os domingos são só um intervalo no pesadelo.

o despertador toca à mesma hora todos os dias e nem é bom questionar porque é que ganhei este hábito - primeiro era a escola depois o trabalho - já que adormeço sempre que preciso mesmo de chegar a horas - e depois o emprego e depois a obrigação - e toda a gente pensa que eu sou um irresponsável com horror aos compromissos - e agora, mesmo no desemprego, sempre à mesma hora.

adeus [então] adeus - fazes-me lembrar aquela canção dos teus olhos e dos meus, comprei lápis-de-cor para te colorir a fotografia e acabei por me assustar com as notícias dos jornais - logo a mim, que nunca tinha tido nenhum amigo na capa de um jornal - tu, fria e comovida, logo pela manhã. adeus / adeus / adeus, beijinhos da tia que agora já nem sei bem a quem entregar, esta semana, de tão curta, não tem espaço para as lágrimas.

domingo, 23 de abril de 2006

[]

não basta o sono -
tem que doer doer doer. dizer as coisas que estou sempre a repetir. ir ir. pessoas feias como nós por todo o lado e eu aqui - não basta o sono, não não, não basta a mão que me arranca pedaços de mim - tem que doer, doer, doer.

não. não basta - sem pausas, por favor, sem pausas.
tem que ser forte, tem que ser grande, tem que ser capaz, tem que ser, sobretudo, incapaz de múltiplas maneiras. pam pam pam. doer, doer, doer. a mão e as pessoas - sempre igual igual - repetir- ir.

não. e eu disse não páras nunca, não páras nunca.
não - sim - não - sim - tem. tem! porque me disseste outra vez, sempre aqui, sempre aqui, e eu - sim! - sim, não basta o sono, tem que doer, doer, partir, doer, manipular, doer, arrancar, doer. pedaços pedaços pedaços de mim - fora fora - não pára nunca. não.

não.

borboletas

acordar e, nos meus olhos, borboletas nos teus cabelos - pode ser do escuro, da música, da conversa - borboletas, presas, e o teu pescoço - branco branco branco - que eu estudo com o vagar das batidas dos dedos no tampo de madeira enquanto com a outra mão pego num copo que se vai esvaziando na medida em que todo em volta fica ainda mais quente.

acordar e, nos meus olhos, borboletas que falam - os teus cabelos - e também uns quantos homens de barbas a subir e a descer ruas, a música na rádio, os teus olhos de encontro aos meus, os meus olhos que fogem à procura de respirar, o teu pescoço - branco luz branco - que eu trago em sonhos que não posso confessar a mais ninguém que me perceba.

acordar e, nos meus olhos, borboletas que sorriem - como sóis, quentes e naturais - amanhã de manhã qualquer coisa de igual, o dia à espera de um sinal, a tua voz no gravador de chamadas, os teus dedos a enrolar papéis, o teu pescoço - luz branco luz - e eu a perceber que mesmo as asas mais pequenas são capazes de te levar para muito longe de mim.

sábado, 22 de abril de 2006

lista de compras

nem tanto mar, nem tanta terra, a luz que bate, cinzenta, na janela fechada cá de casa, o tempo escuro, o mar, um muro, o corpo deitado pela cama, a rádio ligada, a porta aberta, os passos em volta, o cão à solta, nem tanto mar, nem tanta terra, a tua palavra que me encerra, o fim, o dia, desgosto, mar, os pés elevados sem descansar.

nem tanto pão, nem tanto não, nem todas as coisas que se dizem a um irmão, nem este carro, nem nenhum charro, olhos abertos, olhos fechados, dedos que tocam, deste lado do mar, a terra que sopra, que te faz sonhar, nem tanta luz, nem tantos cus, nem margarinas, nem lantejoulas, nem serpentinas, nem as vizinhas, nem as meninas, nem as senhoras.

nem tanto assim, nem tanto assado, o dente sempre em pão duro enterrado, nem um cigarro, nem um encontro, nem televisão, nem totoloto, nem deus me ajude, nem paz no mundo, nenhuma daquelas coisas de quando eras miúdo, nenhum enguiço, algo submisso, a luz que bate, cinzenta, a chuva, a pulga, o cão, eu não.

