sábado, 30 de dezembro de 2006

paragem

apagou a luz da sala e deixou o disco de fados a correr, aos saltos de agulha conforme aos riscos da sua própria vida, era isso que imaginava, ali, no escuro, a ouvir a voz de um homem forte como ele, com lágrimas como ele, cansado e farto de toda a vida como ele, cheio de esperança, assim, como ele.

do escuro só a ponta avermelhada do cigarro se via, os seus gestos eram agora quietos e a respiração confundia-se com os riscos no disco, os saltos na cantiga do fadista, esforçado que estava a tentar falar de algumas coisas que só os homens percebem, quanto se tem certa idade e se apaga a luz da sala.

fazer balanços? pensar em passados? para quê? não, não estava preparado para esses dramas de final de ano, nem para promessas sem sentido que tinha por costume fazer na juventude. a luz apagada, o fado a correr, e na sua cabeça a imagem que tinha dele próprio, dentro de um elevador, quando se viu de cabelos brancos por inteiro.

o fado a correr e o cigarro quase a apagar-se. não é esse o tempo da vida mas é esse o tempo de um texto, um texto que se escreve a ouvir um fado pelo meio da madrugada. os olhos fechados e essa imagem, de uma velhice que se anuncia ou talvez tenha chegado já. e o que restará, para além do brilho desses olhos chorosos, é a voz, não de homem, mas de um rapaz que adormece.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

casa de família

era do frio e do barulho dos motores a aquecer para a partida, boas festas toda a gente, a casa de família à distância e o carro cheio de embrulhos, todos os presentes que se ofereciam uns aos outros, troca de galhardetes, declaração de paz na guerra caseira, os olhares nos vidros cheio de gelo das manhãs e, sim, supostamente, era do frio e do barulho dos motores a aquecer, não poderia ser de outra coisa.

como uma voz que debita, baixinho, ao ouvido, uma oração aos homens que ficaram presos na terra seca, a ver sobrevoar sobre si as balas que matavam os pretos e com que os pretos matavam os que de cá partiam, sim, cá, dizer cá como se fosse um lugar certo, a casa de família à distância e o corpo cheio de cicatrizes, não só a pele, sobretudo a cabeça, o pensamento, o amor que se tem às pessoas, como uma voz que debita, baixinho, ao ouvido.

era do frio e do barulho dos motores a aquecer, o casaco bem fechado até ao queixo, o gorro milimetricamente enfiado para tapar as orelhas, e mesmo assim, fosse do frio, da música, do barulho ou das outras pessoas que se preparavam para entrar no carro, a mesma recordação de sempre, cicatriz no cérebro, das balas como cartões de boas festas na altura de correr e entrar no navio que o haveria de trazer, sim, até ao frio e ao barulho dos motores a aquecer, a casa de família.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

qualquer coisa noite

qualquer coisa noite, ainda, e ele um café expresso na mão enquanto na rua dezenas pessoas num sobe e desce a rua, luzes de natal, casacos de peles e música de fundo um tanto irritante, sim, era isso. qualquer coisa noite, ele orientava-se assim, pelo que os olhos viam, mais nada, um homem e as suas sensações, nada de mais real, comentava, quando à noite fornicava uma das putas estrangeiras que frequentava.

já nasceu o deus menino, ao descer as escadas ele cantava para dentro, os olhos muito abertos e fixos no nada, o que ele via era um preto a correr na sua frente e depois um enorme clarão que tudo apagava, ele não se lembra bem de quê. já nasceu o deus menino, ele a cantar por dentro, e o natal em áfrica era uma coisa com muita cerveja e a televisão a passar os soldados daqui e de lá, ele sempre se sentiu um tanto excluído, não sabe bem porquê.

noite, noite, era de noite, sim, quando o preto a correr na sua frente e mais nada. no ficheiro que veio dentro de um dossiê, muito apertado debaixo das axilas suadas dizia tonturas, alucinações, espamos violentos. ele não sabia bem porquê. lembrava-se do preto e de ser natal, sim, e o clarão não tinha sido bomba nenhuma, o corpo dele continuava o mesmo. sim. o preto a correr e o pânico de matar alguém a disparar por dentro, sim, qualquer coisa de noite, luzes de natal, luzes de natal, sim.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

luto luta

e vir dizer-te isto de uma forma que tu percebas que não é rancor nem toda a gente sofre o suficiente de forma até que eu próprio perceba que estou a ser justo já morreu tarde ou pensar de uma outra maneira que agora todos os minutos que lhe sobravam eram de dor morreu cedo e vir dizer-te isto de uma forma que tu percebas e que me permita dormir bem à hora que apagar a luz do candeeiro.

com o jornal em frente pus-me a pensar que quando eu era pequeno e ia à marisqueira com o meu pai pinochet era uma coisa que se bebia porque o meu país sempre foi muito atrasado dos cornos e sempre fez das piores bestas os amigos dos pobrezinhos e dos alcoolizados enquanto a malta comia uns tremoços e eu ficava com o meu sumol a ser puxado pela palhinha ainda uns anos antes de me passar outra coisa pela cabeça se eu tivesse vivido ali também tinha levado a minha pancada, pois é.

com o jornal em frente pus-me a pensar que houve uma série de pessoas que pensou que se podia fazer o bem custasse o que custasse e um monte de idiotas fardados a dizer aos pobrezinhos que vinha aí o monstro vermelho comer as criancinhas enquanto nos balneários do Estádio Nacional de Santiago se partiam dedos, se esborrachavam mãos, se arrancavam orelhas e unhas, se apagavam cigarros nas costas agora mais vermelhas desses vermelhos que seriam todos uns filhos da puta.

e vir dizer-te isto de uma forma que tu percebas mesmo à hora em que saio de casa e fecho o casaco porque está um frio imenso lá fora outro país qualquer e cairia neve noites inteiras e acendo um cigarro e desço pela rua do lado esquerdo dos carros que estão estacionados sem que ninguém me veja porque a telenovela o inverno ou as compras de natal para o fim-de-semana e me meta a caminho das ruas mais curtas a escutar pelas paredes o choro daqueles que não viveram o suficiente para dançar mais esta morte.

sábado, 2 de dezembro de 2006

seguimento

e então ele diz assim - dor de cabeça - talvez fosse do despertador mas que dia era hoje - que dia era ontem - quarta ou quinta-feira, de semana, trabalhar - levantar os pés e deitá-los ao chão, abaixo da cama - mas que dia era hoje e que dia era ontem - sobretudo, quem era ele, ali, ao teu lado, a dizer - dor de cabeça.

e então começava outra vez - um livro pousado em cima da mesa - a andar pelo corredor da casa como se fosse uma dança - porque não, não era dia de trabalho, era o telefone a tocar para o vizinho - era a voz da mãe a querer que ele viesse para a mesa - eram cinquenta e seis anos dentro de um pijama com ursinhos- era uma enorme mania de fazer sempre as coisas que lhe mandavam.

e então ele diz assim - dor de quê? - ele que é ele ali ao lado - dor de cabeça - uma maneira de surdez ou, como se diz, eu não percebo e não consigo interpretar os teus sinais - cabeça - na cama, mais ninguém acordado pelo prédio inteiro - um livro - e era ou não era dia de trabalho, o subsídio de desemprego caducado - foi apanhado a trabalhar - mas era uma voz - o despertador - a dor de cabeça.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

teoria geral da literatura inclusa

uma grande explosão ecoava-lhe dentro da cabeça, uma grande quantidade de explosivos deixados dentro de uma das salas do quartel, uma sala onde já ninguém ía há alguns meses - quatro recrutas pelo corredor a afastar curiosidades e todos os outros a correr para as reuniões de célula cheios de barba por fazer.

uma grande explosão - hora de sesta, tudo quieto, um almoço parco como os outros, muito whisky sem qualidade [na altura era whisky o que havia em doses industriais, desviado da alfandega que, ou não funcionava ou funcionava mal, tanto faz] - hora de sesta, havendo quem ficasse a jogar às cartas na messe e quem gostasse de receber duvidosas familiares.

dizem-lhe agora ao ouvido - na cama do hospital - que umas quantas dessas marias vinham com a lição estudada- pândega de whisky, tudo à molhada, uma que no meio do adormecimento diz que a bexiga, onde é, onde é, sacam-se umas granadas- mas a única bexiga que tive espaço de encontrar casa-de-banho era a mais inexperiente e logo a sala de porta encostada.

dizem-lhe agora ao ouvido - o que ficou bom, o que dá para mais ou menos, que o outro está todo estilhaçado e só tem, em repetição, o mesmo ecoar do estrondo e algumas pedrinhas que ainda ficaram da parede - um estudo médico diz que o cimento e o gesso espalhados após uma explosão podem alojar-se impunemente dentro de um corpo humano.

daqui da mesa do café - bengala encostada à parede, jornal aberto na página do hóquei em patins, vê-se bem a rua [com o olho que funciona] e fala-se baixinho para não acordar mais ninguém da sesta que já não se consegue dormir. era assim como no tempo do antes de, alguns tipos que lhe dão os bons dias e outros que mais ou menos nem interessa.

daqui da mesa do café - onde palavra puxa palavra um dia entrou um rapaz novo, no meio da conversa que trabalha aqui e ali, disse-lhe que era órfão há muito tempo, não que se envorganhasse mas não gostava desses discursos, um dia a mãe e um quartel, e o ouvido que ainda dá para alguma coisa a ouvir aquilo, aquilo ou o som da explosão, não se sabe bem.

sábado, 25 de novembro de 2006

novembro 25

Faz sentido - em sentido!! - não sei quantos anos depois e trazes uma arma carregada na mão apontada ao centro da minha face, entre os olhos- em sentido!!- e a quantidade de camisas verdes a marchar dentro da minha cabeça, o que eu te posso dizer é que tudo isto é um barulho que eu já não consigo aguentar.

dois homens de gravata levantados no meio da assembleia a aponta os dedos um ao outro - gritam!! - mas eu não os oiço com a música a passar ainda mais alto, é um teledisco, é uma data no calendário, são vinte e cinco tipos de barba feita a andar muito direitinhos pela calçada, sou eu a mudar para o lado de lá da estrada - a televisão na montra da loja.

