terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

magoar

na verdade não estou aqui para te magoar, como seria eu capaz de magoar, desde aquele dia em que descobri, reconheci, reconheci, que tanto te amava, tanto tanto, como poderia, digo eu, como poderia não te amar para sempre, como poderia eu magoar-te alguma vez, de alguma forma, como?

na verdade não estou aqui para te gritar nada aos ouvidos, como, eu não sou capaz de gritar nada, nada aos ouvidos de ninguém, como, na verdade eu não estou aqui, eu não estou sequer aqui, este que tu não vês é outro alguém, provavelmente, provavelmente é, como poderia, como poderia eu?

na verdade não estou aqui para mudar nada, não, não estou aqui para mudar mesmo nada, como poderia eu, não há coisa que se mude no passado, isto sou só eu a olhar para o cano da pistola da vida a ver o que se passava no passado, a ver o que se passava no futuro, eu, eu, na verdade, na verdade não estou aqui para te magoar.

domingo, 26 de fevereiro de 2006

parecido

encolheste os ombros ou, eram dez da manhã e uma praia no algarve, eu podia até dizer-te com mais exactidão - uma pessoa qualquer pode gostar de ler mapas, olhá-los nos pequenos riscos que se vão fazendo aqui e ali e pronto - mas eram dez da manhã, estava sol, calor, o mar- a praia, sim, a praia no algarve - albufeira, manta rota, cabanas, tavira, altura, monte gordo, praia verde - conseguir enumerar uma série de praias ou mais algumas - vilamoura, portimão, olhão - era também o festival de marisco, as tardes no quarto de hotel, a sesta, as inglesas a olharem-me de lado no hall, a pensar que eu tinha muito mais idade, muito mais ideias, do que na verdade, eu assustado ali, enumerar- manta rota, cabanas, altura, tavira, monte gordo, portimão, praia da rocha, praia da rocha - encolheste os ombros, sim, és parecido com aquele que passa, és parecido com aquele que passa, és parecido com aquele que passa, és parecido com aquele que passa, és parecido com aquele que passa, és parecido com aquele que passa, és parecido com aquele que passa, és parecido com aquele que passa, és parecido com aquele que passa, és parecido com aquele que passa...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

dia de jogo

Era dia de jogo, lá em Lisboa, dia de jogo e o tempo tudo eu em bicos de pés, mais alto, era dia de jogo e eu iria no carro, até lá, Lisboa, dia de jogo sempre nos dias de jogos, eu que nunca tinha ido ao jogo, melhor, eu já tinha ido ao jogo tão poucas vezes e queria, sim, queria lá voltar sempre, era dia de jogo e eu gostava que fosse dia de jogo todos os dias, dia de jogo, para lá voltar, lá, Lisboa, porque se fosse dia de jogo todos os dias, e se todos os dias eu estivesse lá, lá, Lisboa, eu veria todos os jogos e depois, podia dizer, eu vi todos os jogadores, eu vi todos os golos, eu vi tudo tudo tudo, pois, e era dia de jogo, lá em Lisboa, e com o tempo passando pela tarde, cada vez mais tarde, tarde, final da tarde, comemos, qualquer coisa, uma sandes, talvez até já a caminho de lá, e começou a chover, a chover, a chover, a chover de uma maneira que nem se via a estrada e eu ouvi, só aí é que ouvi, se calhar o melhor, era dia de jogo, jogo, lá, lá em Lisboa, se calhar o melhor é voltarmos atrás, e eu disse que não, isso lembro-me muito bem, disse que não, um não alto e com força, ou talvez, melhor, um não fraco e quase apagado, um não pequenino e a começar a chorar, não, se calhar o melhor, nem se via a estrada, e era preocupação de pai ou de mãe para mais tarde, se calhar, chegamos ao cruzamento seguinte o carro voltou a casa, se calhar o melhor, e eu dizia não, não, era dia de jogo, sim, lá, lá em Lisboa, dia de jogo, e o carro veio até casa, eu corri até à porta do prédio para não me molhar e o carro seguiu, outra vez pela estrada que mal se via, a estrada, chovia, chovia, chovia, e eu deitado sobre a cama a chorar, chovia chovia na almofada também, e era dia de jogo, dia de jogo, lá, lá em Lisboa, e lá não chovia nada, nem uma gota, lá não chovia, sim, sim, e quando ele chegou disse isso mesmo, isso mesmo, isso mesmo, tinha chovido na minha almofada.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

