quarta-feira, 29 de março de 2006

como?

porque é que nunca pensaste nisso? porque é que nunca pensaste nisso? parece-te normal? achas normal? parece-te normal? achas normal? porque é que nunca pensaste nisso? mas está a falar a sério? porquê? não? parece-lhe normal? porque é que nunca pensou nisso? nunca tinha pensado nisso? nunca? porquê? mas porque é que nunca pensaste nisso?

e no entanto ali estavas tu deitado no sofá da sala com uma mulher que se despia e te despia e tu gostavas, sentir assim um corpo contra a pele e a pele que se amacia a pele dela, ali, ali estavas tu, a fazer voltar à altura dos olhos aqueles cheiros e as tentações, as mãos que procuram onde fazer respirar o outro, ela, a mulher, uma mulher ali contigo no sofá da sala, que te abria as calças e te puxava cada vez mais, cada vez mais, cada vez mais a ela,

nessa idade até seria normal já ter pensado nisso. nessa idade já teria pensado nisso. tinha, quantos, dezoito anos, nessa idade. nessa idade, já devia ter pensado nisso. nessa idade. idade. idade. nessa idade. nunca tinha pensado nisso. do que é que estavas à espera, do que é que estavas à espera. nessa idade. nessa idade.

e de um puxão maior, as mãos dela a amassar a tua camisa, o teu corpo, o teu sexo, não tenhas medo das palavras, o teu sexo de encontro ao dela, riram os dois, o teu sexo de encontro ao dela, riram os dois, riram, e ela que quase te comia a orelha ao te dizer faz amor comigo, ela que certamente te comeu a orelha ao dizer-te faz amor comigo, e tu tremias de cima abaixo, e tu tremias de cima abaixo, nem as pernas sentias quando ela te baixava as calças, nem as pernas sentias quando ela te baixava as calças, nem as pernas sentias, calado, calado, calado,

acabamos por ir para a cama onde eu fingi saber alguma coisa do que se estava a passar. fazia gestos que me pareciam lógicos mas nada resultava. não havia nenhuma excitação, nenhuma magia. toda a festa dos beijos e das carícias estava perdida no meu medo performativo do acto sexual. adeus, princesa! ela passava os dedos pela minha cara e eu, calado, parecia dizer-lhe que não estava preparado, não estava preparado, como é que se pode não estar preparado quando o mundo inteiro te empurra para a primeira fila dos fanáticos do desejo.

ficaste ali até ser dia, ela ia voltar mais algumas vezes até ti e sempre seria o mesmo terror. ela, aquela mulher, bem como outras, outras mulheres, muitas mulheres a acreditar no calor do teu peito, com as suas mãos deslizantes pelo fecho das tuas calças, e sempre o mesmo ecoar dentro da tua cabeça, o mesmo terror, o mesmo choro baixinho de criança ao fundo do quarto. ficaste ali até ser dia, até subires os estores, até provares um novo beijo. ela ia voltar, mas saiu. tu ficaste ali até perceberes que nunca tinhas pensado nisto.

segunda-feira, 27 de março de 2006

agenda

eu o tempo todo aqui e este braço esquerdo que eu estico para a esquerda, a mão aberta a mão fechada, os dedos a apontar em direcções diferentes. uma porta, a porta a porta, a bater lá no fundo da casa, andar pelos corredores como que acompanhado, saber sempre de onde vêm os barulhos, ter uma agenda, ter um lugar para cair, ter o teu número de telefone. eu o tempo todo aqui e estre braço esquerdo. ponho o braço debaixo do braço e saio para o café.

eu o tempo todo e esta cidade desconhecida, uma e outra vez ao mesmo ritmo dos sapatos e de dois ou três senhores que se curvam de chapéu na mão. o jardim, sim, há sempre algures um jardim, e então os pés na terra, marcas da sola ali no chão, para ficar até que venha a chuva ou uma escavadora para abrir um buraco tão grande, ali, no meio da praça, que as pessoas começam a apanhar o túnel no lugar de apanharem o autocarro. eu o tempo todo e esses olhos gulosos.

eu o tempo todo e três segredos nos teus lábios, fazer a curva apertada e ouvir o carro aos guinchos, cair em mim de verdade porque é cedo ou porque é tarde, quantas horas enfim por contar. puxar três cadeiras e falar com sotaque, não levar a sério a discussão do fim do mundo em que vivemos, querer, porque se quer sempre qualquer coisa, neste lado de dentro que tem posters e animações por completar. eu o tempo todo e não saber nunca mais de ti.