"se o nosso amor é um combate" - algum sangue, sim, mas muito mais uma retórica de não ir a lado nenhum - tens um fato completo e uma gravata penduradas na porta do quarto quando finalmente acordas e percebes que é tarde demais, que todo este tempo que andaste a sonhar não passou realmente para mais ninguém a não ser para ti e agora apetece-te chorar.

em sentido!! em sentido!! - a arma apontada outra vez e ainda não sabes que idade tens, ficaste parado a urinar pelas pernas abaixo todo este tempo - és um fraco, és um fraco, repetes só para ti - em sentido!! - tomar café outra vez de braço dado com quem te maltrata, ajudar quem te pisa a calçar os sapatos, acabar na cama de quem nega a tua existência uma e outra vez mais.

em sentido!! - não vais mesmo a mais lado nenhum, apenas segues ao som da teologia musical - " o nosso amor é um combate" - e tu não acreditas, não acreditas nunca mais que alguma vez possa ganhar " a melhor parte" - em sentido!! - fim da história uma vez mais, a urina quente descendo as pernas, a arma apontada, que dia é hoje?

sobre deixar de escrever

alinho dois ou três pensamentos e as histórias começam a surgir-me ao ouvido, contadas por pequenas coisas que viram os meus olhos ou que senti na espinha quando passei da porta de casa. como aquela história de um escritor feliz que percorria corredores de livrarias a degustar os seus próprios livros, arrancando-lhes páginas e metendo-as à boca, originando assim, com a sua fome literária, vários romances fragmentários para a sua obra.

depois havia o outro, o que dizia ser diferente dos demais enquanto bebia uma gasosa com limão no bar em frente à costa- ele dizia isto e o mar parecia crescer cada vez mais forte e barrento, um mar castanho que não costuma entrar nos livros, ou porque os escritores gostam de sol, ou porque lhes falta dinheiro para as casas à beira-mar, ou porque nem todos os dias são dias de tempestade e assim foi só a fortuna a assustar-me os sentidos depois de ouvir aquela frase.

histórias que me surgem ao ouvido e que eu repito, mal repetidas, porque as coisas assim contadas parecem um tanto perder a piada. não vou buscar citações citadas nos livros anteriores, talvez o melhor mesmo seja aconchegar-me na sala em volta de montes de livros a ver a minha obra a desfazer-se nas letras dos outros. ou como aquela história da escritora que tinha ficado estéril perante um canto de rilke e perante a qual eu me ri muito quando ela me falou disso, ou seja, quando eu ainda era jovem e nada percebia das coisas.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

tosse [indo eu, indo eu, a caminho de hollywood...]

enquanto alguém sentado à mesa, que ficava um pouco acima do nível das restantes pessoas presentes na sala, tossia para o microfone, como se fizesse um teste de som, Enrique Vila-Matas entrava, fumando, fazendo-se notar pelo seu comprido sobretudo negro e pelo brilho da sua testa que parecia querer atingir os olhares de todos os candidatos a candidatos a escritores presentes naquela sessão.

a tosse era incómoda e algumas das pessoas pareciam demonstrar já vontade de sair e correr pelas ruas apertadas em que se situava aquela livraria-auditório escolhida para a encenação principal - fazer crer a alguém que, estando presente nesta sessão, pudesse vir, num futuro próximo, a apresentar-se como favorito de uma das maiores editoras comerciais do país. Enrique Vila-Matas era o autor convidado.

deixando de parecer um teste de som, a tosse era agora funda e cada vez mais insistente, talvez porque a pessoa que estava sentada na mesa, em frente ao microfone, não fosse bem uma pessoa, mas mais um escritor que, permanecendo incógnito, fingia ser um falso alérgico ao fumo, numa frágil encenação que mudou de tom quando se percebeu que ele era, na verdade, um verdadeiro alérgico ao fumo, principalmente dos cigarros que fumava Vila-Matas.

to be continued...

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

fronteiras

se bem me lembro, a ideia era falar de fronteiras, linhas desenhadas em papéis de várias cores onde alguém deixou assinaladas as cidades com os nomes ainda de antigamente, aqueles nomes que lembravam senhores que haviam sido amigos do avô [ou do bisavô, sei lá] e que agora já não diziam nada a quase ninguém, ora porque o bisavô [e o próprio avô] já morreram há muito tempo, ora porque as pessoas da cidade não gostam de nomes antigos.

a ideia era, portanto, falar de fronteiras, linhas desenhadas mais na cabeça do que na estrada, porque ainda é possível pegar no carro e seguir caminho, andando milhares de quilómetros sem que ninguém nos mande parar, sem sequer nos apercebermo-nos que mudamos de país através da língua do locutor de rádio porque aqui já só ouvimos cassetes. fronteiras, espaços entre pessoas que estão dentro das suas casas e não se conseguem tocar, mesmo que o queiram.

falar de fronteiras, sim, como quem grita um nome e o vê revirar-se no ar antes que chegue ao ouvido de quem pretendemos a atenção, mudando assim de sentido e sentimentos, porque as palavras não são nunca iguais, deste e daquele lado de lá. fronteiras como se imaginam nos livros, estejam eles abertos, estejam eles fechados, não daqueles riscos que se fazem nas estradas [nem nos papéis], riscos que se fazem pelo meio das nossas cabeças e nos confundem o olhar.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

rasgar

rasgar, rasgar o quê?- manhã cedo e o quintal cheio de geada, os pés a quebrarem finas placas de gelo alojadas entre as pedras que fazem o caminho até ao portão, a mesma palavra dentro da cabeça - rasgar - uma recordação de sábado e domingo juntos no dormitório da cidade escura, a cidade onde já ninguém quer morar.

rasgar - enquanto se espera o autocarro e as primeiras pessoas saem de suas casas a caminho do emprego ou de dias que se esperam sempre piores, levar um saco cheio de esboços feitos a pensar nos dias em que haverá descanso na nossa cabeça e alguma paz no mundo - rasgar - a palavra que nos ecoa e que afinal não nos diz nada.

rasgar, rasgar - questões paralelas sobre a janela do quarto, ser capaz de abrir os olhos a meio da noite e descobrir as estrelas antes do botão do candeeiro, alguém que se passeia no corredor da casa que antes parecia vazia, um telefonema anónimo - rasgar - e mais alguns segundos para pensar sem resposta as palavras que insistem em mudar-se para viver em nós.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

palavras 1

queria ser capaz de inventar palavras novas, as que tenho já não me servem, já não consigo começar textos com elas. inventar palavras novas, sim, quero inventar palavras novas, que possam dizer coisas que ainda não foram ditas, que possa, sobretudo, dizer coisas de maneiras que eu ainda não soube dizer. era isso que eu queria.

olho para as paredes da casa e o que eu queria ver era uma palavra nova, uma palavra diferente, uma palavra capaz de ser a palavra indicada para começar este texto e que soasse assim como uma palavra mesmo palavra que seja tudo o que há para dizer no lugar exacto em que este texto começou a ser escrito e a ser lido de cada vez que alguém o lê.

queria ser capaz de inventar palavras novas, as que tenho já não me servem, não consigo, porque não consigo, começar textos com elas. o que eu queria era uma palavra nova, uma palavra diferente, uma palavra capaz de ser a palavra, a aplavra que pudesse dizer coisas que ainda não foram ditas, uma palavra que soubesse ter sido feita para começar este texto.

sábado, 4 de novembro de 2006

diálogo

diz-me uma coisa - quinhentos anos foram insuficientes para dares a volta aos mundos que trazes dentro da cabeça e ainda assim insistes em mostrar-te convencido de que és mais alto, mais bonito, mais forte - apesar dos resultados dos jogos olímpicos - enquanto outros menos despachados do que tu - o que é mesmo ser-se despachado? - já subiram e desceram muitas montanhas, descobrindo respostas e perguntas novas a cada passo.

diz-me uma coisa - era de noite e o carro seguia junto à berma, chovia mais que torrencialmente e tu continuavas a conduzir sem nenhum destino, algumas palavras vinham-te à cabeça, cheias de imagens de outras pessoas que falam e contam histórias que tu tentas e tentas perceber- o mar inteiro à tua frente: quinhentos anos, quinhentos anos: e uma maneira de dizer as coisas de forma a que alguém perceba, a que alguém te perceba.

diz-me uma coisa - vestir o mesmo casaco dos dias anteriores e levar o guarda-chuva debaixo do braço, sentires-te importante, falares alto às entradas dos cafés - era essa a tua história ou a história que terias para contar, ao menos fosses tu um pouco mais inteligente: quinhentos anos: um pouco mais da maneira que as restantes pessoas do mundo são: quinhentos anos: mas chamas-te apenas luís filipe cristóvão, tens vinte e sete anos e olhas espantado para o espelho agora que acabaste de acordar.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

uva

havia uma uva em cima da mesa: e conseguir contar cento e quarenta e dois segundos depois do teu rápido olhar para o botão da minha camisa - perna traçada, cigarro apagado no cinzeiro, apesar de inteiro - roubar uma frase ou uma ideia à história da literatura e acabar, sinceramente, deitado numa cama cheia de roupa por lavar. mas regressemos ao início:

havia uma uva em cima da mesa: os dedos da mãe, delicados, a indicar o caminho da boca, as pernas estendidas debaixo da sala, conseguir correr mundo sem sair do meu lugar - ou então reiniciar o computador, capacidade de fazer memória ou tresler sempre aquilo que está escrito fora do nosso olhar: vais ser capaz de ser feliz, mas só dentro desta pequena jaula onde te vou prender, disse um dia o domador.

havia uma uva em cima da mesa: uma carta do pai, escrita ainda na velha máquina lá de casa, no tempo em que o pai escrevia poemas e corria a escondê-los dentro de grandes dossiês - uma carta do avô, escrita no tempo da caligrafia milimétrica, a condenar a existência da poesia e do vinho de má qualidade: uma uva, uma simples uva, retirada de um cacho à sorte, em cima da mesa, em cima da minha mesa.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

novidade

teu corpo desfeito sobre a mesa - quanta mais roupa tenho que te tirar até ser dia outra vez? - algumas peças de fruta, um saco de batata frita, uma agenda com a maioria das páginas arrancadas: podias vir de sorriso nos lábios e eu sentir-me sempre num sábado de manhã, mas os meus olhos cansam-se e eu cada vez vejo pior. mais difícil é entender-me.

não queria dizê-lo aqui - há uma música de phil collins a ecoar-me na cabeça ou será antes na sala? - e eu reconheço que repetir perguntas não faz bem a ninguém, muito menos ao género de pessoas que, como eu, se deixa abater pela miopia ou pelo cansaço ocular: no seu caso aconselho-o a renovar as dioptrias cada dezoito meses. difícil é ter razão e acertar.

também me esqueci de jogar no euromilhões- quantas mais horas, enfim, a ver a roupa a ser pendurada no estendal do lado de lá da rua? - e eu que acordo a meio da noite a pensar no dinheiro farto e nas regalias da riqueza: o teu corpo, a mesa, maçã: todos nus encontrados debaixo do chuveiro, relógio biológico desacertado. perguntar o quê, para quê?

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

uma mulher. a rua.

corria pelo passeio com os cabelos soltos enquanto do outro lado da estrada alguém se deixava tombar de joelhos em frente a uma montra - era uma pequena cidade onde aconteciam coisas e onde as pessoas gostavam de olhar uma e outra vez o céu, até nos dias em que o nevoeiro parecia queria, mais que o sol, tapar-lhes o tubo de respiração do cérebro.

corria pelo passeio com os cabelos soltos e nem se apercebia do burburinho que a perseguia pela rua acima, um amontoado de vozes que, assim a correr, mal se percebiam, mas que se em algum instante ela parasse logo perceberia que o que as vozes faziam era chamar pelo seu nome, ou melhor, chamar pelo nome que imaginavam dela, apesar de todas estarem enganadas.

corria pelo passeio com os cabelos soltos e a sua ânsia era chegar à estação a tempo de ver chegar, lá ao fundo, o comboio, no exacto momento em que ele saísse do pequeno túnel que separava a cidade dos arredores da cidade, sim, porque aqui é assim que funciona, as coisas que estão ligadas, muitas vezes só têm pequenas passagens por onde se tocar.

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

a língua que estás a ler é o português

carne da minha carne, não voltarei a estender lençóis para me deitar neles a rezar-te a existência, antes cobrir o meu corpo de água límpida que escorre da fonte da praça da cidade que me viu nascer, porque talvez seja esse o desejo dos planetas.

sangue do meu sangue, não voltarei a estender os meus lábios para te beijar os pés sobre alguma tábua, antes descer pela terra furando as pedras e as rochas do chão que foi pisado por todas as impurezas, porque talvez seja esse o desígnio dos planetas.

pele da minha pele, não voltarei a deixar os meus olhos no canto em branco de uma qualquer página, antes correr descalço pela noite em chuva e gelo que me corroam as unhas e me constipem a confiança, porque talvez seja esse o ventre do nosso renascimento.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

agenda

estava eu, o sam shepard e outras pessoas que conhecemos sentados na mesa de um café a olharmos nos olhos uns dos outros e a sentir escorrer pelas nossas testas o fumo de todos os cigarros do mundo e algum suor, quando pela porta estreita da entrada entrou um homem compacto e sorridente que anunciava, na capa de um jornal, a chegada da maré cheia aos territórios conquistados aos mouros corria o ano de ... [data rasurada].

seria com certeza misterioso não fosse o facto de já o Paco Souto nos ter falado disso uns dias antes quando, fechados os três num quarto de hotel, decidimos despir as nossas roupas e começar a escrever poemas nas camisas das costas - algumas minhocas saiam-lhe dos bolsos e ele falava muito alto das vantagens do isco galego e do comunismo internacional - ou era disto que falavamos ou havia qualquer coisa de errado em toda a estadia - e se me perguntarem a opinião, eu digo que foi o recepcionista.