aos sábados

aos sábados dormias até mais tarde e passeavas-te pela casa, ainda de pijama, observando-nos sentados pela sala, a ver televisão. passavas pela cozinha e voltavas, destabilizavas a pequena atenção que tínhamos reservada aos desenhos animados. era sempre assim, qualquer coisa como um primo que chega de longe e tem brincadeiras diferentes para o mesmo brinquedo. às vezes como que o esperávamos - uma certa ansiedade nas coisas de esperar, a que horas, sobretudo, em que desenho animado ias aparecer. noutras, quebravas solenemente o ritual do desenho que mais nos interessava e os guinchos da brincadeira não eram de divertimento, mas sim de uma exasperação que não compreendias.

aos sábados vestias um fato de treino e ias aos jornais. ir aos jornais sempre me pareceu coisa de gente grande, então também eu corria a vestir o fato de treino e colocava-me junto à porta, à espera que a abrisses. esta vontade de crescimento estava constantemente em cheque - se não te despachares não vens comigo aos jornais, se não te portares bem não vens comigo aos jornais, (e pior) hoje não vens aos jornais (por razões tantas vezes sem jeito nenhum). mas quando se abria a porta, eu corria até ao elevador e o bilhete para os jornais estava ganho. íamos sempre de carro, por muito perto que fosse a banca. íamos sempre de carro porque ir aos jornais significava passar pela mercearia a trazer pão e queijo, significava ir espreitar o campo da bola, para saber se alguém estava a jogar, significava, nas manhãs mais compridas, ir passear até à serra ou até a santa cruz, aventura quilométrica louvável para um sábado de manhã.

aos sábados, depois de almoço, dormias a sesta - pegavas nos jornais e fechavas-te no quarto, a ler a dormir, alguma dessas coisas. aos sábados, continuava aquela expectativa surda do teu acordar, da saída de casa, do haver qualquer coisa para fazer. eras realmente como um primo que se espera, na ansiedade de se descobrir novas brincadeiras para os nossos brinquedos. nós pela casa a puxar caricas nos bolsos ou os bonecos da playmobil espalhados pelo chão. o silêncio silêncio silêncio da casa, a tua sesta, o quarto fechado. aos sábados, era aos sábados, era assim.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

carro

poderias chegar ainda um pouco mais tarde, olhar os dias que se passam a suar caminhos, olhar os montes que se fecham sobre os teus olhos e, dentro do carro, beijar as mãos com que seguras o volante, subir mais calmo a respiração e o vidro do lado do acompanhante, ser de uma certa maneira automatismo e novidade de tanta canseira pelos tempos. era isso e uma vontade de ter um carro novo, cinco dias à espera ansioso, mostrá-lo aos teus filhos como um brinquedo grande, e ao entrarem, eles sentados pelo banco de trás, de olhos fechados, prontos a dormir nos passeios intermináveis de sábado à tarde. também era a rádio ligada muito alto, um desconforto nos ouvidos e o relato da bola, a cabeça dos teus filhos contra os vidros, as testas deles marcadas, o sono caído quase para fora da janela, se ao menos fosse verão e tanto calor, porque tudo isto era ainda do tempo antes do ar condicionado. depois chegou esse e uma cadeirinha de bebé, uma vontade de ser homem outra vez, certas conquistas que se fazem à noite de luz apagada, pensavas tu, e era assim que a vida parecia seguir para sempre igual, uns dias mais calados que os outros, uns corpos mais deitados pelo chão.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

