quarta-feira, 22 de março de 2006

é sempre difícil voltar a casa

dois passos à frente, dois passos, stop, olhar, um café, um café normal, como os outros, como os outros cafés nestes bairros de Lisboa, um café, onde os empregados são todos homens sérios vindos da província e trabalham todos os dias para construir marquises nas casas da Massamá, onde os clientes são velhotes e velhotas que sempre viveram ali, que ali vão todos os dias e que passam as tardes a comer bolos, depois de todos os engravatados terem saído porque só têm meia-hora para almoçar.

dois passos à frente, dois passos, atrás, entrar. engasgar no que se pede, sempre, e, uma garrafa de água, sentar-me em frente à montra, abrir um livro, aquele livro, tristíssimo, e ficar assim a namorar a prosa do Dal Masetto com a luz indirecta do sol de Lisboa a bater nos azulejos do outro lado da rua e a iluminar, apenas tenuamente, as páginas meio amarelecidas deste livro, onde quatro homens perdidos da vida chegam a uma terra desconhecida e acabam todos todos mortos.

dois passos à frente, dois passos, ops!, pagar, quanto é, faça a conta, ao mesmo tempo que duas raparigas do outro lado da sala se levantam, três? quatro passos?, quanto é, pagar, faça a conta, o empregado engana-se no troco (neste caso a casa ficaria a perder) eu digo não, olhe lá, uma das raparigas olha-me e eu sorrio-lhe, e ela sorri-me, e eu meto as moedas na carteira e saio a tropeçar do café, a pensar se atrás de mim não virá aquele sorriso, aquele sorriso que eu desconheço, algures num café como os outros.

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