- mergulhando neste tema, um flashback ou um flash gordon (algumas maneiras de nomear um gin tónico - mário henrique, mário henrique): o recepcionista era um tipo gordo e devedor à inteligência, não tivesse tantas dificuldades de locomoção e daria umas quantas bofetadas a deus quando o encontrasse à saída da missa de domingo. o recepcionista era tudo isto de gente e tinha uma voz muito fina, irritante, sem som nem tom, inaudível - corava quando o olhavamos nos olhos. o recepcionista recusou-se a vender-nos algumas cervejas, coisa que nenhum de nós virá a perdoar-lhe alguma vez.

os pés estendidos sobre o sofá do bar ou do café ou dos jornais amontoados a um canto - jornais literários, é bom de ver, daqueles onde se passeia de chinelos e se fuma algumas beatas apanhadas das páginas de opinião: num deles fazia-se uma crítica ao novo livro do Xoán Abeleira mas cheirava demasiado a marisco e os empregados tinham-se esquecido de trazer os guardanapos. estava então eu, o sam shepard, o carlos quiroga, a maría lado, o carlos figueiras, a antonieta preto, o pedro barata, o nuno travasso, deus nosso senhor, a sereia das águas, o outro paco, o eduardo estevez, a minha vontade de ser outra pessoa e um livro de astrologia - tudo isto às ... [hora rasurada]

portagem

querer encontrar por entre a chuva no retrovisor os faróis amarelos de um carro que nos tenta há imensos quilómetros ultrapassar: começar de novo a história que não é história, imenso nevoeiro logo pela manhã, boletim meteorológico a cair sobre as cabeças cheias de frases escritas - era então outra vez a mesma coisa e eu aqui a fingir olhar para o retrovisor: o carro parado.

tudo isto a propósito das dores de cabeça e dos corpos a boiar na piscina quando de noite caiu o trovão - era uma imagem macabra mas as imagens são o que são, não há que lhes dar muito valor: os olhos a traírem-me a cada momento, alguns polícias a correr pelo meio da estrada, o telefone sem rede, alguém a quem chamar: era isso tudo e a aflição do momento - era isso tudo e o não ter o que encontrar.

e depois recordar, ainda que distante, os faróis amarelos, duas moscas a voar por entre os meus olhos e o jornal, quinze euros de anúncios pagos pelos ouvintes em chamadas de alguns cêntimos- todos queremos a caridade da população, os abraços e os beijos retransmitidos na televisão privada, mas para que conta vamos nós descontar os nossos salários? - dizias então: era isso, era isso e tudo o resto em que não voltaremos nunca a acreditar.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

apontamentos para um romance (1)

ele saboreava o seu café enquanto na televisão o programa matinal gritava a dose de histeria mediática requerida para se poder ter uma conversa com um português médio na pausa para o almoço. era um não sei quê de vedetas e capas de revistas um tanto incompreensíveis para a sua cabeça ainda congestionada pela noite longa agarrado a um quixote de cervantes. ela entrou na sala.

ele poderia considerar normal que ela lhe puxasse as orelhas com a mesma força com que se levanta um armário que se tem há muito tempo na mesma posição em casa dos pais. as lágrimas que lhe vieram aos olhos foram sugestiva e imediatamente lambidas pela língua ávida dela, em movimentos menos que circulares, insistentes e gulosos. ela estava nua e o cheiro do seu corpo arrebatou toda a sala, sobrepondo-se ao vapor do café quente. ela estava também a ferver.

ele deixou-se levar, gostava de ser manipulado pelos desejos dela, materializados em pequenos movimentos de aproximação, mãos levianamente curiosas, botões desapertados sem que ele desse por isso. ela conquista-o a cada gesto, a cada aproximação e ele adora-a, assim, apaixonada e desejante, como ele. esqueceram-se do café e da televisão ligada, das horas e das doses de mediatismo necessárias para o que fosse. o jogo agora era todo no sofá.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

o amor não é urgente

para Luísa o amor não é urgente: desce devagar pelas escadas quando nasce o sol e procura, entre o cheiro das torradas, o calor de umas palavras emitidas em frequência modelada. gosta de se passear em roupão pela casa, Luísa, enquanto ouve o ladrar dos cães da vizinhança e a buzina do peixeiro entrando pela aldeia.

para Luísa o amor não é urgente: é como a chuva sobre as longas vinhas que avista pela janela, a cair fraca sobre as uvas brilhantes de vinho e álcool em preparação. gosta de colocar os óculos escuros enquanto ajeita o cabelo, Luísa, e vê passar pela estrada fronteira à sua casa, um velhote pendurado num tractor alaranjado.

para Luísa o amor não é urgente: não usa calendários nem pergunta as horas a ninguém, mesmo que seja já quase de noite e o trinco da porta subsista adormecido em silêncio. gosta da pequena ansiedade de todos os dias, Luísa, enquanto, perfumada e arranjada, espera, praticamente deitada no sofá da sala, a chegada do amor.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

três

acordar pode ser: três da manhã e uma chuva intensa a cair lá fora, a tua fotografia na mesa da sala, os pés descalços a ficar frios - alguns cigarros mal apagados no cinzeiro, garrafas de cerveja vazias, a televisão ligada numa língua que tu não percebes - ter jeito para tudo, tudo, menos para ser feliz assim.

acordar pode ser: oito e meia, antena um no despertador, o corpo durido de uns tombos no campo de futebol entre amigos - a camisa ideal por passar a ferro na cadeira da cozinha, o pequeno-almoço habitual em falta porque te esqueceste das compras - ter jeito para tudo, tudo, menos para acordar sozinho assim.

acordar por ser: o dia inteiro a rebolar contigo entre lençóis e só o erik satie por companhia de cada vez que alguém se atreve a sair debaixo dos cobertores - os nossos corpos muito muito juntos num abraço que se estende pela pele num uníssono gemido de prazer - ter jeito para tudo, tudo, inclusivé para estar contigo feliz, assim.

domingo, 1 de outubro de 2006

dizes-me tanto

Se estou aqui é porque ela pediu
e eu só podia dizer sim.
Nuno Prata

estava todo o silêncio na casa porque a meio da noite os vizinhos dormem e o meu corpo pesado dança só em sonhos inventando palavras que podiam sair da tua boca - o teu perfume a encher-me o acordar lento e as minhas mãos a procurarem-te, mais que o sono, o desejo que és tu a respirar devagar no meu ouvido - em cima da mesa de cabeceira uns quantos livros, uma teoria da arquitectura, uma alice do outro lado do espelho, um ruy belo que não se vê (propositadamente encoberto por uma revista de actividades mundanas), um rádio a pilhas e os meus óculos.

passas pelo meio da chuva, entras em portas que estão fechadas: começaria, certamente, assim o teu poema. um poema elegante como as tuas costas direitas deitadas na minha cama, um poema longo como a quilometragem dos teus sonhos em explosões continuas de nuvem em nuvem desenhadas. um poema desenhado em folhas grandes por um lápis fino e frágil, com cara de amigos que olham o sol de frente, como tu, à procura de um vermelho fogo que nos arde nas pupilas mas não se vê em mais nenhum lado.

estava todo o silêncio na casa ou talvez fosse o leve sussurro dos nossos corpos a rebolar nos lençóis, lençóis enrolados aos pés da cama ao pé da qual só a nossa excitação já encontra lugar - a minha mão e a tua, o teu e o meu sexo, e nem foi preciso uma só vez para nos olharmos nos olhos sem percebermos qual a nossa estrada - estamos desde sempre no mesmo caminho - estava todo o silêncio na casa e a luz acesa da mesa de cabeceira e alguns rabiscos num papel dobrado e uma caneta e não haver horas para começar ou acabar todo o amor que sentíamos ao acordar.

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

mundo meu

era eu ou então era o jarvis cocker a entrar pela sala com os joelhos a tocarem-se nas pernas tortas - era a entrevista do j.p.simões e a sua falta de alegria em cada frase construída e arrastada no fumo do cigarro - era uma natalia russa a queixar-se da sorte sem saber a sorte que tinha - era uma noite em branco e abrir muito os olhos para ser só lágrimas a cair dos olhos.

era eu ou então era o juliano spadaccio a correr em direcção ao abraço de todos os seus colegas de equipa - uma loja vazia e um caixa a festejar um golo silenciosamente - já ser de noite e a minha filha a puxar-me a mão para irmos para casa - era uma noite em branco sentado em frente à janela a ver a chuva cair no chão sujo da varanda.

era eu ou então era um disco guardado numa gaveta porque as músicas são tristes - um número de telefone que nunca se usa mas que também nunca se esquece - um vizinho a vociferar idiotices porque nos caiu um prato de madrugada - era uma noite em branco, uma noite em branco como tantas outras, com os mesmos sonhos e pesadelos que me fazem dizer: sim, este mundo é meu.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

a história de v

ao olhares o teu corpo em frente ao espelho - e o espelho sou eu, deitado sobre a cama, a masturbar-me - sentes como o tempo ficou quente agora que se inicia o inverno e sorris, maliciosa, com as mãos bem abertas sobre os seios. terias, provavelmente, algo para me dizer, mas só se solta de entre os lábios um suspiro alongado de prazer e perversidade.

ao olhares o teu corpo junto ao meu - e eu sou este homem aqui, à espera, descentrado na fotografia - sabes que mais um dia passou, e que será também num dia como o de hoje que sentirás o meu pénis erecto a invadir-te a vagina e a deliciar-se, molhado, na tua abundante excitação. ao pensares nisso, provavelmente, só um suspiro, ainda mais alongado, se solta de entre os teus lábios mordidos.

ao olhares o teu corpo nesta cama por fazer - e esta cama é apenas o que resta de todo o sexo apaixonado que fizemos de manhã - imaginas que muitas outras manhãs, tardes e noites se seguirão com os nossos cheiros intengrando-se num só perfume. imaginas também que o poder de dois corpos, de duas almas que se amam, dificilmente pode ser quebrado quando reunido assim, intensamente. e provavelmente terás toda a razão.

domingo, 17 de setembro de 2006

test-drive

vamos lá começar isto do princípio, de um lugar onde te possas sentar numa cadeira, tirar as canetas do saco e começar a fazer riscos em cima de riscos até que eu te olho por cima do ombro, com um beijo, e nos descubro aos dois, abraçados, com o papel a adivinhar-nos os gestos como um espelho.

vamos lá, voltar a colocar os livros nos seus lugares reservados nas prateleiras, escolher de entre os papéis os que merecem ser deixados dentro de gavetas, varrer, aspirar, abrir as janelas, deixar o sol entrar para dentro da sala, ajeitar as almofadas no sofá, deitar-me ao teu lado, abraçar-te.

e um pouco mais tarde, procurar um casaco e passear pelo jardim de mão dada contigo, saborear o som dos sapatos sobre a terra que desenha percursos entre relvas, sentir a cheiro fresco das árvores, procurar o jornal certo na papelaria, e seguir, seguir, sempre sempre de mãos dadas um ao outro.

e um pouco mais tarde ainda, um sorriso do tamanho do mundo inteiro, um descanso feliz, sim, isso, sim.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

9.11

o meu corpo e um avião a voar lá fora: (vinhas tu de onde viesses) mas em cima da mesa umas quantas páginas em branco rasgadas de todos os livros de poesia da minha vida: porque a história começava assim: (uma história é sempre uma história, escrita ou não) não sei onde guardar todo este silêncio da poesia, todo este tempo que me deixa para pensar entre as palavras - sim, porque na poesia não ficaram sorrisos.

um avião e o meu corpo a voar lá fora: ( repetir várias vezes em frente da televisão a mesma imagem) porque era eu que fazia a televisão emitir as imagens e não o contrário: um mundo que não se consegue perceber, mesmo quando se insiste em compreender os diversos lados que um poema pode ter: (ou sobretudo devido a isso, sim) poder ficar quieto e calado a um canto à espera que algo nasça não é a mesma coisa que o silêncio entre essas duas palavras - e no canto podes sorrir.

o meu corpo e um avião e o teu corpo e outro avião: (numa série de minutos contados tiquetaqueando) mesmo que nos seja impossível descobrir de que lado nasce o verso quando se está fechado dentro do quarto: (eras tu em cima de mim) a gemer devagar o mau sexo que praticávamos: e fora de tudo isto, de todo este poema que não compreendemos, um poema ainda maior, cheio de fumo e chamas, a cair-nos sobre a cabeça - e aí, quem sorri, de qualquer jeito?

