quarta-feira, 29 de março de 2006

como?

porque é que nunca pensaste nisso? porque é que nunca pensaste nisso? parece-te normal? achas normal? parece-te normal? achas normal? porque é que nunca pensaste nisso? mas está a falar a sério? porquê? não? parece-lhe normal? porque é que nunca pensou nisso? nunca tinha pensado nisso? nunca? porquê? mas porque é que nunca pensaste nisso?

e no entanto ali estavas tu deitado no sofá da sala com uma mulher que se despia e te despia e tu gostavas, sentir assim um corpo contra a pele e a pele que se amacia a pele dela, ali, ali estavas tu, a fazer voltar à altura dos olhos aqueles cheiros e as tentações, as mãos que procuram onde fazer respirar o outro, ela, a mulher, uma mulher ali contigo no sofá da sala, que te abria as calças e te puxava cada vez mais, cada vez mais, cada vez mais a ela,

nessa idade até seria normal já ter pensado nisso. nessa idade já teria pensado nisso. tinha, quantos, dezoito anos, nessa idade. nessa idade, já devia ter pensado nisso. nessa idade. idade. idade. nessa idade. nunca tinha pensado nisso. do que é que estavas à espera, do que é que estavas à espera. nessa idade. nessa idade.

e de um puxão maior, as mãos dela a amassar a tua camisa, o teu corpo, o teu sexo, não tenhas medo das palavras, o teu sexo de encontro ao dela, riram os dois, o teu sexo de encontro ao dela, riram os dois, riram, e ela que quase te comia a orelha ao te dizer faz amor comigo, ela que certamente te comeu a orelha ao dizer-te faz amor comigo, e tu tremias de cima abaixo, e tu tremias de cima abaixo, nem as pernas sentias quando ela te baixava as calças, nem as pernas sentias quando ela te baixava as calças, nem as pernas sentias, calado, calado, calado,

acabamos por ir para a cama onde eu fingi saber alguma coisa do que se estava a passar. fazia gestos que me pareciam lógicos mas nada resultava. não havia nenhuma excitação, nenhuma magia. toda a festa dos beijos e das carícias estava perdida no meu medo performativo do acto sexual. adeus, princesa! ela passava os dedos pela minha cara e eu, calado, parecia dizer-lhe que não estava preparado, não estava preparado, como é que se pode não estar preparado quando o mundo inteiro te empurra para a primeira fila dos fanáticos do desejo.

ficaste ali até ser dia, ela ia voltar mais algumas vezes até ti e sempre seria o mesmo terror. ela, aquela mulher, bem como outras, outras mulheres, muitas mulheres a acreditar no calor do teu peito, com as suas mãos deslizantes pelo fecho das tuas calças, e sempre o mesmo ecoar dentro da tua cabeça, o mesmo terror, o mesmo choro baixinho de criança ao fundo do quarto. ficaste ali até ser dia, até subires os estores, até provares um novo beijo. ela ia voltar, mas saiu. tu ficaste ali até perceberes que nunca tinhas pensado nisto.

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