terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

carro

poderias chegar ainda um pouco mais tarde, olhar os dias que se passam a suar caminhos, olhar os montes que se fecham sobre os teus olhos e, dentro do carro, beijar as mãos com que seguras o volante, subir mais calmo a respiração e o vidro do lado do acompanhante, ser de uma certa maneira automatismo e novidade de tanta canseira pelos tempos. era isso e uma vontade de ter um carro novo, cinco dias à espera ansioso, mostrá-lo aos teus filhos como um brinquedo grande, e ao entrarem, eles sentados pelo banco de trás, de olhos fechados, prontos a dormir nos passeios intermináveis de sábado à tarde. também era a rádio ligada muito alto, um desconforto nos ouvidos e o relato da bola, a cabeça dos teus filhos contra os vidros, as testas deles marcadas, o sono caído quase para fora da janela, se ao menos fosse verão e tanto calor, porque tudo isto era ainda do tempo antes do ar condicionado. depois chegou esse e uma cadeirinha de bebé, uma vontade de ser homem outra vez, certas conquistas que se fazem à noite de luz apagada, pensavas tu, e era assim que a vida parecia seguir para sempre igual, uns dias mais calados que os outros, uns corpos mais deitados pelo chão.

2 comentários:

  1. olha só: já ia perguntar ao autor do plano de salvamento se ele sabia quem eras tu...

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  2. E eu que estava tão orgulhosa da minha descoberta!!!

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