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

imaginação

vamos começar do início: dá-me um espaço onde eu estique as pernas e faz com que a água corra pela cara - diz assim, é o calor - diz assim, é o calor, o calor, o calor. vamos começar: um, dois, três: vamos começar: é assim, eu sigo pela direita e tu pela esquerda, os dois sentados na mesma sala, a escrever - tu levantas-te e dizes, dá-me um kiss - tu levantas-te e dizes, dá-me um kiss- vamos, vamos começar.

tu perguntas assim: eles gostam de mim? - tu perguntas assim: eles gostam de mim? - havia uma guitarra pendurada na parede e uma série de garrafas em cima das mesas, era uma festa, uma festa de aniversário - e tu pendurada na minha orelha, chama-me brinco - e tu pendurada na minha orelha, sou o teu brinquinho - algumas pessoas a dançar, algumas pessoas a beber, kiss kiss.

batem à porta: afinal estava a dormir - batem à porta: entra um homem de punho fechado e passa pelo corredor a dançar um mambo argentino mas não vinha ter comigo - o seu vizinho está - não vinha ter comigo - o seu vizinho está? - uma ou duas perguntas, pouco mais para dizer, apenas que deixei ficar em cima da mesa os papéis e quando olhei tu não estavas lá, aliás, não estiveste nunca lá, fui só eu que imaginei.

terça-feira, 5 de setembro de 2006

o dia

para Eduardo Estevez

falamos baixinho entre os dedos que trazemos dentro dos bolsos a brincar com as canetas - foi assim que chegamos um ao outro. eu vinha de um quarto aberto para o campo e de uma manhã a brincar com a lâmina de barbear em frente a um espelho que não era o meu, ele vinha de um acordar sonolento junto daquela que ele já sabia trazer dentro um sonho seu.

não dissemos muito que não pudesse ser dito de outra forma - todas as conversas começam circunstânciais, como os complementos. depois, no meio de um almoço que nos sentou lado a lado, sem pensar, alongamos presenças de livros e de palavras, viagens que se fazem só com os olhos fechados, mesmo que ainda não seja de noite, para sonhar.

eu já sabia ao que vinha - as pessoas que trazem as suas mãos abertas ao encontro podem muito bem encontrar quem a isso se disponha - ele, ao que parece, também. quis a sorte, faltando melhor palavra chamo-lhe sorte, que dois dias depois desta dança de palavras, chegassem umas outras, tão esperadas sempre. vou ser pai. sim, foi o que ele me disse como se inaugura uma amizade - a que vai ter a idade do seu filho.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

telegrama

que horas são, digo-te eu a dormir, qualquer coisa depois de almoço, há quem lhe chame sesta - hmmm, o calor, este calor inteiro que cai em blocos e a lembrança de um rio a correr já não sei bem se para cima ou para baixo, estou habituado a ver estas coisas de atravessar ao contrário - eu venho do sul, mesmo que a minha cabeça não seja de lá, venho do sul, como os pontos da rosa-dos-ventos.

que horas são, digo eu com medo de me repetir, porque em certos dias parece que não saio do labirinto em que digo sempre a mesma coisa - ou seja, estava eu em pé, a ler, e parecia que não saía daquele mesmo verso, o mesmo eco, uma mesma história, uma mesma palavra, sempre, sempre, sempre - e depois havia alguém que me abraçava e me dava os parabéns, era um dia de aniversário, certamente, não o meu, mas de toda a gente.

que horas são, digo eu e doi-me a cabeça outra vez, talvez por causa do café ou da falta dele, a almofada que fique com as culpas da minha má disposição - e se encontrar alguém na rua ainda lhe vou dizer que é mentira, que nada do que eu escrevo é para acreditar, que apenas vou apanhando do chão palavras que me caem da boca - que horas são, que horas são, repito, repetição, palavras, palavras do chão.

quarta-feira, 30 de agosto de 2006

a miúda

sim, eu sei que não tirei os auscultadores dos ouvidos o rápido o suficiente para que não notasses que estava a ouvir; sim, eu sei que nem sequer tive jeito para o fazer sem grande barulho, bastante atrapalhado, sim; sim, sim, eu sei que não fui nada profissional - mas que importa isso quando nos podemos apaixonar com um só olhar?

sim, eu sei que não te devia ter olhado como se vê a luz muito para lá do fundo do túnel (ou será do poço); sim, eu sei que não te devia ter sorrido como as crianças sorriem para os presentes debaixo da árvore de natal; sim, sim, eu também não sou o tipo ideal para as medalhas de bom comportamento comercial - mas tu coraste e sorriste envergonhada, queres que me arrependa agora?

sim, eu sei que não te falei de nenhum dos livros que tenho aqui pelas prateleiras (estava perdido nos teus olhos); sim, eu sei que te foste embora e que talvez não voltes mais a entrar (raparigas bonitas não gostam de voltar aos lugares onde coraram em frente a homens mais velhos); sim, eu sei que fiz um péssimo serviço ao atender-te assim - mas, se te serve de alguma coisa, esta noite, vou sonhar contigo.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

dedos

os dedos dele cobriam todo o crânio e alguém lhe soprava ao ouvido - consegues compreender o meu sopro quando te toca ao ouvido? - os dedos dele misturados com sangue e cabelos, pedacinhos de ossos lascados que, ao longe, pareciam caspa - e qual é a intensidade de um choque quando o teu corpo cai de tão alto? - os dedos deles, sim, porque os dedos dele eram bem grossos.

os dedos dele, havia toda uma narrativa sobre estar ou não estar, uma história dos dedos enquanto pedaço de corpo distantes do próprio corpo - com os dedos eu chego até ti, com eles me levo mais longe, onde mais nada do meu corpo pode sequer sonhar - e depois disso eram qualquer coisa como horas mais tarde, uma hora que já nem cabia nos relógios, o teu olhar distante sobre o mar - mas dói ou não dói? - porque dedos tão grossos não chegam, mesmo assim.

os dedos dele, os dedos dele, os dedos dele, raspar com as unhas sobre o papel tantas vezes reescrito, o papel também chora e também grita, porque pensas tu que tens tanta vontade de o rasgar - e amanhã de manhã vai estar sol em todo o país com excepção de algumas nuvens altas no litoral oeste - e os dedos dele eram oportunidades de negócio porque podíamos tentar arrancá-los antes do explodir da manhã, e assim da mistura de sangue e cabelos tudo se poderia ver à agradável distância - manda-me um sms - que estas ocasiões requerem às pessoas normais.

qualquer coisa

qualquer coisa é fazer a revisão da matéria dada, um dois três macaquinho do chinês, a porta aberta e o mar inteiro, a carteira na mesa que fica no meio da sala, quem vem lá que eu não sei dizer: qualquer coisa é fazer a revisão da matéria dada, ser muito mais velho do que uma vida inteira, duas três hein?, qualquer coisa é abrir a janela e respirar, no final, uma última liberdade.

qualquer coisa é uma máquina fotográfica sem rolo, quinze dias a viver debaixo de água, o frasco do shampoo caído na banheira, os pés sujos porque na varanda não chove, acumula-se pó pela casa inteira, um sentido qualquer para tudo isto quando: qualquer coisa é uma pessoa que entra na nossa vida, põe e dispõe, vai-se embora - um traço pelo caminho e ficar à beira da estrada não seria solução também.

qualquer coisa é um poema que está por escrever há muito tempo alojado na minha cabeça, colar as costas contra o frigorífico, comer fruta que estava para apodrecer na cozinha, plantar um quintal no corredor da casa: qualquer coisa é não saber desenhar e, mesmo assim, fazer casas para cair, paredes que ficaram por dizer, por entrar pelos meus olhos dentro, qualquer coisa é fechar a porta, desexistir.

2:00 a.m.

são duas da manhã e o que espero eu, a música no máximo das pequenas colunas do computador, os olhos a fecharem-se contra a minha vontade, a cama que chama, sozinha, no quarto ao fundo, são duas da manhã e o que espero eu, um toque, um sinal, uma entrada no msn, o meu corpo caído da cadeira sem nada que o segure, as palavras destes homens que me cantam o amor ao ouvido.

são duas da manhã e o que espero eu, voltar à hora antes do jantar e voltar a estar a olhar para o topo da Igreja no Jardim da Graça, encolher-me com a força do vento nas viagens pelas outras vidas, um corpo de mulher algures à minha frente, na minha cama, o quarto dos fundos, um duche de madrugada para esquecer que a sujidade existe, as minhas mãos as minhas mãos as minhas mãos que nunca nunca desistem.

são duas da manhã e o que espero eu, amanhã de manhã saio de casa e tu dizes-me que o mundo me ama, mando-te e-mails e não recebo resposta, estou à deriva nesta cidade, já te disse?, e o meu corpo que não existe vai-se desfazendo em lágrimas pequeninas enquanto a minha avó, em frente ao fogão, prepara o jantar e pensa, feliz, como o seu neto é exemplar, poucos dias, poucas horas até, antes de ele cair pelas pedras até ao mar, calmo e lúcido, para sempre.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

vento

dizer-te qualquer coisa como um milhão de vezes aquele movimento dos olhos que se levantam do papel e vão em busca de uma sombra que passa mas não é ninguém - melhor, melhor - e é alguém que nós insistimos em não ver, porque é um alfabeto que desconhecemos ou do qual já estamos cansados há demasiado tempo. era isto.

o vento, o vento - que idade tinha eu quando morri outra vez, dessa não me lembro ou - todos os copos a cair da mesa e os vidros espalhados à largura da sala, se eu sei dizer, se eu sei escrever com este vento todo, era a mesa a cair sem estrondo, dois corpos agarrados um ao outro, era qualquer coisa de violento mas sem som, sem som nenhum, só vidro partido espalhado pelo chão.

agora vamos ver se eu sei escrever com este vento todo - uma voz baixinha na mesma frequência dos passos que ecoam nas minhas costas - o olhar curioso que alguém deita sobre a minha mesa, a surpresa: para mim?: e a forma despida como me virou costas, o agradecimento inócuo e formal, minutos depois - não, eu não sei escrever, não sei, porquê insistir, com este vento todo.

sábado, 26 de agosto de 2006

[mute]

para mim, todo este silêncio da barba a crescer por dentro dos olhos, comixão que a mão procura, fechada, pela cavidade ocular - quem me fez encontrou um certeiro equilíbrio entre o meu punho e a formatura do crânio em volta dos olhos, assim como uma peça feita em fábrica, medida e desmedidamente encaixada, para que eu pudesse sempre tapar os olhos com a força de quem sente as dores do mundo.

para mim, todo este silêncio da porta aberta para a rua sem sorrisos das pessoas que passam, umas quantas moedas esquecidas no bolso das calças e que rolam pelo soalho quando as dispo - era de noite, sim, era de noite, e não havia mais ninguém a quem pedir um abraço, mais nenhuma rua para calcorrear - aquela mulher abandonada precisava de tanto carinho quanto eu, trouxe-a para casa, fiz amor com ela, dei-lhe um beijo à despedida, hoje, estou certo, ela acordou feliz.

para mim, todo este silêncio de estares assim distante desde o dia em que te expulsei da minha casa, o dia em que te acompanhei até à estação dos comboios e te vi subir à carruagem com lágrimas nos olhos - não, eu não seria capaz de te dizer de novo que te amava, o meu coração não aguenta as minhas próprias indecisões, e só um grande amor te podia querer e repelir-te assim tão intensamente, só um um grande grande amor nos fazer dizer as coisas que eu disse, e deixar-te assim, partir, sem nada mais na volta que todo este silêncio.

