quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

dia de jogo

Era dia de jogo, lá em Lisboa, dia de jogo e o tempo tudo eu em bicos de pés, mais alto, era dia de jogo e eu iria no carro, até lá, Lisboa, dia de jogo sempre nos dias de jogos, eu que nunca tinha ido ao jogo, melhor, eu já tinha ido ao jogo tão poucas vezes e queria, sim, queria lá voltar sempre, era dia de jogo e eu gostava que fosse dia de jogo todos os dias, dia de jogo, para lá voltar, lá, Lisboa, porque se fosse dia de jogo todos os dias, e se todos os dias eu estivesse lá, lá, Lisboa, eu veria todos os jogos e depois, podia dizer, eu vi todos os jogadores, eu vi todos os golos, eu vi tudo tudo tudo, pois, e era dia de jogo, lá em Lisboa, e com o tempo passando pela tarde, cada vez mais tarde, tarde, final da tarde, comemos, qualquer coisa, uma sandes, talvez até já a caminho de lá, e começou a chover, a chover, a chover, a chover de uma maneira que nem se via a estrada e eu ouvi, só aí é que ouvi, se calhar o melhor, era dia de jogo, jogo, lá, lá em Lisboa, se calhar o melhor é voltarmos atrás, e eu disse que não, isso lembro-me muito bem, disse que não, um não alto e com força, ou talvez, melhor, um não fraco e quase apagado, um não pequenino e a começar a chorar, não, se calhar o melhor, nem se via a estrada, e era preocupação de pai ou de mãe para mais tarde, se calhar, chegamos ao cruzamento seguinte o carro voltou a casa, se calhar o melhor, e eu dizia não, não, era dia de jogo, sim, lá, lá em Lisboa, dia de jogo, e o carro veio até casa, eu corri até à porta do prédio para não me molhar e o carro seguiu, outra vez pela estrada que mal se via, a estrada, chovia, chovia, chovia, e eu deitado sobre a cama a chorar, chovia chovia na almofada também, e era dia de jogo, dia de jogo, lá, lá em Lisboa, e lá não chovia nada, nem uma gota, lá não chovia, sim, sim, e quando ele chegou disse isso mesmo, isso mesmo, isso mesmo, tinha chovido na minha almofada.

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