quarta-feira, 19 de abril de 2006

three pounds

car le monde c'est comme ça, faz de mim o teu saco de porrada, faz, quero lá saber, eu a dançar em cima do ringue, e os teus punhos pequeninos a acertarem em cheio, no meu peito, nas minhas ideias, na minha boca, faz de mim, sim, o teu saco de porrada e paga-me um café antes de saíres da minha vida.

le monde, le monde, falas em francês e chutas na minha canela, bola para canto, e as tuas lágrimas que caem como crocodilos, ainda te podia dizer, não gosto quando me falas assim, mas no entanto, podes falar, diz, diz, que assim eu aprendo mais duas ou três palavras e fica mais fácil de me esquecer de ti.

car le monde, e os teus punhos, a acertar a acertar, faz de mim o teu saco de porrada, faz, faz, quero lá saber, eu a dançar em cima do ringue que são as ruas desta cidade, apetecer-me voltar a pé para casa, pedir um cigarro a um desconhecido, cuspir no chão, a minha vida e um resto de sangue, um resto do café que me pagaste.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

primeira estação

é dificil saber de mim, serei homem ou borboleta, qual das partes do meu sonho eu não posso tocar quando chega a luz do dia às paredes do meu quarto? é dificil saber de mim, quando caminho à beira do vasto mar, onde os meus pés se sentem frescos porque são pela água beijados ou porque são asas a bater ao sabor do vento. é dificil saber de mim.

é dificil delimitar o sonho, tantas horas passadas no mesmo momento em que, acordando/adormecendo, eu me reencontro com o que era antes. é dificil delimitar o sonho, árvores que descem pelas escadas da casa, um peixe que me abraça ao ver-me chegar, as horas sempre desacertadas dos ponteiros dos relógios. é dificil delimitar o sonho.

é dificil encontrar a corrente, quando os teus pés/asas levantam voo/assentam sobre um chão de pó e fósseis de antigos amores. é dificil encontrar a corrente que te pega pelas mãos e pelas antenas, que te deixa incerto perante o sono, a boca que deseja falar e não consegue, os sentimentos todos os mesmo tempo repartidos. é dificil encontrar a corrente.

quinta-feira, 13 de abril de 2006

exercício

era uma luta constante, o teu sopro e o meu, correr descalço embora daqui, os pés dentro de água, que fria que fria!, gritinhos espalhados pelo eco dos ouvidos, o paredão, as tardes ao sol, os beijos, os queijos, a fruta, a areia espalhada pela entrada da casa quando chegavamos, o tempo, o tipo, o tio, o fumo, era, era uma luta constante, cabeças, abraços, melómanos, regaços, embora, embora daqui, uma e outra frase outra vez dita surdamente ao ouvido de quem passa.

era era era, uma luta, uma luta constante entre o teu coração e o meu, horários, calendários, armários, os livros espalhados em cima dos sofás, as tuas roupas, os teus vestidos, os pés duridos, manhãs, maçãs, no rosto, aposto, anoto, lua nova outra vez e na tua pela quadrados amarelos de um jogo para inventar, os teus dedos, os meus medos, os meus toques, amoques, almoço, dorso, cavalos, areia, luta, luta, embora, daqui, uma e outra frase outra vez dita surdamente ao ouvido de quem passa.

era e era e era e era e já não é, não, tudo tão calmo como este mar maré vazia, aposto que os barcos até perdem a tesão, a vontade de navegar, os pescadores todos na costa, com as costas no paredão, cigarros na mão, casacos, sapatos, fraternos, cadernos, rumos desencontrados com as horas marcadas do destino, relógios, tenores, tremores, temores, amores, amores, era e era e era e já não, não, não, nada nas mangas, nada, só, sozinho, para poder repetir, repetir-te, baixinho, uma e outra frase outra vez dita surdamente ao ouvido de quem passa.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

Espelhos, batons e meias verdades*

olho devagar as coisas que passam se estou sentado no lugar de onde se vê a entrada deste café. trouxe o casaco para manter as mãos nos bolsos mas elas fogem sobre o tampo da mesa, a querer fazer gestos e desenhos no ar, coisas que talvez não percebas, mesmo que as olhes durante muito tempo, a noite toda. enquanto me levanto para procurar um cinzeiro, tu corriges a geometria da tua franja em frente a um espelho. e ao sentar-me retiro os cigarros do bolso.