par de óculos

cheguei a horas ao café e comecei por te dizer uma quantidade de coisas de que me esqueci- é assim que eu me faço a cada minuto. ter ou não ter acesso ao papel de um jornal é daquelas coisas que me te fere mais que a morte, eu sei. mas as minhas frases não têm tanta noção do tempo e do espaço como os dedos finos do teu carinho sobre a minha nuca. penso agora: quando estamos longe de casa tudo nos parece tão perto, as outras cidades têm uma organização muito mais liberta do que a nossa. esta coisa de não ter hábitos de colocar os pés nesta ou naquela rua, o não conhecer nenhum café e nenhuma dona de papelaria, o não ter alguém que me chame pelo nome a meio da tarde. tudo isto dá-me um sono muito grande, sinto-me engolido pela face do tua chegada em cima dos meus dedos. alguma destas coisas, era o que eu te quereria dizer.

óculos

a minha mão talvez não seja bem a minha mão a minha mão a minha mão. o teu tempo e o meu tempo não estão juntos, eu já imaginava isso. agora eu passeio com os pés na calçada, os sapatos largos de tão apertados. quantas vezes já pensei em ti desde que não te conheço. fiz uns desenhos pelos dedos molhados, com a nuca a deixar-se cair para o meu adormecimento. não faz sentido, não faz qualquer sentido. era sobre isso que eu te queria falar - exactamente a partir de agora.

tenho ouvido muitas conversas sem sentido e sem organização, desde que tenho este sentido mal apurado - a audição. podias vir mais tarde a olhar-me nos olhos, a beber-me dos lábios mas também não seria bem isso o que tínhamos para nos dizer um ao outro. andas de um lado para o outro a cumprimentar celebridades e eu não sei bem quem fazia o quê naquela fotografia. algures onde o fim se namorou com o início dos tempos, eu quero voltar a deixar marcado o meu pé- era qualquer coisa destas que eu queria dizer.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

u verd ro p i

ali em baixo um carro, a luz alaranjada, noite, ali em baixo, junto ao passeio, um carro, um carro - manual de instruções- existe uma pequena alavanca debaixo do volante onde, puxando, se pode fazer levantar o capô do carro e olhar o motor- luz alaranjada, junto ao passeio, um saco de plástico com óleo lá dentro, abrir meticulosamente as tampas certas, verter o óleo, luz alaranjada, o carrao em baixo, ali ali em baixo, o motor agora vai funcionar bem, aceitar viagens por auto-estradas e outros caminhos, a cabeça a pensar

um verdadeiro pai
a cabeça a pensar porque já no dia antes, ali em cima, dentro do carro mas, ali em cima, luzes brancas, uma frase sem palavras porque só dentro da cabeça, agora há quem goste de mim, sem palavra nenhuma - uma estranha ideia mas mesmo assim pensar que se não há escrita não há palavra, palavra nenhuma- só dentro da cabeça, agora há quem goste de mim e depois, pai pai pai
um verdadeiro pai
porque são as coisas que os pais fazem, os pais fazem, os pais fazem, porque os pais não têm sempre seis anos e não estão sempre a rir, impotentes, a rir, impotentes, a rir, impotentes, apesar de que te possa parecer que eu estou a fazer mal a alguém, não, não não, porque perante tudo o mesmo riso, o mesmo riso impotente, e mapas que vão crescendo dentro da minha cabeça até não se chegar a nada - mesmo nada - até não se chegar a nada porque o que acontece só dentro da cabeça não está realmente a acontecer - dizia a minha avó - isso foi coisa que pensaste - dizia a minha avó - isso foi coisa que sonhaste,
um verdadeiro pai
não é bem coisa assim, inexistente, pode-se olhar e ele está lá, pois é, está lá, onde antes havia um lugar vazio, um riso, um riso impotente, agora está lá, ali em baixo, o carro, luzes alaranjadas, um saco com óleo dentro, o motor, o motor agora a funcionar tão bem, lá em baixo, lá em cima, lá em baixo, lá em cima, a cabeça a cabeça cabeça, o que só acontece dentro da cabeça e depois que se sente por fora também, um verdadeiro pai, um verdadeiro pai, um verdadeiro pai.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