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

barba

l. trazia a barba por fazer naquela manhã

o mistério do desaparecimento da menina g. ainda está por resolver - deviam ser umas sete da manhã quando deram pelo desaparecimento dela, a essa hora havia quem a fosse buscar à porta de casa para a trazer até ao escritório, mas ela não estava no sítio do costume. alguém subiu ao terceiro andar do velho prédio da menina g. e bateu à porta, primeiro com algum respeito pela vizinhança ainda adormecida, depois com violência, visto estar a ficar cada vez mais atrasado para recolher todas as meninas que trabalhavam no escritório.

para nós, que o conhecíamos há tanto tempo, era qualquer coisa de anormal, aquele aspecto desgrenhado

o certo é que umas horas mais tarde, alguém telefonou para a polícia dando conta do acontecido, que a menina g. não tinha aparecido para trabalhar, que talvez fosse bom saber o que se teria passado - um polícia dirigiu-se até junto ao prédio e bateu à porta de alguns vizinhos, que tinham muito pouco a dizer já que, aquela hora, estavam todos a dormir, e só um parece ter sido incomodado pelo bater violento de alguém a uma porta e por uma ou duas vozes aos gritos escada abaixo - mas podia estar a sonhar, não garante que nada disto tenha acontecido realmente.

l. nunca mais foi o mesmo. o que não se pode dizer da menina g

porque uns dias depois, alguém passou junto ao prédio dela, pelas sete da manhã, e lá estava ela, no mesmo sítio, como sempre, antes do desaparecimento. apareceu como desapareceu, sem que isso parecesse nada de anormal na rotineira forma dos dias se seguirem uns aos outros. não explicou o que se tinha passado - embora também não conheçamos quem se tenha atrevido a perguntar alguma coisa, aqui no escritório somos todos muito cientes da nossa privacidade e não nos gostamos de meter na vida dos outros.

só l., o pobre l., que fica tão mal assim de barba por fazer.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

adivinhas

começava assim, a mão pousada sobre a testa em pose teatral e um gemido fino a ecoar dentro do copo que estava agora já quase vazio: a língua descia pelo canto esquerdo da boca e parecia querer conquistar um pouco mais da nossa atenção, sentados a um canto da sala, numa mesa mais pequena que as outras. a tudo isso eu acenava negativamente que não, ao ouvir ecoar na minha cabeça

mas ela era casada, não?

e pensava para com os meus botões todos os passos dados desde que de manhã cedo saíra da cama: comecei por andar um pouco pela casa, a habituar os olhos a estarem abertos perante um sol que insistia em entrar abusivamente por uma janela que ficara aberta a noite toda: depois procurei nos armários qualquer coisa que eu pudesse comer, se bem me lembro nem sequer tinha jantado na noite anterior: sim, aqui percebi que não estava em minha casa e

ela era casada ou não?

decidi ir procurar a minha roupa, algures no meio destes corredores e portas estaria a minha roupa: encontrei primeiro uma casa-de-banho, tomei um duche, lavei os dentes, enxuguei-me com uma toalha azul, muito macia que estava pendurada atrás da porta: ainda tinha fome, mas ali estavam as minhas calças de ganga e a minha camisa às riscas, esquecidas à porta de um quarto: sim, tinha alguma curiosidade em saber quem me trouxera até ali, porque só me lembrava de a ouvir dizer

não te digo se sou casada ou não, adivinha tu,

e talvez eu tenha passado a noite toda a tentar adivinhar, porque sei que caí numa cama e havia um corpo, um corpo para além do meu, e sei que havia gemidos e gestos teatrais e línguas, sei, e sei que havia ainda qualquer coisa mais, um candeeiro ou uma luz trémula, mas depois devo ter passado a noite toda a tentar adivinhar, ou terei adormecido, porque não me lembro, não me lembro de mais nada senão que tinha começado a andar um pouco pela casa.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

a vida no campo

agora sobe para cima da cadeira e jura que nunca mais voltas a beber álcool, nunca mais, e agora volta a descer e abraça-me, abraço-te, e agora sai da minha frente e volta só quando tiveres crescido, vá lá, uns seis anos,

eu tenho vinte e dois anos, eu caminho de costas direitas pela rua, as amigas da minha mãe dizem que eu sou muito bonita, as minhas vizinhas gostavam de ter uma filha como eu, o senhor joão da loja diz que eu sou quase perfeita, e ainda assim

agora despe esse vestido ridículo que alguém que te deu nos anos porque eu não acredito que gostes dele, gosto, e agora sorri para mim mas com a boca mesmo muito aberta, aaaaahhhhhh, e agora declama em voz alta um poema que tu conheças, que meta sangue e coisas nojentas, amar-te assim perdidamente, agora cala-te,

eu tenho vinte e dois anos, entrei para a escola primária com cinco, a minha professora chamava-se cecília, e foi lá que conheci a carla, a minha melhor amiga, que foi sempre da minha turma até ao 12º e depois seguiu comunicação social e eu fui trabalhar com o meu pai porque ele precisava, porque eu sabia fazer tudo o que ele precisava,

ok, ok, mas agora abre a minha camisa botão a botão e conta-os, dois seis sete quatro, e agora bebe daquela garrafa de whisky que alguém deixou no armário, sabe mal, e agora promete-me que nunca mais mas nunca mais me voltas a dizer que não a nada, ouviste, sim, ouviste mesmo?, sim, então agora promete-me outra vez que nunca mais voltas a beber álcool, nunca mais, boa,

eu tenho vinte e dois anos e já não aguento mais, não consigo falar com ninguém, apesar de ter dentro de mim alguma certeza que me faz sentir feliz, é, isso mesmo, feliz, estou feliz apesar de tudo, apesar do meu pai, apesar da minha mãe, apesar de estar completamente apaixonada pelo homem errado, por este homem horrívelmente errado,

e agora deita-te na cama, mas, e agora deita-te na cama e não discutas, não, e tira essas cuecas que te ficam mal, mas, vá lá, não me irrites, mas, tira essas cuecas que te ficam mal, porra, sim, e agora deixa-me cair sobre ti como se cai sobre um inimigo, não, cala-te, mas, e agora deixa-me cair em cima de ti como um homem cai sempre sobre uma mulher, mas, cala-te, sim, e agora deixa-me entrar em ti, não, cala-te, cala-te, cala-te, mas, isso mesmo.

domingo, 20 de agosto de 2006

ferragem - outra

vamos começar de novo, começar do momento que escolheste e que era assim

o avô a sair de dentro de água com a camisa e as calças bem engomadas e uns senhores a conversar sobre as notícias em volta de um jornal desportivo, algumas velhas subiam escadas e tu suavas e corrias pela praia enquanto pessoas tentavam barrar-te o caminho - o avô, esse, estava lá, a sair de dentro de água e a sentar-se ao sol, puxando de um cigarro

vamos começar de novo, afinal agora choras todos os dias, todos os dias, porquê

muitos muitos anos depois chegavas a casa depois do trabalho e desapertavas a gravata, sentavas-te no sofá e o teu filho trazia um caderno da escola para te mostrar, tu olhavas e não vias nada, e ele repetia daddy daddy, tu olhavas e não vias nada, daddy daddy, não eras tu, era outra pessoa qualquer, um país estrangeiro, os pés descalços, uma mulher que nunca tinhas visto antes a entrar pela sala e a perguntar-te

pois, mas não é isso, concentra-te, concentra-te, pensa bem naquilo que te perguntei

começo a ouvir buzinas quando falo nisto, buzinas não, aquele som de presença, electricidade estática, sim, electricidade estática, no meu ouvido, pressinto-a e é domingo, pressinto-a quando falo nisto, nisto, nisto, o avô a apanhar sol e a puxar um cigarro, uma menina do outro lado do mundo a escrever coisas em papéis e a guardar, tu aqui, o avô, o cigarro

porque eram o quê, onze horas, talvez fosse fome, talvez fosse sono, talvez fosse

tu sentado na esplanada a comer torta de canela e a pensar que eras o ruy belo: tu sentado na esplanada a comer torta de canela e a pensar que eras o marido daquela senhora que trazia um bebé loirinho nos braços: tu sentado na esplanada a comer torta de canela e alguém passa, senta-se ao teu lado e diz olá vizinho

e no meio de tudo isto ainda bate um coração, um coração, ainda bate um coração, com que ritmo

com soro no braço ainda vai ser possível ouvir-te dizer que as meninas da pastelaria eram todas muito bonitas e talvez viessem de outro lado para trabalhar ali no verão, não se pareciam em nada com as raparigas daquela terra, nem sequer a pastelaria, nem sequer a esplanada, nem sequer a torta de canela, se calhar voltas lá e não existe nada

e como te explicar, a ti, pessoa que desconheço, o tamanho do buraco que trago no peito

o avô sentado na praia e as meninas de cabelos soltos, biquinis, pele à mostra: tu suavas, suavas, suavas, uma carta de vinhos na mão e tentar escolher qualquer coisa que tu nem conheces: pessoas que te dão os bons dias e quem será: o avô sentado na praia e tu com soro no braço, ainda alguém que te ouve falar, sim, antes de te calares para sempre.

ferragem

pesadelo, pesadelo, mantra repetido pelos meus lábios no sabor do asfalto, curva à direita, curva à esquerda, veículo em processo de ultrapassagem, velocidade perigosa, travões fracos, pesadelo, pesadelo, mantra repetido pelos meus lábios, campaínha da porta, dizer-te o quê, uns quantos frascos de comprimidos e álcool, tirar as meias antes de deitar, fazer amor, fazer amor, fazer amor

pesadelo, pesadelo, levantar da mesa do café a correr com as chaves de casa na mão, abrir a porta, tirar a camisa, beijar-te o pescoço, dar-te, o quê, quarenta e seis segundos para que me digas és tão querido, abrir-te as calças, tirar-te as cuecas, pegar no meu pénis anestesiado, gosto tanto de ti, penetrar-te, penetrar-te, penetrar-te, a correr, a correr, sim, fecha a porta quando saíres, pegar na camisa do trabalho, fazer o gesto

pesadelo, pesadelo, repetir sempre a mesma cena mesmo quando estás a pensar, não vou fazer, não vou fazer, repetir sempre a mesma cena mesmo quando estás a não pensar, a não sentir, era isso que querias dizer, entra, entra, oiço um gemido ao longe mas talvez seja o som das facas na minha cozinha ou da janela a deslizar na calha, afinal é fácil pôr a perna do lado de fora, ou cair, ou cair, ou cair, ou cair.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

amanhã à mesma hora

porque agora és tu quem chega de manhã e passa os dedos pelos meus olhos e me faz acordar mais devagar

ou outra coisa que me possas dizer, fá-lo, por favor, por mensagem escrita, qualquer coisa que me lembre aquelas folhas azuis de 25 linhas

porque agora és tu quem me vê levantar despido e se senta na cama à minha espera enquanto eu tomo banho

eu a recusar que tu te chegasses à banheira, sei muito bem fazer isto sozinho, deixa-me em paz, e tu a sorrir contrariada, a dizer, eu fico aqui sentada

porque me parece que em certo ponto nos encontramos, algures entre a ausência de amor e o meu excesso de protagonismo quando te digo não

tu deves mexer nos meus livros, tu deves mexer nas minhas roupas, tu deves mexer nas minhas fotografias, tu deves procurar papéis escritos por mim até debaixo da cama

porque fazes aquela cara de tudo aceitar, sei lá, aquela cara de pessoa que gosta mesmo de mim, ninguém diria que vens aqui obrigada

e depois secas-me as costas com a toalha, tens cuidado comigo quando eu digo que me dói, no dia seguinte trazes-me uns comprimidos do médico, para as dores, dizes tu, mandou o doutor

porque de ti eu não tenho medo, não tens razão nenhuma para me matar, pois não, e então quando me sento finalmente à secretária para escrever, tu vais embora e dizes, amanhã à mesma hora

e eu vejo pela maneira como sorris, o jeito de pegar no saco da minha roupa suja, até era capaz de te dizer que ficas bem com essa bata da assistência social, até era capaz de te dizer que gosto quando me dizes, amanhã à mesma hora.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

superbacana

toda essa gente que se engana ao entrar nos automóveis sem saber o destino

bem, uma rapariga linda, sorridente, encostada ao bar enquanto pedia mais uma garrafa de cerveja e procurava, na mala, um maço de cigarros que, pelas horas, já devia estar vazio, ou quase isso

toda essa gente que não sabe e que não vê, nem sente que

já há alguns anos que a vejo passar na rua, ainda hoje corria da chuva sem que eu saiba bem para onde e depois, bem, faço amizade com o marido dela e acabamos por ficar, eu e ele, sentados num café com vista para a rua onde ela não passa