sexta-feira, 24 de março de 2006

listas de palavras

abate, a bata, a roupa, a seca, a chuva, a lima, a alma, a telha, a luz, a cusca, afronta, a medo, atento, restolho, incerto, aberto, a metro, a sonho, em sonhos, orgulhos, e fumos, e tunos, é cedo, um rego, um rio, o mar, és tonto, e pronto, a àgua, a nesga, a falha, a lesma, à nossa, à tua, enfim, no fim. e ainda mais ser capaz de dizer umas quantas palavras que trazias engasgadas em folhas secas pela garganta e um poema inacabado para fazer de nós, tu e a minha imagem de ti, uma série de cadernos de folhas azuis onde se guardam moradas, telefones e listas de compras. isso tudo e ainda uma certa maneira de ser do quotidiano sem ter que vestir a mesma roupa todas as manhãs nem sequer fazer um esforço para ligar o rádio, enquanto tu, tu já sabes, era dali desse canto que um dia ias chegar, fosse como fosse, nunca usaste relógio. e ainda mais, ver o teu nome nos livros quando entras e sais das livrarias, aquele cheiro de papel recortado a acomodar-se no teu nariz e tentares desviar os pés dos caminhos das pessoas que vêm na tua direcção. finges que não entendes as mensagens no telemóvel e continuas a dizer, estou sozinha, quero a minha casa - e sempre sempre tudo assim sem perceberes que a tua casa és tu em qualquer lugar, cruzas as pernas e estás no teu quarto, sempre foi assim. mas melhor, ainda melhor, ainda mais do que isso, ter-te a dizer que agora andas na rua a sorrir para os outros, olhas no espelho uns cabelos brancos que te crescem, sensualmente, sobre a orelha, e ajeitando os caracóis que nunca sentiste teus, permites-te seguir despenteada até ao teu emprego. quanto às palavras, às listas de palavras, são meras coisas que existem. nem mais, nem menos que isso.

de regresso ao passado

cerveja e rebuçados, olho o relógio, meia-noite, quantas vezes tenho que te dizer isto, uma peça de fruta era melhor, sou tua vizinha, porra, porque não me beijas, promete-me o amor eterno e eu serei teu para que aguente; vou ter cuidado com as cáries e com as camisas de vénus, vou fazer descer o elevador e bailar no pátio em cuecas na hora em que chover ainda mais forte. isso isso e mais o quê.

trinco o rebuçado e digo-te baixinho pelo telefone que me apetecia atar-te à cama - uma viagem até lisboa, de carro, e um tipo ao meu lado que me diz, sexo virtual, fixe, a música baixinho, noivas e namoradas, cai neve em nova iorque, chove no palco do teatro, uma peça de fruta era melhor, eu tenho cuidado com as cáries e com as camisas de vénus, chupo devagarinho o doce frito e vou deixar-te uma vez mais à porta do metro.

cerveja e rebuçados, o canino no centro do rebuçado que se abre em dois e três e mais bocados, estava a pensar numa conferência de imprensa, num dia nas corridas, e a chuva a bater com ainda mais força no vidro do carro, casas grandes e bonitas, a paisagem, eu tenho cuidado com as cáries, com as camisas de vénus, mas há quantos dias nem um médico ou dentista, escrever para a revista maria e perguntar pela verdade das coisas.

era isto e toda a poesia do mundo, sangue a escorrer-me pelas bochechas e uma música antiga, dizer mal de quem nos apetece dizer só porque mil anos de história da família não chega para nos fazer melhores papás do que aqueles que tivemos, estamos todos ressentidos, depois dos ressequidos que fizeram da biografia uma coisa igual às outras, pote antigo guardado na dispensa, um silêncio que não se aguenta.

