quinta-feira, 23 de março de 2006

hospital

até calhava bem estar de fato de treino - estar todo arranjadinho, na sala de espera do hospital, é uma falta de respeito para com a doença dos outros- calhava bem, o fato de treino, a chuva, miudinha primeiro, depois forte, a cheirar a trovoada - calhava bem, não tinha dormido na noite anterior, tinha acordado a correr para o duche, para o trabalho - pessoas a andar de um lado para o outro, caras tristes, quase ninguém está contente no hospital - as famílias como quem espera, as crianças a fazer birra em frente à máquina da comida - calhava bem o fato de treino, as olheiras, o cabelo despenteado - não havia nada de diferente entre mim e um cigano que jogava com o telemóvel, nada me separava do condutor de ambulâncias com cara de aflito - calhava bem, para o filme, para aquela montagem em cenário caquético - sim, porque o hospital, o maior hospital de Lisboa, é uma coisa velha, mais cinzenta do que a chuva, onde olhas para cima e vês paredes que já caíram, onde espreitas por janelas que não dão para lugar algum, apenas buracos e mais nada, e um sentimento crescente de impotência perante a chuva, o atraso das chamadas pelo comunicador, as dores dos miúdos, os cigarros dos pais, os trocos que acabam quando ainda te apetecia mais um café- calhava bem, o fato de treino, andar à chuva à procura de lugar para o carro, o som das ambulâncias a chegar e a partir, os jornais amassados debaixo dos bancos, um telefone a tocar, alguém que diz estou à espera, mas tudo bem, tudo bem, é de dia ainda, cinzento, o hospital não fecha nunca, as portas vão estar sempre abertas, e de tal forma isso é assim, tanto tempo esperaste, que quando o médico dá alta à criança tu páras outra vez em frente à máquina de café, e ficas a olhar o café a escorrer para dentro de um pequeno copo de plástico, com a criança agarrada às tuas pernas e a mãe dela a dizer que podes ir, já podes ir, mas tu ficas, estás ali há tanto tempo, ficas a olhar o café, a mexê-lo devagarinho - já agora, calhava bem.

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