lua cheia

noite de lua cheia, foi isso que disseram algum tempo antes, o rabo pesado no sofá e a cabeça sem posição, os olhos miopes no televisor, às tantas tudo verde, tudo tudo verde, noite de lua cheia alguém a dizer, ainda havia outra altura qualquer um luar e campismo qualquer coisa assim, mas, não era bem isso o que importava agora porque o pensamento estava no sofá e a cabeça sem posição, a cabeça ou o corpo

o corpo o corpo o corpo
qualquer coisa mal organizada mas uma pista no meio do nada para te dizer, tu sabes muito bem de onde eu venho mesmo que não vejas nada de nada do que foi o caminho, ninguém deixou pedacinhos de pão pelo chão, e as pedras são demasiado grandes e pesadas para se imaginarem rasto, ninguém poderá vir a seguir e dizer, uma pedra no meio do caminho, porque já nem pedra nem caminho, a noite, lua cheia e sozinho
sozinho sozinho sozinho
mas a lua cheia lua lua cheia era isso que importava ou as dores no pescoço ou as dores nas costas ou o telemóvel tão calado de nunca ninguém responder ou a lua cheia e as calças de pijama vestidas finalmente e a mão que procura o corpo o corpo o corpo sozinho sozinho sozinho era isso era, isso e uma outra qualquer coisa para dizer que o tempo acaba e acabou mas sempre ainda qualquer coisa a dizer e depois pronto, desculpa, lua cheia.

1 dia antes

ir daqui ali, era assim mais uma noite, uma noite a que horas, tardias tardias, era assim uma noite, o cabelo despenteado, desordenado, uns quantos minutos e os dedos pela cabeça, cabelos a dançar para outro lado, outra vez. daqui ali e noite noite outra vez, horas, meia-noite, meia-noite, assim ou de outra maneira, daqui ali ali ali aqui. era isso tudo e uma memória de um dia antes, um dia, o corpo tenso e os dedos a tremer, olhar fixo num lugar qualquer onde não havia nada, sorriso aqui sorriso ali, as pessoas gostam de ti, parece, mas tu não sabes nunca como lidar com isso, não, não, estás cheio de medo e os teus olhos olhos fogem, pronto, pronto, começar outra vez. um dia antes, um dia, um dia e uma noite, e se a tua boca abre é sempre para dizer qualquer coisa que não dirias nunca, a coisa não errada para incerta, incorrecta, era isso que querias dizer, não era, era outra coisa, roubas as frases dos outros e os outros roubam-te ainda qualquer coisa que tu já nem tinhas para dar.

sábado, 11 de fevereiro de 2006

fotografia

click


clack


agora faz aquela cara feia para a fotografia

os olhos a fechar, as mãos
muito muito presas quase à cintura e os pés
tão tão tão afastados que parece querer pontapear o mundo
agora faz aquela cara
click
e aparece na fotografia tal como era
pequeno e grande e pequeno e grande
e magro e gordo e magro e gordo
e eu gosto gosto gosto gosto
daquela cara feia, cara cara feia feia
click
e depois era uma fotografia inteira para te dizer
a manhã
e depois era uma vacina contra o tétano e contra os bichos feios do chão das casas
algo assim
e recebias emails todos os dias a dizer que ias ser grande e gordo e pequeno e magro
e eu gosto gosto gosto assim
click
aquela cara feia para a fotografia
sim
aquela cara
se eu procurar bem, ainda a consigo encontrar por aqui.