sinto o tempo a passar por mim só porque me crescem alguns cabelos brancos sobre a orelha esquerda. tenho um metro e setenta e oito e alguns quilos a mais, a barba feita esta manhã. se estou sentado no lugar de onde se vê a entrada deste café, sou capaz de me aperceber do exacto momento em que tu entras. para as outras pessoas sou só um homem que fuma. para ti, sou o homem que fuma à tua espera. tens um baton muito suave a delinear-te os lábios, um perfume capaz de fazer dançar uma fotografia. e eu tiro o cigarro dos lábios, deitando o fumo fora numa nuvem.

muitas coisas me fizeram sentir pequeno desde o tempo em que tenho idade para me lembrar das coisas. também sou capaz de me lembrar de algumas outras coisas sem idade. sentados na mesa do café, podíamos rodopiar como um filme do tarantino, sem a sensualidade dos actores, mas com algumas palavras bonitas a saírem-nos dos lábios como dedos que se seguram uns nos outros. se estou sentado no lugar de onde se vê a entrada deste café, as meias verdades não resultam. e eu apago o cigarro, por fim.

* frase retirada do blog escada rolante de autoria de Daniela Catulo

terça-feira, 11 de abril de 2006

m.e.d.o.

és capaz de imaginar o mar, daqui de onde nos sentamos, com este rio imenso que quase nos beija os dedos dos pés, se estivessemos descalços? eu talvez consiga procurando na mestria das palavras, uma qualquer coisa com sentido para te dizer. até lá, vou ficando embriagado pelos teus olhos quando se fixam num ponto além rio, e ao teu lado faço a geometria da tua existência. as minhas mãos, tenho-as presas uma na outra. queria ser capaz de chegar até ti mas tenho medo.

és capaz de imaginar o futuro, os dias onde vamos estar crescidos e fardados, com esta tarde que cai calma sobre os nossos ombros? rimo-nos um do outro aos pedacinhos enquanto tu vais tirando cigarros da tua mala. eu deslizo os meus olhos chorosos pelo teu pescoço e deixo-me cair na armadilha do decote. a minha cabeça parece chegar-se a ti, querendo sentir o teu cheiro, o toque dessa pele que me chama. nas mesas do lado, os homens falam muito alto. eu quero chegar a ti mas tenho medo.

és capaz de me pegar na mão e levar-me para onde tu sabes que ambos queremos estar com todas estas escadas até encontrarmos uma saída? atravessamos a estrada e a minha vontade era suspender o tempo e, de repente, não ser mais nem domingo, nem segunda, nem terça, e não haver nem jantares nem alguém que nos espere, ouvir este barulho da água no repuxo é tão bom, e os teus olhos, a tua pele, que me chama, que me queimam, e eu quero estar em ti mas tenho medo.

sábado, 8 de abril de 2006

eu, na livraria

depois de almoço, as pessoas da cidade andam mais devagar - só os meus intestinos insistem em fazer-se despachados, sempre prontos a deitar para fora aquilo que, inocentemente, levei à boca. as pessoas da cidade, na verdade, quase nem andam, têm os carros e os as mãos em concha, agarradas aos volantes, fazem-lhes as vontades; no meu tempo isto tinha um nome, passeios de sábado à tarde.

depois de almoço, os meus intestinos não me deixam descansar, empurram-me violentamente até à sanita e fazem-me despejar os detritos e as angústias. na minha cabeça imagino a maçã que acabo de descascar e mastigar a empurrar uma série de outras coisas comidas em dias anteriores que, sem oportunidade de gozar mais o espaço de estar dentro de mim, se vêm compelidas a massa despojada. na cidade, o silêncio corta-se aos pedacinhos pela passagem dos carros.

