segunda-feira, 6 de março de 2006

cinema

era isso e era o outro dia, quando chegamos ao cinema e não havia mais ninguém para ver o filme, apenas eu e tu, ou melhor, apenas eu, porque tu não estavas mesmo lá, vinhas a caminho, de metro, de comboio, de autocarro, era o outro dia em que chegavas à minha frente e te sentavas ao meu colo, a apertar-me o pescoço com as tuas mãos pequenas, a morder-me as orelhas e a suspirar, de plástico, e quando chegamos ao cinema e não havia mais ninguém para ver o filme, ficamos contentes, uma sala grande só para nós, mas depois chegaste tu e chegou mais uma ou outra pessoa a comprar bilhetes, sentamo-nos na última fila e tu encostaste a tua cabeça ao meu ombro, e depois deste-me a mão, e depois eu pus o braço à volta da tua cintura, eras pequena e deliciosa, como os dias todos de um verão que não acaba, e deixavas que eu procurasse a tua pele, e abrias-me os botões das calças porque dizias que não vivias sem o meu pau, era isso e era o outro dia, as mesmas coisas que eu gostava de ouvir porque tu me tinhas ensinado que era possível, o estarmos sempre prontos para nos termos um ao outro, o não sabermos de outra maneira, o chegarmos ao cinema e não haver mais ninguém para ver o filme, era isso ou era isso que nós queríamos que fosse, o outro dia, o outro dia.

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