quinta-feira, 23 de março de 2006

hospital

até calhava bem estar de fato de treino - estar todo arranjadinho, na sala de espera do hospital, é uma falta de respeito para com a doença dos outros- calhava bem, o fato de treino, a chuva, miudinha primeiro, depois forte, a cheirar a trovoada - calhava bem, não tinha dormido na noite anterior, tinha acordado a correr para o duche, para o trabalho - pessoas a andar de um lado para o outro, caras tristes, quase ninguém está contente no hospital - as famílias como quem espera, as crianças a fazer birra em frente à máquina da comida - calhava bem o fato de treino, as olheiras, o cabelo despenteado - não havia nada de diferente entre mim e um cigano que jogava com o telemóvel, nada me separava do condutor de ambulâncias com cara de aflito - calhava bem, para o filme, para aquela montagem em cenário caquético - sim, porque o hospital, o maior hospital de Lisboa, é uma coisa velha, mais cinzenta do que a chuva, onde olhas para cima e vês paredes que já caíram, onde espreitas por janelas que não dão para lugar algum, apenas buracos e mais nada, e um sentimento crescente de impotência perante a chuva, o atraso das chamadas pelo comunicador, as dores dos miúdos, os cigarros dos pais, os trocos que acabam quando ainda te apetecia mais um café- calhava bem, o fato de treino, andar à chuva à procura de lugar para o carro, o som das ambulâncias a chegar e a partir, os jornais amassados debaixo dos bancos, um telefone a tocar, alguém que diz estou à espera, mas tudo bem, tudo bem, é de dia ainda, cinzento, o hospital não fecha nunca, as portas vão estar sempre abertas, e de tal forma isso é assim, tanto tempo esperaste, que quando o médico dá alta à criança tu páras outra vez em frente à máquina de café, e ficas a olhar o café a escorrer para dentro de um pequeno copo de plástico, com a criança agarrada às tuas pernas e a mãe dela a dizer que podes ir, já podes ir, mas tu ficas, estás ali há tanto tempo, ficas a olhar o café, a mexê-lo devagarinho - já agora, calhava bem.

quarta-feira, 22 de março de 2006

é sempre difícil voltar a casa

dois passos à frente, dois passos, stop, olhar, um café, um café normal, como os outros, como os outros cafés nestes bairros de Lisboa, um café, onde os empregados são todos homens sérios vindos da província e trabalham todos os dias para construir marquises nas casas da Massamá, onde os clientes são velhotes e velhotas que sempre viveram ali, que ali vão todos os dias e que passam as tardes a comer bolos, depois de todos os engravatados terem saído porque só têm meia-hora para almoçar.

dois passos à frente, dois passos, atrás, entrar. engasgar no que se pede, sempre, e, uma garrafa de água, sentar-me em frente à montra, abrir um livro, aquele livro, tristíssimo, e ficar assim a namorar a prosa do Dal Masetto com a luz indirecta do sol de Lisboa a bater nos azulejos do outro lado da rua e a iluminar, apenas tenuamente, as páginas meio amarelecidas deste livro, onde quatro homens perdidos da vida chegam a uma terra desconhecida e acabam todos todos mortos.

dois passos à frente, dois passos, ops!, pagar, quanto é, faça a conta, ao mesmo tempo que duas raparigas do outro lado da sala se levantam, três? quatro passos?, quanto é, pagar, faça a conta, o empregado engana-se no troco (neste caso a casa ficaria a perder) eu digo não, olhe lá, uma das raparigas olha-me e eu sorrio-lhe, e ela sorri-me, e eu meto as moedas na carteira e saio a tropeçar do café, a pensar se atrás de mim não virá aquele sorriso, aquele sorriso que eu desconheço, algures num café como os outros.

sábado, 18 de março de 2006

toalha

deste as graças a quem, deste as graças - a senhora que ia à tua escola falar de jesus pegou-te pela mão e disse-te, vem segurar a toalha, a mãe abriu os olhos, ele, a senhora que ia à tua escola falar de jesus, uma freira, mas uma freira daquelas que não se parecia às outras freiras, pegou-te pela mão e disse-te, vem segurar a toalha, tu foste muito direitinho - mais pequenos que os outros todos, mais velhos - tu foste muito direitinho, à tua frente uma menina muito muito alta - mais velha - a segurar a toalha do lado de lá, ao meio o padre, a segurar um copo de ouro e a tirar bolachinhas brancas lá de dentro - corpo de cristo - a meio o padre - corpo de cristo - bolacinhas brancas - corpo de cristo - fizeste aquela cara de senhor mau e compenetrado - o padre - fizeste aquela cara e a menina muito muito alta sorriu para ti - era feia - a menina muito muito alta a sorrir - feia - corpo de cristo, o padre e a senhora que ia à tua escola falar de jesus, uma freira mas não como as outras, a segurar-te pela mão e a dizer-te, segura a toalha - o padre, corpo de cristo, as pessoas a mastigar bolachinhas a um canto, porque eram muito finas e, com a saliva, ficavam pegajosas, - corpo de cristo - o padre e a menina muito muito alta, pessoas a cantar, pessoas a tocar órgão, bolachinhas presas ao céu da boca - corpo de cristo - a senhora que ia à tua escola a falar de jesus a ensinar-te como se dobra a toalha, a menina muito muito alta a ficar com a toalha sozinha, tu a voltares para o teu lugar, corpo de cristo, corpo de cristo, seguraste a toalha,