idade

nunca sei bem a tua idade, a minha idade, a nossa idade, nunca sei bem os números as datas os números, nunca sei a minha a tua identidade, nunca sei bem nunca, quatrocentos e vinte e sete olhares trocados pela noite fora, uma duas três noites, um verão inteiro, uma juventude inteira, um dois meses, olhares trocados e noites a dançar muito perto um do outro, era isso, era, um ano um verão dois três quatro, quantas coisas ainda por significar ou encontrar na maneira de te dizer que

nunca sei bem a tua idade, nunca vou encontrar maneira de dizer o número certo e ou a palavra, a palavra ainda pior, ainda é pior, quantas palavras seria eu capaz de te dizer se ao menos tu, tu, eu, eu tu e eu e tu, a tua idade, o que me lembra é um ano, um ano inteiro a tua idade, perguntar-te todos os dias mal te levantas que idade tens hoje, que idade tens hoje que faz frio e chove contra os vidros da nossa casa, e chove contra o tempo que nos toca que idade tens hoje, que idade é, nunca sei bem a tua idade, melhor, pior, nunca sei bem o teu nome, um monte de papéis e folhas de árvore a levantar voo quando tu passas, vais serena e não segura, vais segura e não serena, poesia, poesia, palavras, tu, nunca sei bem a tua idade mas és tu não és, és mesmo tu.
porque depois começa tudo outra vez, outra e outra vez, outra vez, outra e outra vez, eu arregaço as mangas do casaco e toco piano como, toco num piano não, melhor, toco no teclado, toco no teclado, estendo os dedos ao teclado e toco, como se estivesse num piano, num piano, sim, eu estendo os dedos e toco, toco, como se estivesse num piano
é assim que eu faço
e depois volto a olhar para ti e é de manhã ainda, e eu não voltei a adormecer, apenas estava por ali, ali ali ali mesmo ao teu lado e tu entras e sais do quarto e passou um ano uma juventude inteira uma noite de verão a dançar muito perto um do outro e eu nunca sei a tua idade, nunca sei bem a tua idade, mas lembro-me do ano, dos anos, um ano inteiro, a tua idade, é, é, é, disso lembro-me eu, lembro, não muito bem, mas lembro, lembro, lembro.

3 3 3 3 3

o teu mundo é o teu mundo é o teu mundo é o teu mundo é o teu mundo é o teu mundo. somos três, três, todos iguais. é é, nós assim os três, cada um por si, ninguém mais tem que saber. depois é chegar, dizer as coisas, olha eu isto, eu aquilo, nós somos assim os três, ninguém tem nada que saber, ora. ora, não, ninguém tem nada que saber. o teu mundo é o teu mundo é o teu mundo, isso, e depois quantas mais coisas eu faço ou não faço, se não contar a ninguém, se contar só uma coisa pequenina e depois parece que fiz muita coisa, fiz fiz, o meu mundo é o meu mundo é o teu mundo é o teu mundo, eu. somos três, três, 3, sim, 3, cada um por si. era isso.

uma outra vez também éramos três, 3, 3, éramos três nós. nós, nós. éramos três e depois éramos três e fazíamos as coisas que três pessoas podem fazer. era. 3, 3.

agora somos 3, cada um por si, cada um por si, cada um por si - qualquer coisa de gente capaz de esperar sempre o pior, o pior, esperar sempre o pior, temer temer temer tremer, isso. e depois ninguém tem nada que saber, fechados em casa, fechados em casa, eu venho a correr fechar-me em casa e depois e depois ninguém tem nada que saber, eu começo a dizer coisas, coisas, falo muito sozinho, éramos 3, somos três, três três, sim, mas ninguém ninguém tem nada que saber porque depois é chegar e eu isto tu aquilo tu aquilo pronto pronto, parece sempre que fizemos muita muita coisa.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