O sol responde o tempo esconde o vento espalha e as migalhas caem todas sobre

pois, uma mesa posta para sete pessoas, pares incompletos, e alguém que se atrasa ao ponto de todos começarem a comer, o meu telefone que tocou três quatro vezes, o marido dela já sem saber o que fazer, mas não, eu não podia, ela, bonita, sorridente, a trazer o vinho para a mesa e eu

em copacabana.

viagem rumo ao nada

ah, o sono, mas que horas são, rebenta-se um saco dentro da tua cabeça, ou no tapete do elevador, foste às compras mas esqueceste o essencial, compraste o que não precisavas, precisas ainda do que não compraste, e amanhã, que é quarta-feira outra vez sem esperança no mundo, o que vais tu dizer quando chegares e deres de cara contigo?

e que música era aquela, a que horas da noite, de que raio é feita à tua vida se te sentas em mesas onde ninguém parece ter uma palavra que te alivie, que te faça descansar, um segundo que seja: era só mais do mesmo, o costume, e tu, sem dares por isso, a consumires-te em lume brando para que no dia seguinte acordasses ainda com mais dores, dentro e fora de ti.

mas tu apagas a televisão, apagas sempre a televisão, e quando finalmente arranjas uma toalha de praia começa a chover, começa o inverno no teu coração: e era frio, e eram os teus dedos sem luvas, e era a tua cara chorosa que ninguém percebe, porque tapas os olhos com essas lentes escuras: e era, afinal, um fim diferente para esta histórias, mas tu não estavas lá, tu nunca estás lá.

sábado, 12 de agosto de 2006

6ª etapa

e ele recostava-se no sofá para ver a volta a portugal e dizia assim

porque o meu pai gosta de cantar à janela, eu aprendi a contar pelos dedos o era uma vez - coisas de miúdos - mas também te digo, quantas vezes ainda vais ter que sair de dentro do armário para olhar o céu, isso é que eu gostava de saber.

e ele esticava as pernas sobre a mesinha da sala e pegava no controlo remoto

porque comigo, ele sempre insistiu - nunca vás a lugar nenhum sem levar umas cuecas - e era sempre a voz dele que eu ouvia quando me deitava em qualquer cama - as cuecas, as cuecas - um gajo na tropa não pode pensar estas coisas, um suspiro e estás logo a levar um tiro.

e ele abria os botões da camisa e suava, suava, suava

porque ele ria-se tanto de mim que uma vez ao entrar no elevador urinei pernas abaixo - eram nervos, dizia o médico, tente ser mais calmo junto dele - e o meu pai, mal saiu do consultório, deu-me um caldo na nuca e disse-me para me fazer à vida, que estava farto de mim.

e ele olhava para o tecto assim como quem vê, ao fundo, a meta

porque não há maneira de um gajo se esquecer destas coisas, sabes, não há maneira - os carros de apoio a buzinar, há alguém caído lá atrás, quem será? - e mesmo que tu te agarres com muita força à bicicleta vais sempre pensar que alguém largou óleo no asfalto.

e ele levantava os braços e deixava cair a cabeça, parece que não, mas ia em último lugar.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

"subsídios para uma rudimentar teoria do envenenamento"

o corpo despido sobre a cama, a janela fechada, uma luz da noite entrando, o corpo - qualquer pensamento que se incendeia agora em minha testa, esta ferve que não vem do álcool nem do esperma derramado pelos meus dedos magros e feios - o corpo, a janela fechada, um lápis que escreve na parede e guincha a noite inteira pelo corredor

: o corpo, o corpo - ser capaz de te amar só assim aos intervalos, ser capaz de te dizer coisas bonitas e depois não te dizer nada se me telefonas - eu vou devagar, mas vou, adormecer pela noite suando distâncias e teorias subsidiárias de uma loucura empacotada e pronta a servir nos territórios ultramarinos - que agora não os há, apesar de umas quantas cabeças penduradas em estendais por esse nome ainda os entenderem

- o corpo e o corpo - discurso indirecto livre para te chamar a qualquer hora do dia, curvado que estou com o meu corpo sobre o teu, o meu corpo sincero e inútil que vagueia tempestade sobre os lençóis lavados deste motel de beira de estrada: mas era uma janela e um corredor ou eram os vizinhos da casa ao lado a dançar depois da meia-noite ou eram os turistas que chegam tarde porque se perdem pelas auto-estradas

enfim, o corpo - o meu, tu percebes - acordar dentro da banheira e sentir umas mãos a apertarem-me os ombros, seria amor o que eu tinha para te dizer mas ainda apareço sozinho na fotografia - e queria dizer que era um mistério o que havia dentro das gavetas, mas não, apenas um revólver e alguns preservativos que eu guardei para a próxima vida: porque existem muitas maneiras de enganar a mãe, muitas maneiras de enganar a própria morte -

e vinhas tu a chegar dentro de umas lentes escuras, o meu desejo nos teus seios e o meu suor a chamar-me incapaz - incapaz - enquanto alguém dançava no andar de cima em saltos altos, a mesma loucura de sempre, um corpo, o corpo, o meu, encerrado num jardim de lunáticos, médicos de mão dada a fingirem-me são, cartas que chegam de longe para ninguém as ler, uma vida perdida por uma questão de segundos

: acaba assim a narrativa, a maneira que eu tinha de te fazer amor pelos ouvidos - acaba assim o meu poema de amor, esse corpo inquieto que não se descobre e não se sente - haverão ainda de dizer que nós éramos próximos ou amantes, que caminhavamos juntos pela calçada, que um dia me viram entrar no teu carro num descampado: mas é capaz de também tudo isso ser mentira, apenas um corpo, um corpo, enrolado em pensamentos, despido sobre a cama.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

pequenos

fazemos, em palavras pequeninas, o tamanho dos nossos dedos nas paredes - marcas que antes eram sujidade e agora são rios que escorrem pelos tapetes, inundando a sala de um perfume que me é difícil reconhecer. fazemos, sim, fazemos - eu e tu e tu e eu - um quadrado em volta das coisas que queremos, finalmente, dizer, embora não saibamos como.

como uma tesoura deixada em cima da mesa - palavras, palavras pequeninas - enquanto da janela um homem de chapéu insiste em perguntar pelos nossos cartões de identificação, que não se pode entrar, que não se pode sair. palavras, dizia eu - e saberás tu por acaso o que são verdadeiramente palavras, insiste o homem - criações de azul tornado forte pelo vento.

a tesoura e as paredes - pois também podia ser capaz de cortar tijolo à tesourada, tamanho dos meus dedos de cinco anos, nariz ranhoso, olhos muito abertos para o ar- e tu, pernas esticadas sobre o tapete, a saia a levantar-se devagar porque uma brisa, ou os teus dedos, os teus dedos, e qualquer coisa que renasce enquanto eu sorrio - era isso a que se chamava fazer amor, não era?

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

controlador aéreo

continuam a aterrar aviões em Pedras Rubras, e o meu olhar perde-se lentamente pela noite, junto ao mar, a imaginar quanto mais fogo-de-artifício vai rebentar na costa, fugaz iluminação de água salgada. à minha frente um casal de namorados masca pastilhas em silêncio, parece-me ser a sua maneira de comunicar.

continuam a aterrar aviões em Pedras Rubras, o rapaz levanta-se e ela segue-o, parece-me ser a sua maneira de comunicar. crianças passam a conduzir pequenos carros eléctricos, fazem corridas ou imitam os grandes, enquanto um grupo de franceses, uns quantos descendentes, uns quantos originais, como se pode ainda ser, passa olhando a fachada do casino.

continuam a aterrar aviões em Pedras Rubras, o grupo de franceses senta-se numa esplanada sobre a areia da praia, junto às barraquinhas dos antigos pescadores feitos donos da bandeira verde e da maré vazia. o meu olhar segue pela avenida dos banhos a fazer contas de cabeça às famílias que apenas ali estão para sentir a brisa fresca da noite.

continuam, ainda assim, a aterrar aviões em Pedras Rubras, e acabo por me sentar no muro a ver as pessoas que passam, cada vez menos, cada vez mais tarde. do alto da torre, alguém dá coordenadas que só um outro alguém, a muitos metros de altitude, percebe. cá em baixo, aterram aviões, e eu fico.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

sombras

eu gosto de te fazer perguntas esquisitas, como: queres ser mamã? gostas de me apertar os ombros?, e tu sorris devagar pelo comprimento da sala até desapareceres pela frincha da janela. eu tenho três dedos que adivinham, sussurro segredos às paredes dos prédios e invento novas fachadas para os meus casacos.

eu gosto de te olhar acima e abaixo, especialmente quando usas esses vestidos compridos que têm o nome estampado em letras vermelhas muito fininhas desde a cintura até aos tornozelos. tu saltitas pelas pedras da calçada e eu janto mais tarde porque há pessoas do tamanho de garrafas à minha frente na fila do multibanco.

eu gosto de espetar o dedo na vertical e ficar a olhar a sombra na parede branca: tu lambes a parede com gosto e algum sentido estético da devassidão - é assim que as coisas devem ser, digo eu e diz o meu amigo que é escultor e te procura nas horas em que estás mais distraída. quando chegar a noite, não digas que tens saudades.

segunda-feira, 31 de julho de 2006

kinkin

era para tu veres o meu sangue a espirrar na parede da sala, tanto branco, disseste tu da primeira vez que lá entraste, e eu sorri e pensei que podíamos ser felizes os dois, ali mesmo, naquela varanda virada ao sol da uma da tarde o verão inteiro.

era para tu veres o meu corpo pesado a cair no meio da sala, já arredei os móveis para os cantos, já não tenho aqui a mesa grande, já não faço jantares, só deixei um sofá, os fantasmas sentam-se bem no chão e podem passar semanas inteiras em pé.

era para tu veres o meu amor a expirar finalmente e a sair, de sapatos na mão, de dentro do meu corpo quieto, pareces um anjinho, dizias tu quando me vias dormir, até ao dia em que tiveste medo de me acordar do sonho de estar demasiado apaixonado por ti.