quarta-feira, 15 de março de 2006

cha cha cha

qualquercoisaqualquercoisaqualquercoisaqualquercoisaqualquercoisa [ponto - segue] era.
estradaestradaestradaestradaestradaestradaestrada STOP pegaste no telemóvel e depois 963452121 escreveste era uma vez uma linda menina que dormia em cima de um torre vem a chuva molho-a toda e depois era uma vez um lindo menino que seguia em cima de um cavalo vem a chuva molho-o todo e depois era uma vez uma linda menina que acordava de cabelos soltos ao vento vem o cavalo e beijou-a na boca e depois era uma vez um lindo menino que acordou sentado no chão vem a torre e abraçou-o ou.

não não não não não não não não não não não não não - peço desculpa se estou insensível às tuas preocupações mas o facto é- o facto é- o facto é- eu sentado numa cadeira numa casinha de bonecas e vem um menino e diz agora vou ler um poema e vem uma menina e diz agora vou ler um poema e vem outro menino e diz agora vou ler outro poema apesar de não saber ler poemas e vem uma menina e diz eu não sei falar a vossa língua e por isso posso abrir a minha camisa e mostrar as minhas mamas mas - a casa de bonecas a casa de bonecas a casa de bonecas - a assistência fugiu do quarto horrorizada e sentou-se toda do lado de fora a beber copos de coca-cola e a falar alemão. a menina percebeu.

terça-feira, 14 de março de 2006

K quarto

custava-te, com certeza, custava-te, mas o despertador e uma faca que parecia ia cair em cima da cabeça mas - era um sonho, era um sonho, respira- podias levantar-te, deixar os pés no chão, pesar as pernas enquanto as levantavas uma e outra, abrir os estores, respirar fundo - respira, respira - procurares a casa de banho no meio dos despojos, tentares acender a luz - e não funcionar - o que era? uma explosão? - abrires bem os olhos e perceberes esta não é a minha casa abrires mesmo muito e bem os teus olhos e perceberes esta não é a minha casa, porra voltares ao quarto, um corpo adormecido na cama, procurares a tua roupa e

custava-te, com certeza, custava-te, o despertador e uma faca a cair em cima da cabeça mas - como podias tu perceber, como? - o corpo levantar-se, deixar os pés no chão, pesar as pernas enquanto as levanta uma e outra, abrir os estores, respirar fundo - e tu ali, especado, contra o roupeiro - procurar a casa de banho no meio dos despojos, tentar acender a luz - e não funcionar - o que é? uma explosão? - abrir bem os olhos e perceber esta não é a minha casa abrir mesmo muito e bem os olhos e perceber esta não é a minha casa, porra voltar ao quarto, um corpo especado contra o roupeiro, soltar um grito e

custava-te, com certeza, custava-te, o despertador e a faca logo ali mas - quem chegaria primeiro a ela, tu ou tu - os dois corpos a atirarem-se contra a fuga um do outro, os pés que já não importam, as pernas sem peso de tão tensas, os estores abertos, respirar fumo - és tu contra ti mesmo - arrastarem-se para a casa de banho no meio do confronto, tentar acender a luz - que não funciona, não funciona - houve certamente uma explosão - abrir bem os olhos e perceber nenhum de nós é aquilo que pensamos que somos abrir mesmo muito e bem os olhos e perceber eu e eu não somos espelhos um do outro voltar ao quarto, outra vez, corpos adormecidos na cama e

custava-te, com certeza, custava-te, mas o despertador e uma faca que parecia que ia cair em cima da cabeça mas -não era um sonho, não, não- podias levantar-te, deixar os pés no chão, pesar as pernas enquanto as levantavas uma e outra, abrir os estores, respirar fundo - não respires, não respires - procurares a casa de banho no meio dos despojos, tentares acender a luz - não funciona! - explodiu, explodiu - abrires bem os olhos e perceberes esta casa esta casa esta casa abrires mesmo muito e bem os teus olhos e perceberes esta casa esta casa esta casa esta casa voltares ao quarto, corpos como o teu pelo quarto todo e

sexta-feira, 10 de março de 2006

sioux crime 1576

eles eram capazes de chegar e partir a casa toda se ao menos tu lhes abrisses a porta e explicasses qualquer coisa que eles entendessem