depois de almoço, talvez porque seja sábado e aos sábados as pessoas almoçam todas à mesma hora - ou ficam dentro das casas, nas cozinhas, todas entre as mesmas horas. esta sensação de tudo parar à nossa volta, só o alcatrão ainda sobreviver com o contactos da borracha dos pneus que o acaricia. não oiço sequer uma palavra. no entanto, enquanto me sento à sanita, uma série de coisas me afloram o espírito - não posso dizer muito mais, mas inventei um mundo que existe nestes tempos mortos, em que, mais que me dedicar à dissertação, concretizo datas e pessoas bem concretas.

depois do almoço, as calças de novo apertadas, a face inspecionada no espelho, os dedos mergulhados no meio dos caracóis que me povoam a careca, a rua sozinha e silenciosa, os passos a ouvirem-se com distinção, capazes de me fazer imaginar alguém que passa ao meu lado quando mantenho a cabeça baixa. depois do almoço, algumas sensações de trabalho bem feito, apesar de não haver trabalho nenhum, nem pedidos, nem ameaças, nem carinhos combinados para mais logo. depois do almoço, eu, na livraria.

teclado

ou não era nada disso que eu queria dizer porque pensava que vinhas no outro dia, não neste em que vieste e que aconteceu não me encontrares. porque o suposto eras teres vindo no dia em que combinaste embora eu também saiba que o suposto é uma roleta onde só algumas vezes acertamos. e isso e agora eu aqui a comer amendoas e a pensar que o coelho que chega na páscoa tem as orelhas empinadas ao contrário de todos aqueles coelhos já sem pele que comia ao almoço e ao jantar com arroz e ervilhas. talvez não fosse por isso, ou por isso mesmo, que ao andar por uma lisboa adormecida, entre os funcionários da câmara e a procura de lugares de estacionamento em contra-mão, eu desse com um palacete cheio de gente amiga que me recebeu como se eu fosse um primo da casa e pôs sumo e bolinhos em cima da mesa da biblioteca. era isso e era alguma poesia lida em voz alta a fazer eco com as motoretas que passavam a rua a descer e ainda seriam capazes de encontrar vizinhas bonitas a espreitar das janelas. era tudo isso e uma vontade de dizer que quero ficar aqui a noite toda misturada com uma sensação de quero ir-me embora mas não para a minha casa, as pessoas telefonam umas às outras e algures em largos como este já se fizeram revoluções. bastava pouco, bastava muito pouco para me fazer feliz outra vez, nas horas úteis.

hi5

raquel kalita joão maria ana ricardo pi joão zemaria carina fada margarida susana vanda eduardo di ricardo pernas ana ana jo dany francisco margarida hinolagay carla ana túnel miriam ana thiara rui mariaa solange verónica isabel fest ni rita ricardo isabel rosa cláudia aline ana joão andreia isa ana catarina marta vania k mariana rui henrique andrea helena gina catia juju diana carina nuno sonia marco joão liliana edson ana paula joana melanie lill ricardo maria ivan mariana joana ana rui lurdes ines tt mariana renata filipa susana sandra dani cristina cath daniella rita rakel african rita leonor marina pedro pamela patricia ana paloma ana e helena raquel gil ana andreia catia ana clare alexandra marco rita raul catarina l concha sara elisa rose adla sara nina herminia michele cabanas etrusca sandra ana zelia andreia tania maria paulo sandra sirlene berta adriana joan daniela elder elmira karla elsa leonel etiene carla