domingo, 30 de julho de 2006

"não vai ser só por uns tempos"

a casa era uma caixa cheia de lágrimas: eu era pequeno e masturbava-me em frente do roupeiro até que uma dor me rasgava por dentro, o sémen a despertar pela primeira vez, o pénis erecto, a mão a hesitar entre parar ou prolongar a dor: a casa era uma caixa de silêncios onde as pessoas escorregavam pelo chão com os pés tão pequenos e sem equilíbrio.

a casa, lágrimas: domingo à tarde e sais do centro comercial a chorar por debaixo das lentes escuras, está calor e toda a gente foi para a praia, dentro do carro sentes os olhos abafados e custa-te a respirar: a casa, o silêncio: na tela um rapaz corre por outra cidade e termina o filme a olhar uma baleia que ataca uma lula.

chora: não sabes bem como fazer estas coisas, apetece-te desfazer-te no meio da rua, ou no meio de ti, estás frágil como as folham ficarão no mês de Outubro, corre-te pela cabeça numa velocidade desvairada uma série de pensamentos que sabes não poder controlar: cala-te: sim, cala-te, não digas nada, fica quieto, parado: chora.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

fala-me de amor

quem: amanhece todos os dias na minha janela mas, já te disse do vento e dos beijos e das palavras que eu colhi na árvore que veio da minha infância para florir aqui, no meu teu colo onde acordas com a boca a saber a sol e cerejas - quantas vezes mais ainda vamos ficar a cruzar os dedos pela noite fora como num beijo que nunca é dado.

porque: eu abri os olhos e sol era rosado como o canteiro da vizinha que deixa cair sobre a roupa no estendal flores e beatas de cigarro, uma música alegre ecoa no quintal do prédio e uma menina de saia rodada espreita de uma varanda de um andar acima - qualquer coisa como poder ser feliz sem hora certa, era disso que falavamos.

ainda: repete baixinho comigo e depois voa como as nuvens ou como os abraços que eu tenho para te dar porque é segunda, terça, quarta-feira: eram sorrisos do tamanho de crianças, do tamanho de sonhos de crianças, era a noite toda a andar pelo corredor a tentar perceber um choro, era amanhecer no meu colo todos os dias tu.

sábado, 22 de julho de 2006

cara estranho

podes chegar mais devagar ao meio da sala, como o barulho dos teus sapatos nesta rua vazia de gente - lá ao fundo vem uma rapariga com um cão pela trela, vai parando a mando do cão, até que, estando próxima de ti, puxa com firmeza a trela, pára para arranjar a bainha das calças: ao passares ela sorri-te, mas não a conheces.

caem flores dos prédios em desconstrucção e o calor continua a deixar-te a testa suada - mais hora menos hora vais acabar outra vez na praia, dia de inverno, a chorar para a palma das tuas mãos, enquanto alguém vai soletrar o teu nome com cuidado, para não se partir, e sentir-se feliz com alguma coisa que escrevas.

ficas contente com a carta que deixam na tua caixa de correio e continuas a falar baixinho contigo mesmo: as dores da alma e as do corpo, misturadas como batido de morango: os prédios em desconstrucção fotografados nas tuas paredes: uma mão que imaginas mais pequena que a tua, mais doce, mais longe.

conheces uma menina que decidiu abandonar os malmequeres, bates às portas erradas, telefonas e ninguém te atende, encolhes os ombros - dizer o quê, agora que o mundo decidiu fingir que está do teu lado. a fita recomeça exactamente no mesmo ponto em que parou da última vez: os sorrisos que imaginas são mesmo bonitos.

pensas mais uma vez em dizer-lhe qualquer coisa, mas alguma vez lhe pediste o número de telefone: são horas de dormir, não a vás acordar por nada - era isto que aparecia na televisão, no tempo dos anúncios, dos copos bebidos às escuras na cozinha - estás esquecido do filme mas dói-te no coração como sempre. ainda és o mesmo.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

três suposições sem filtro

era capaz de jogar a sua própria vida como um jogo de cartas - subia e descia a ladeira junto ao bairro que sempre habitara, comia gelados e assobiava às raparigas: era verão, bem se vê, o relógio tinha ficado em casa e uma camisa amarela brilhava pendurada no estendal.

era capaz de vestir um casaco e pôr uma gravata e entrar pela tesouraria das finanças, tudo isso só para comprar um selo do carro: depois vinham as vizinhas dar-lhe abraços e sandes para o jantar - era um rapaz feliz, imagino, apesar das dificuldades.

era capaz de inaugurar um monumento à porta do seu prédio para comemorar a invenção de uma nova palavra que defina a ideia de «pessoa extremamente feliz à espera de um telefonema» - os seus pais pensavam que era louco, ele pintava o cabelo de vermelho: incendiário, incendiário.

terça-feira, 18 de julho de 2006

verão azul

brincas com o anel que tens no dedo e sorris devagar enquanto eu digo o meu nome - sim, chegaste na hora certa e agora temos que começar tudo de novo partindo do princípio que sempre existimos um para o outro. era isso que tínhamos para dizer ou então um dvd alugado num domingo à tarde, os teus filhos a passear sobre a relva lá fora, a tua mão a segurar a minha como quem conquista uma cidade.

chegas a casa com os cabelos puxados para a frente dos olhos, muito vento lá fora, dizem os meteorologistas que fará bom tempo quando chegar o próximo fim-de-semana. os teus filhos fechados no quarto a jogar computador, o almoço pronto e a mesa posta, querias dizer-me qualquer coisa sobre o trabalho mas as férias estão aí, para mim, e tu sabes que eu sou como as flores, regas um bocadinho e eu cresço com mais cores.

ligas-me para o telemóvel a meio da noite, não sei porque o deixei ligado, talvez já estivesse à espera- vou a correr pela rua até tua casa, vesti as calças de ganga mas deixei a parte de cima do pijama, está muito calor na cidade e tu precisas de mim, são estas coisas que fazem a definição do amor mais espessa que um beijo - querias-me por perto, os teus filhos na casa dos pais, afinal sempre tens medo de ficar sozinha em casa.

sábado, 15 de julho de 2006

princesa

ela chegava e dizia assim, tenho vinte e quatro anos, falo três línguas, gosto de cantar e dançar, deixe-me ser feliz, e o tipo atrás do balcão sorria e dizia que sim - depois dava-lhe uma bandeja com copos cheios de cerveja e contava os segundos até que cerveja e copos fossem só uma grande papa no chão.

ela então saía e dizia assim, tenho vinte e quatro anos, deixei há pouco tempo a casa dos meus pais, sou bonita, não vou ficar a dormir na rua - o tipo a dizer que sim, que sim, dava-lhe um abraço, pedia-lhe desculpa, convidava-a para irem tomar um café num outro dia, ela ainda não sabia o que era esperar.

ela ficava e dizia assim, sou amiga do patrão, tenho os olhos claros e expressivos, sempre me trataram como se eu fosse uma princesa, e todos os homens lhe pagavam bebidas - depois, um dia de noite, ele fechou o bar e esqueceu-se dela lá dentro, ela não sabia o que fazer, ainda não sabia o que era escapar.

sexta-feira, 14 de julho de 2006

não escrever

será da fruta ou dos teus lábios, mas este calor inteiro, crescido como pessoas a andar na rua muito engravatadas.

será do teu olhar nas fotografias, uma sensação de caminhar com alguém ao lado, suar.

será do olá pesado que me dás esta manhã, uma maneira de dizer que sofres.

será do calor ou da ansiedade, do calor ou da ansiedade, do calor ou da ansiedade.

sábado, 8 de julho de 2006

diziam

diziam que não tinha jeito para crianças, que era esse o seu medo: se ao longe, na rua, uma pequeníssima criatura se aproximava, correndo, gritando aquela inconsciência de ainda se lembrar de ter nascido, ele virava costas e procurava a primeira porta onde se proteger. sim, dentro de portas, sentia-se protegido, por estranho que pareça. um vez, na cidade, chegou mesmo a entrar dentro de um infantário e a respirar de alívio.

diziam que não suportava ver uma mulher a chorar, que esse era mesmo o seu medo: trazia lembranças de quando era pequeno, do dia em que bateu à porta, solene e sussurrante, a notícia da morte do seu pai. durante semanas, a mãe chorou à janela, na esperança de um regresso, depois chorou pelos corredos, esperando vê-lo sair de alguma das salas da casa, e finalmente chorou no quarto, à espera de acordar do pesadelo. nunca se esqueceu desses rios de choro materno, e só encontrava sossego no choro fácil dos crocodilos.

diziam que não gostava que lhe tocassem, que era o seu pânico esse, sempre: era-lhe difícil sair à rua, sempre no receio de um raspão que fosse, numa esquina, junto à montra de uma loja de electrodomésticos. comprar, não podia comprar nada, por não suportar a possibilidade de um toque, de um simples deslizar de mão na mão na altura de receber o troco. respirava fundo sempre que queria tomar um café (as máquinas de serviço automático tantas vezes avariadas, que desespero). descansava só quando em sua casa, recebia a visita das suas vizinhas, que o abraçavam ternamente, dizendo flores ao ouvido.

quinta-feira, 6 de julho de 2006

bilhete

acordo devagar, noite, ou este sol todo a entrar pela janela e o calor que me desimpede o corpo de ser leve. trinta minutos apenas e toda a higiene pessoal, senhoras na conversa do lado de lá da rua, uma antiga namorada a lançar flores da varanda do sexto andar. acordo devagar, noite, tantas tantas vezes assim despido.

acordo devagar, noite, ou os sonhos que se repetem a cada adormecer, mesas postas e algum vinho, quantas caras conhecidas junto ao leito, o calor o calor o calor. acordo, sim, mas era de uma outra coisa que eu te queria falar, a forma que senti na palma das mãos quando a abracei, a erecção desta manhã, devagar devagar.

acordo devagar, noite, ou ainda algumas maneiras de me fazer sorrir apesar do verão. limpa-me a testa, limpa, do suor que escorre algures de um outro eu que não dorme nem acorda nem sou eu nem está aqui. acordo, acordo, p-a-u-s-a-d-a-m-e-n-t-e, mais oportunidades de te dizer que ainda não cheguei. acordar. acordar.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

um título como um daqueles filmes italianos

pisa devagar o tapete da porta da entrada, sorri desleixada, passa com a mão pela testa desviando os cabelos que te caem pelos olhos, diz bom dia, daquela maneira que tu sabes dizer bom dia. [pausa]


agora vem mais devagar, deixa os teus dedos enrolados nos pelos do meu peito, morde devagar o teu lábio, enxuga o canto dos olhos onde ficou a marca do vento forte ao virar da esquina. [pausa]


era bom que delimitássemos a área de intervenção do amor nas nossas vidas - criar quartos seguros onde adormecer e acordar pacificamente - vender a bom preço todas as memórias para aqueles que não tiveram tanta sorte como nós - ser capaz de não dizer idiotices uma vida inteira.


mais devagar, mais devagar. podes até fingir que não te interessa, quando os teus olhos se cruzam com os dele pela primeira vez. lá fora um carro buzina muito alto e tu segues serena. devagar, devagar. [pausa]


ainda mais qualquer coisa para fazer- e simplesmente voltar atrás.

sábado, 1 de julho de 2006

quente

liguei o rádio baixinho, ainda as cortinas estavam fechadas mas já se sentia alguma brisa quente que andava pela casa a avisar-me que certas medidas se vão desfazendo na nossa vida, coisas que nos parecem grandes quando nascemos vão minguando ao longo dos anos, coisas tão pequenas que mal as víamos e depois aparecem enormes, como menires, unhas ou mãos dadas no silêncio do quarto onde toca o rádio baixinho.

os teus cabelos amaciavam no meu peito e o meu sorriso crescia no tamanho desse sonho bom que era poder abraçar-te e falar ao teu ouvido. seria ainda essa brisa quente a andar pelo corredor, a entrar pelas janelas, uma caneta que não escreve, um sorriso que não acaba, a minha falta de jeito que até nos sonhos se revela, coisas tão pequenas onde depois tropeçamos, coisas tão grandes que até nos arriscamos a esquecê-las, como os teus cabelos a amaciar no meu peito.

