quinta-feira, 2 de março de 2006

porta

o que tens perante os teus olhos é a porta da rua - a ordem de sair é o nosso silêncio inteiro e corporal, cinco corpos que já foram amor, antes de tudo, e depois carne, madeira, madeira que apodrecida se fez pedra, no lugar de se desfazer - o que tens perante os teus olhos é a porta da rua. a porta a porta a porta da rua. Há que convir, encontra-se um certo ritmo na repetição de certas palavras. a porta. certas palavras. da rua. o que tens perante os teus olhos é a porta da rua. a mesma porta que usaste para chegar a casa no dia do casamento. a mesma porta que usaste para levar o teu primeiro filho a nascer. a mesma porta que usaste para festejar os teus aniversários. a mesma porta por onde saíste para as festas. a mesma porta por onde entraste cansado e bebedo um monte de vezes. a mesma porta que fechaste com toda a força do teu universo após uma discussão. a mesma porta por onde entraste com um ramo de flores. a porta a porta. a porta da rua. perante os teus olhos - a ordem de sair é o nosso silêncio inteiro e corporal, cinco corpos que já foram amor, daquele amor incondicional que se exala por todos os poros, e depois foram carne, quando os começaste a olhar só por fora, só com a respiração e os dedos sujos, e depois foram madeira, uma madeira áspera à qual já não te podias chegar porque arranhava, porque te cuspia, e depois apodreceram de tanto se transformarem, ficando pedra, pedra que cresce dentro da casa e, silenciosa, te empurra para a porta, a porta a porta a porta da rua.

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