era isso ou quarenta maravilhas deitadas pelo chão da casa fim-de-semana festa convidados e alguns vizinhos a olhar de lado do lado de dentro da janela

eles eram capazes de chegar a tempo mas não deram com a casa as luzes todas apagadas uns quantos caídos ao som dos copos no chão e outros dois a foder na banheira da casa-de-banho

era isso ou

era isso ou conseguires chegar ao fim das frases quando te telefonaram de manhã e te disseram a filipa morreu conseguires chegar ao fim das frases a filipa morreu

alguém acordou mal disposto e ouviu o teu grito abriu-te a porta se conseguisses chegar ao fim das frases mas eras tu o telemóvel em cima da almofada e uma chamada a contar cêntimos do lado de lá

silêncio

a filipa morreu

punk rock song

you go PORN!

e eras capaz de ter visto o mesmo filme que eu naquela tarde quando saímos do liceu tinhas quantos dezasseis dezassete anos e usavas mini-saia chupavas lolipop's éramos os mais giros da turma e curtíamos ficar lá atrás das mesas todas quando o professor se virava de costas e nós dávamos chochos uns nos outros eu tu o manel a lilica e eras capaz eras

but now, still

PORNográfico tácito quimérico augusto simétrico cimento arromba a rumba desadaptada emigrada fechada conquistada arrumada a um canto e eras capaz de ter visto o mesmo filme sentada na mesa da sala dvd player on e umas quantas cervejas caídas as garrafas pelo chão qual o nome dele joão? uma coisa assim talvez ainda te lembres o mesmo filme o mesmo filme não era era

you go PORN

eu queria ainda dizer-te qualquer coisa de lamechas como nas cartas que te deixei quando fui para a faculdade e tu ficaste a fumar charros à porta do mesmo café onde eu te comi na casa-de-banho umas quantas vezes depois do manel te ter feito o mesmo e à joana mas eu queria lá saber eu andava por lá de empréstimo foi o que nunca percebi e por isso quando chegava a casa era capaz de pentear o cabelo no elevador nunca te disse mas era era

still still

quantas vezes viste esse mesmo filme e pensaste que era a mim que tu amavas a mim o mesmo tipo que agora te passa ao lado do ombro e tu não percebes falas de sério e tratas por você e ele treme tremo eu sou eu e tu quantas vezes já viste o mesmo filme aquele mesmo filme do dia em que saímos do liceu e depois éramos quantos éramos só tu e eu era capaz de ser era

quinta-feira, 9 de março de 2006

corte de cabelo

repetia a mesma coisa uma duas muitas vezes enquanto deixava cair ao chão madeixas de cabelos que com a tesoura cortava pouco a pouco - repetia a mesma coisa uma duas muitas vezes enquanto deixava cair ao chão madeixas de cabelos que com a tesoura cortava pouco a pouco - e ele lembrava-se do dia em que a conhecera, quando ela enrolava os dedos nas mesmas madeixas e sorria com uma cara de menina muito muito feliz - e ele lembrava-se de depois lhe telefonar e de lhe dizer que gostava muito dela e queria ser muito feliz com aquele sorriso de cara de menina - e ele lembrava-se de ser de noite e de ela bater-lhe à porta e dizer-lhe frio e ele abraçou-a - e ele lembrava-se de como esse abraço tinha sido apertado apertado apertado que lhe pareceu que nunca mais deixou de sentir o cheiro dos cabelos dela debaixo do nariz

ela repetia a mesma coisa uma duas muitas vezes enquanto com a tesoura já quase não lhe restava cabelo nenhum e repetia a mesma coisa uma duas muitas vezes, o seu vestido era comprido e escuro, o seu vestido era comprido e escuro, ela não se lembrava mas, daquela vez, ela disse-lhe frio e ele abraçou-a, ela repetia a mesma coisa uma duas muitas vezes e quase que parecia assim frio frio frio frio frio frio frio frio frio frio frio frio mas mais espaçado, a demorar bastante mais tempo - frio frio frio frio frio frio - sim, quase isso, quase isso mesmo- frio ela repetia e ele - lembrava-se, estava mesmo quase muito certo disso - ele tinha-a abraçado e desde essa altura nunca mais deixou de sentir o cheiro dos cabelos dela debaixo do nariz - era isso, era isso, era isso - ela a repetir a mesma coisa uma duas muitas vezes enquanto a tesoura acabou por cair também no chão, no meio das madeixas.

