quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

aos sábados

aos sábados dormias até mais tarde e passeavas-te pela casa, ainda de pijama, observando-nos sentados pela sala, a ver televisão. passavas pela cozinha e voltavas, destabilizavas a pequena atenção que tínhamos reservada aos desenhos animados. era sempre assim, qualquer coisa como um primo que chega de longe e tem brincadeiras diferentes para o mesmo brinquedo. às vezes como que o esperávamos - uma certa ansiedade nas coisas de esperar, a que horas, sobretudo, em que desenho animado ias aparecer. noutras, quebravas solenemente o ritual do desenho que mais nos interessava e os guinchos da brincadeira não eram de divertimento, mas sim de uma exasperação que não compreendias.

aos sábados vestias um fato de treino e ias aos jornais. ir aos jornais sempre me pareceu coisa de gente grande, então também eu corria a vestir o fato de treino e colocava-me junto à porta, à espera que a abrisses. esta vontade de crescimento estava constantemente em cheque - se não te despachares não vens comigo aos jornais, se não te portares bem não vens comigo aos jornais, (e pior) hoje não vens aos jornais (por razões tantas vezes sem jeito nenhum). mas quando se abria a porta, eu corria até ao elevador e o bilhete para os jornais estava ganho. íamos sempre de carro, por muito perto que fosse a banca. íamos sempre de carro porque ir aos jornais significava passar pela mercearia a trazer pão e queijo, significava ir espreitar o campo da bola, para saber se alguém estava a jogar, significava, nas manhãs mais compridas, ir passear até à serra ou até a santa cruz, aventura quilométrica louvável para um sábado de manhã.

aos sábados, depois de almoço, dormias a sesta - pegavas nos jornais e fechavas-te no quarto, a ler a dormir, alguma dessas coisas. aos sábados, continuava aquela expectativa surda do teu acordar, da saída de casa, do haver qualquer coisa para fazer. eras realmente como um primo que se espera, na ansiedade de se descobrir novas brincadeiras para os nossos brinquedos. nós pela casa a puxar caricas nos bolsos ou os bonecos da playmobil espalhados pelo chão. o silêncio silêncio silêncio da casa, a tua sesta, o quarto fechado. aos sábados, era aos sábados, era assim.

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