buracos e outras considerações

não sei bem ao certo mas como o imagino é um corpo pequeno a correr por ruas ainda por fazer. não sei bem ao certo mas como imagino a situação são pedras pelo chão e terra e talvez num dia nebuloso ou talvez isso seja só um acrescento da imaginação a tudo aquilo que eu estou a imaginar. não sei bem ao certo mas como eu o vejo é a ser surpreendido numa esquina, atrás de uma árvore, qualquer coisa. como os estranhos se aproximam de uma pessoa e falam. isto pode explicar todos os medos que vieram depois desse dia e se espalharam como água que sai de uma máquina de lavar avariada. não sei bem ao certo mas também eu nunca sei nada bem ao certo. não sei bem ao certo mas foi assim, assim mesmo que se passou. agora me lembro e quando me lembro dói-me o pénis, sinto-o desaparecer. agora que me lembro os meus olhos deixam de ver as coisas como é habitual aos meus olhos verem as coisas e começo a ver as coisas de outra maneira em que parece um túnel entre mim e o mundo e depois estão todas as coisas longe de mim e depois eu estou ali na mesma, mas como os olhos vêem aquilo os meus pés começam também a ganhar outras formas e essas formas nem sempre se adaptam bem ao chão e como não se adaptam ao chão eu tenho medo e quando tenho medo, não sei bem ao certo, mas acho que ele também teve medo há muitos muitos anos atrás e fico com o medo dele e do medo dele eu vejo uma pessoa grande e com barbas que se aproxima e lhe fala como falam os estranhos, o medo cresce, dá vontade de fugir, mas nem os olhos nem os pés nem nada em mim/nele é como é costume ser e não se consegue fazer mais nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada

zzzzzzzzzzzzzzttttttttttttttt

re re re re rewind até um outro ano muito mais atrás

era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para ser simples era para serr simpkesr,dajo,.l








e depois há um grande buraco negro branco luminoso escuro seja lá o que lhe quiseres chamar onde eu já pensei muitas vezes ir investigar mas não sei como se abre a porta ou entra ou se fica a olhar, à espera, sim, mas à espera já estou eu há tanto tempo e depois dizes-me bem, talvez não estejas à espera daquela maneira que se devem esperar as coisas para que elas cheguem, talvez estejas à espera de uma outra maneira qualquer e assim por muito que esperes não chega nada sim, respondo eu, sim, e fico a olhar fixamente para um ponto incerto, é um olhar vazio e na minha cabeça não há nada, não há nada a não ser um grande buraco também negro também branco também luminoso também escuro onde eu volto a pensar como é que estou à espera bem ou mal não sei não sei e digo sim.

1?

passa, passa, corre, corre, sim, vai, sobe e desce e sobe e desce, quantas vezes, quantas, um namorado, outro namorado, sim, corre, corre, escreve, escreve, tanto tempo a lutar para ser perfeita, bailes de mascarados, cigarros escondidos nas traseiras da escola, a mãe, o pai, a mãe, o pai, a mãe, o pai, corre, corre, passa, passa muito tempo, muito tempo, quantas vezes, quantas, uma madrinha de guerra, cartas escritas só por graça e agora, sim, olhar no, espelho?, olhar em frente, dança, dança, dança, um beijo, o carro, no carro, um beijo, um beijo, olá mãe este é, olá pai este é, sim, aqui e ali as casas, as casas, as casas, sobe e desce e corre e sobe e desce e corre, ali, pai, mãe, pai, mãe, ali, ali, ali, as casas, vem e depois entras no quarto e vês uma fotografia de quando ele era novo e sentes pela primeira vez que talvez já seja tarde demais.

1, 2, 3...

olha para o calendário, olha olha, no calendário quantos dias que passaram, este mês, este mês e o outro, era assim, uma pessoa e outra pessoa, uma pessoa e outra, era, pois, juntas, juntas, vem uma pessoa dali, já deu volta ao mundo, correu muitos lugares, fala coisas esquisitas que ninguém percebe e, mesmo assim, ou, talvez por isso mesmo, algumas vezes nem ela própria se percebe a sim mesmo, sim, é isso mesmo. vem outra pessoa, dali, do outro lado, perto, perto, não fala, não olha, não vê, calado, calado, calado. olha o calendário, conta, conta os dias, quantos dias passaram desde a primeira vez em que se juntaram e agora, sim, agora, estão ali.