segunda-feira, 6 de março de 2006

cinema

era isso e era o outro dia, quando chegamos ao cinema e não havia mais ninguém para ver o filme, apenas eu e tu, ou melhor, apenas eu, porque tu não estavas mesmo lá, vinhas a caminho, de metro, de comboio, de autocarro, era o outro dia em que chegavas à minha frente e te sentavas ao meu colo, a apertar-me o pescoço com as tuas mãos pequenas, a morder-me as orelhas e a suspirar, de plástico, e quando chegamos ao cinema e não havia mais ninguém para ver o filme, ficamos contentes, uma sala grande só para nós, mas depois chegaste tu e chegou mais uma ou outra pessoa a comprar bilhetes, sentamo-nos na última fila e tu encostaste a tua cabeça ao meu ombro, e depois deste-me a mão, e depois eu pus o braço à volta da tua cintura, eras pequena e deliciosa, como os dias todos de um verão que não acaba, e deixavas que eu procurasse a tua pele, e abrias-me os botões das calças porque dizias que não vivias sem o meu pau, era isso e era o outro dia, as mesmas coisas que eu gostava de ouvir porque tu me tinhas ensinado que era possível, o estarmos sempre prontos para nos termos um ao outro, o não sabermos de outra maneira, o chegarmos ao cinema e não haver mais ninguém para ver o filme, era isso ou era isso que nós queríamos que fosse, o outro dia, o outro dia.

sábado, 4 de março de 2006

piano

os meus dedos eram pequenos para as teclas daquele piano, muito pequenos, e os meus olhos esqueciam-se de contar as linhas das pautas, portanto, estava sempre a enganar-me nas notas que devia tocar, depois, os meus dedos eram pequenos para as teclas daquele piano e eu tinha comprado um lápis com um bico muito fino para escrever os nomes das notas nas teclas, e mais, afiei o lápis outra vez e perguntei ao professor se poderia escrever os nomes das notas nas linhas das pautas, mas ele disse que não, que eu devia abrir mais a mão, esticar os dedos, os meus dedos, os meus dedos que eram pequenos para as teclas daquele piano, mas o professor não sorria, e, decerto, o professor também não lamentava, os meus dedos eram pequenos para as teclas daquele piano, mas o professor dizia, lindos dedos o menino tem, já deve ter aprendido a tocar piano há muito tempo, e eu dizia que não e mostrava o lápis de bico fino muito afiado, e pedia para escrever os nomes das notas nas teclas, nas teclas e nas linhas das pautas, mas o professor não deixava, não, pegava na minha mão e estendia os meus dedos, puxava por eles, puxava os meus dedos, os meus dedos, os meus dedos pequenos para as teclas daquele piano, e depois acabava a hora da lição, eu saía da sala com os dedos doridos e um lápis de bico muito afiado no bolso da camisa, e ouvia um baterista a tocar pelo corredor, e pensava que os meus dedos deveriam ser suficientemente grandes para tocar bateria e ia para casa tocar num pianinho de brincar.

quinta-feira, 2 de março de 2006

porta

o que tens perante os teus olhos é a porta da rua - a ordem de sair é o nosso silêncio inteiro e corporal, cinco corpos que já foram amor, antes de tudo, e depois carne, madeira, madeira que apodrecida se fez pedra, no lugar de se desfazer - o que tens perante os teus olhos é a porta da rua. a porta a porta a porta da rua. Há que convir, encontra-se um certo ritmo na repetição de certas palavras. a porta. certas palavras. da rua. o que tens perante os teus olhos é a porta da rua. a mesma porta que usaste para chegar a casa no dia do casamento. a mesma porta que usaste para levar o teu primeiro filho a nascer. a mesma porta que usaste para festejar os teus aniversários. a mesma porta por onde saíste para as festas. a mesma porta por onde entraste cansado e bebedo um monte de vezes. a mesma porta que fechaste com toda a força do teu universo após uma discussão. a mesma porta por onde entraste com um ramo de flores. a porta a porta. a porta da rua. perante os teus olhos - a ordem de sair é o nosso silêncio inteiro e corporal, cinco corpos que já foram amor, daquele amor incondicional que se exala por todos os poros, e depois foram carne, quando os começaste a olhar só por fora, só com a respiração e os dedos sujos, e depois foram madeira, uma madeira áspera à qual já não te podias chegar porque arranhava, porque te cuspia, e depois apodreceram de tanto se transformarem, ficando pedra, pedra que cresce dentro da casa e, silenciosa, te empurra para a porta, a porta a porta a porta da rua.