terça-feira, 4 de abril de 2006

contribuição para o conceito de lugar

este peso do e-mail outra vez, do e-mail que não chegou, a televisão ligada no primeiro canal e um cigarro a apagar-se sozinho no cinzeiro, os olhos que se fecham e abrem muito devagar, com pequenas lágrimas de cansaço, este peso do e-mail outra vez, do e-mail que não chegou, as mãos muito muito vazias que ainda há pouco pareciam juntar-se e apontar a uma oração, que ela esteja agora a escrever qualquer coisa, que ela esteja agora a sorrir e a pensar em mim, as mãos muito muito vazias destas coisas que se repetem como nos filmes, mas ao contrário dos filmes aqui nada acontece, as mãos muito muito vazias e logo, este peso do e-mail outra vez, este peso do e-mail que não chegou.
a televisão ligada no primeiro canal e um cigarro a apagar-se sozinho no cinzeiro, os olhos que se fecham e abrem muito devagar, com pequenas lágrimas de cansaço, as mãos muito muito vazias, tão vazias que parecem cada vez mais magras, cada vez mais magras e sós, vazias, a televisão ligada no primeiro canal e alguns erros ortográficos naquilo que se escreve, os olhos que se fecham e abrem muito devagar e o peso daquele e-mail outra vez, daquele e-mail que não chegou, uma ou duas coisas por dizer, as mãos magras e sós, muito muito vazias, o peso do e-mail, sim, e a televisão ligada no primeiro canal.
um cigarro a apagar-se sozinho no cinzeiro, os olhos que se fecham e abrem muito devagar, com pequenas lágrimas de cansaço, as mãos muito muito vazias, tão vazias que parecem cada vez mais magras, cada vez mais magras e sós, que ainda há pouco pareciam juntar-se e apontar a uma oração, que ela esteja agora a escrever qualquer coisa, que ela esteja agora a sorrir e a pensar em mim, o peso deste e-mail, deste email que não chegou, vinte e sete anos o peso deles, um cigarro a apagar-se sozinho no cinzeiro, os olhos, o peso, as mãos vazias, as mãos, vinte e sete anos e tudo deles, ainda deles, este cigarro a apagar-se sozinho no cinzeiro.

segunda-feira, 3 de abril de 2006

é só seguir os traços, os sinais.


de onde eu estava só se via assim metade uma parte da canção que eu imaginava por completo na minha cabeça mas dava para ver bem, muito bem até, os dedos de unhas pintadas e o corpo era eu que completava com lápis de cor na minha cabeça, de onde eu estava só se via assim metade, tudo o resto uma folha em branco para preencher limites e deslimitações, era isso que eu fazia na minha cabeça uma vez mais, de onde eu estava, do sítio onde eu estava.
tudo o resto era música e música a entrar na minha cabeça, de onde eu estava que era uma espécie de lugar onde tudo nasce, só se via assim metade uma parte da canção que imaginava por completo com duas pernas dois braços e um sorriso de fazer tremer emoções, era assim que eu imaginava, dentro da minha cabeça, tudo o resto era música e música a entrar na minha cabeça, tudo o resto desenhado a lápis de cor, por mim, que não a reconheceria se me aparecesse cara a cara.
tudo o resto era a outra metade daquela metade, outra parte da parte da canção que imaginava por completo na minha cabeça, como se pode imaginar com lápis de cor e danças muitas outras, mas dava para ver, de certeza, os dedos de unhas pintadas, uma certeza de manicure pela manhã, naquela mão bem branca e macia, pelo menos de onde eu estava, onde só se via metade uma parte da canção que eu imaginava na minha cabeça, lápis de cor a pintar no papel, a folha em branco.

sábado, 1 de abril de 2006

because my heart is still mine

fizemos as despedidas naquele café, sem que ninguém desse por isso. ficamos ao balcão os dois, ao lado de um senhor que fumava ao olhar para o futebol na televisão, e logo começamos a deixar correr as coisas que não tinhamos tido tempo para nos dizermos nas últimas semanas, de como eu tenho tanto corrido para todo o lado sem razão, de como te tem sido pesado abandonar uma cidade que não te trouxe quase nada. fizemos as despedidas naquele café, sexta-feira à noite, no meio das conversas dos outros que falam muito mais alto do que nós. tu a inventar aos pedacinhos um futuro para o qual não sabes ainda que força reservar, eu a fazer contas, baixinho, aos dias que ainda vou ter que repetir na mesma máquina fotocopiadora. fizemos as despedidas naquele café porque, para nós, tudo passou demasiado depressa. foi depressa que nos fizemos próximos, dando ao outro os segredos que insistimos em pensar que nunca vamos dar a ninguém, partilhando os lugares nas salas escuras dos espectáculos e umas quantas centenas de palavras dentro do teu carro, à porta do meu prédio. tudo passou demasiado depressa porque fizemos as despedidas naquele café e agora parece que acabou, tu a ir embora para uma outra terra bem longe daqui, bem longe do logo à noite à mesma hora no local do costume. mas também ninguém notou porque sabemos que nos vamos voltar a encontrar.