aquela mesma brisa quente que me fez levantar da cama de olhos fechados, a testa suada de tantas memórias guardadas dentro, o corpo que treme devagar a recuperação do respirar entediado dos dias a dias, parece que estamos sempre a meio-tempo nesta vida, com um pé nele e a alma a escorregar para outro lado, onde as coisas pequenas se tornam grandes, e as grandes, de tão efémeras, viram pequenas, como esta brisa quente que me fez levantar da cama.

sexta-feira, 30 de junho de 2006

a musa

já que aqui estou escrevo. apetecia-me ficar a noite toda a beber, a ouvir este cd e a sorrir que nem um parvo, mas já só me resta uma cerveja no frigorífico. este cd que me faz sacudir a cabeça bem devagar de um lado ao outro, embalado pela felicidade de estar ainda com a sensação de apertar a mão a um homem que eu adoro. já que aqui estou conto-te isto.

conto-te que me apetece dançar todo ao longo do corredor. homens como eu ficam felizes por conversar com o Arnaldo Antunes e trazer para casa o novo cd dos The Divine Comedy. homens como eu apaixonam-se facilmente por mulheres como tu. já que aqui estou digo-te isto. mesmo que nunca o venhas a ler, nem a ouvir, nem a saber que eu existo assim como existo aqui para ti, onde tu não me vês.

onde tu não me vês eu dou saltinhos pequenos a caminho do céu, um céu que eu invento quando o meu sorriso estica pela cara e tenta até ser mais largo que as minhas bochechas. tenho esta sensação de, mais que estar a ouvir a música, estar dentro da música. e no meio da noite entro dentro de um comboio e sigo até ao norte onde o mar chega forte junto da areia e a namora como eu sonho namorar-te a ti. já aqui passei, escrevo.

quarta-feira, 28 de junho de 2006

Sr. Carteiro, leve esta a carta a quem tem que a receber...

"Olha, queria dizer-te que aqui em casa, nós agora somos poucos para tudo o que temos tido para fazer. A roupa acumula-se num dos bancos da cozinha, o frigorífico esvazia-se consoante as necessidades de cada um e para fazer compras é preciso encontrar alguns minutos no meio de tanta hora marcada nas agendas. A cama tem ficado sempre por fazer, dia após dia, e na sala tenho alguns jornais que, de tão antigos, parecem até já ter ficado sem data. Olha, queria dizer-te que sem ti, parece, vou ficando sem vontade de arrumar isto, vou ficando mais sozinho aqui a um canto, só a sentir os ponteiros do relógio a descer e a subir na sua função. Vem a noite e vem o dia e nunca tu, e aqui em casa, nós agora somos poucos para tudo o que uma casa precisa para viver. Olha, eu acordo sempre um pouco suado e a tossir, talvez seja dos cigarros ou das cervejas que bebo todas as noites, para me esquecer de que tu não estás. levo-me vagaroso até à casa de banho e encontro-me pelo espelho, de olhos sujos, cara fechada. Olha, eu continuo a comer os teus iogurtes todas as manhãs, e a beber dos teus sumos, e a comprar as tuas bolachas e os teus chocolates preferidos. Olha, eu continuo a ler os romances de que tu gostas, a citar poemas do Eugénio de Andrade ao miúdo do quarto andar quando o encontro na escada, a perder-me nas livrarias na secção dos livros infantis. Olha, eu continuo a ver os filmes de que tu gostas, as notícias no mesmo canal em que tu vês, e empolgo-me com as corridas do Simão, mesmo que nunca tenha ligado muito ao futebol ou ao Benfica. Olha, eu e os meus outros eus todos que vivem aqui em casa, somos poucos para tudo o que há a fazer, agora que tu não estás. E também ficamos por aqui, nos nossos cantos, à espera de ouvir o barulho das tuas chaves a abrir a porta, o teu perfume e o teu sorriso a encher a casa de tudo aquilo que lhe falta."

terça-feira, 27 de junho de 2006

certas coisas pertencem aos livros de poesia

certas coisas pertencem aos livros de poesia, a lâmina com que cortei a face esta manhã, o álcool com que a estanquei, a tua voz perdida na minha cabeça em toda a parte. olhar-me no espelho e pensar o início de um romance, comprar a velhinhas que vivem em aldeias antigas fotografias de casamentos, pedir um copo de vinho e olhar os carros que passam pela estrada.

certas coisas pertencem aos livros de poesia, a minha camisa suja caída no chão do quarto, o cheiro a sexo impregnado nas minhas mãos, listas e listas de compras de uma casa desordenada, um telefonema em que se fala das coisas mais banais. telefonar-te e não ter resposta, andar pelas ruas em busca de um sorriso fácil, comprar um bilhete para o comboio que vai partir.

certas coisas pertencem aos livros de poesia, esta memória que não tenho das coisas que aconteceram quando eu não existia, uma série de livros amontoados sobre a mesa da cozinha, os teus iogurtes preferidos no frigorífico, a tua mão que agora não vive em mim. pensar em ti e tudo parecer tão fácil de tão difícil que é, entrar no chuveiro e fechar os olhos com força, apertar a garganta antes de adormecer.

sábado, 24 de junho de 2006

gira-discos

o amor não é uma questão de sorte, alteração de ritmo traída pelo olhar vago e consumido de uma miúda ao fundo de um bar, numa cidade que já não existe, embora ainda tente espernear desajeitada. o amor não é um telefone que toca e que se desliga no ouvido de outrém, uma ninharia como esta chuva envergonhada que me molha aos ombros, a mim, que estou de férias e até penso que verão.

não esperem, no entanto, que o defina - o amor é, por princípio, indefinível - e goza o estatuto criado por uns quantos que vieram antes de mim e, por falta de o fazer - como eu - escrevem-no. talvez por isso eu me sente na beira desta pedra fria, engula o ar seco na minha garganta dorida e faça de mim o que não tive nunca coragem de fazer com alguém. mesmo sendo de madrugada, eu não sei como é que adormeci.

o amor não é uma casa onde se entre por uma porta, nem uma porta onde se toque à campaínha, nem uma campaínha que nos acuda em momentos de aflição. o amor não é uma família reunida à volta de uma mesa, nem um nome que se dá aos filhos porque os filhos já têm quase trinta anos e ainda não sabem como nos hão-de dar netinhos. não. mas não esperem por mim, - sobretudo, não esperem por mim - procurem antes nessas nuvens que acabarão por passar.

terça-feira, 20 de junho de 2006

expeditur

tenho frio e o meu corpo treme, semelhança de ataque cardíaco sobre a mesa da sala, pequenas estatuetas africanas que caem para o chão, as folhas riscadas, cartas da edp, e todos os minutos de um relógio digital a reflectir nas lentes dos meus óculos. tenho frio, tenho fome e sede, e tu não estás.

tenho frio e ninguém me entra pela porta dentro, apesar de quando olho em volta, para as minhas coisas, tudo me parecer estranho e eu ser até capaz de jurar que alguém aqui esteve, vivendo a minha vida por mim, durante alguns minutos dos quais já me esqueci. tenho frio, tenho fome e este mar, onde tu não estás.

tenho frio e quem te poderia adivinhar o sorriso senão eu, no exacto momento em que caía da mesa ao chão, corpo sem forças e sem rumo, tensão inacabada, olhar discreto, porque já está para se fechar, porque já perdeu alguma vida, porque já quase morreu. tenho frio, este mar cheio de ondas, e tu não estás.

segunda-feira, 19 de junho de 2006

"i use to shoot you down"

uma tarde inteira dentro da caixa de correio, um corpo rarefeito em pedaços de papel mastigados, pasta a escorrer-me aos cantos da boca, uma tarde inteira de olhos fixos pela ínfima luz que entra pelas frinchas da caixa de correio, publicidade deitada em doses industriais, a tua sombra finalmente a entrar por mim dentro, uma visão apenas.

uma tarde inteira dentro da caixa do correio, uma música japonesa a fazer de sol poente como nos filmes, uma garrafa de água fresca aberta para festejar uma partida, os meus dedos curtos de serem tão curtos, os meus pés doridos de serem tão grandes, uma tarde inteira de olhos fixos na rua onde tu não passas, onde tu não vives, onde tu nunca choraste a tristeza de uma tarde inteira sem te ver.

uma tarde inteira dentro da caixa do correio, o comer já frio e esquecido dentro de um prato no meio de uma cozinha desarrumada, a roupa toda por lavar, os livros perdidos de alguma ordem nos sofás onde já ninguém se senta, o acumular do pó nos vários destinos do meu sorriso desaparecido, um corpo rarefeito em pedaços de papel mastigados, pasta a escorre-me aos cantos da boca, mensagem pendente, adeus.

a letra t

tentar alinhar uma série de letras pode ser um complicado trabalho para quem sente que os dedos tremem ao sair de um casaco comprido demais para ser elegante. o tempo continua cinzento e os meus olhos cada vez mais cegos - custa-me até distinguir as formas nestas folhas de papel. a dor nas costas voltou e o enjoo de se ser assim.

tentar não roer as unhas nem sentir o nervoso pequenino que me invade as manhãs - era isso o que eu queria ser quando fosse grande, seguro de mim mesmo. passo a língua pelos dentes e fecho os olhos, talvez um dia consiga ouvir o mar, talvez possa até escrever um poema. tentar alinhas uma série de letras pode ser um trabalho complicado.

o enjoo de se ser assim é como um cromo repetido na minha colecção, a partir de certa altura pareceu calhar-me em todas as carteirinhas. tenho uma tesoura em cima da mesa e apetece-me sentir o metal frio a tocar-me as veias do pulso. não, eu nunca me esqueço de nada, certas coisas que insistem em gravar-se na minha pele. tentar não roer as unhas.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

capricho n.º 24

não sei que horas eram quando me vieste tocar à porta, mas chovia, trazias os cabelos molhados e um saco com roupa pendurado nas tuas costas. não me disseste nada, entraste como quem é dono de casa, conhecias bem os cantos de cada um dos armários onde amontoei livros durante anos e o único sinal de estranheza eram os teus pés molhados a deixar marcas pelo chão.

não sei que horas eram quando te dei uma toalha para secares os cabelos, contigo a olhar-me como quem vê a noite finalmente desfeita, tinhas dezoito anos e o mundo inteiro para correr, vieste parar à minha porta enquanto eu dormia, tiraste do saco uma camisa comprida, despiste-te e vestiste-a à minha frente, sem estranheza. sim, apesar de tudo, eu ainda me lembrava do teu nome.

não sei que horas eram quando adormeceste no meu sofá, eu apaguei a luz e sentei-me junto à janela da cozinha a fumar um cigarro longo. quantas mulheres se nos oferecem assim como tu te ofereceste a mim, silenciosa e senhorial, quando ainda eras só uma adolescente. sei que nunca antes e nunca depois voltei a ter esse encanto de ser dominado por uma só mulher. mas tu és como o vento. e no acordar do outro dia, os teus passos secos pelo corredor eram o único sinal da tua presença.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

estado de espírito com citação - II

a minha cara transporta todo o peso do meu corpo, os corredores frescos sob as arcadas tendem a disfarçar, mas ainda assim quem olha, quem realmente olha, percebe, a minha cara com todo o peso do meu corpo, a minha cara trancada, a minha cara calada, transportadora deste cheiro a sardinhas assadas que me faz fechar em casa.

esta cidade condenada a desaparecer debaixo das suas próprias reconstruções e uma banda sonora roubada à sala da minha casa, levada como se pode dentro da cabeça, umas quantas fotografias tiradas com os olhos, o calor a deslavar-me a face, esta cidade condenada a desaparecer, e uns quantos idiotas a cantar-lhe ainda a beleza.

é mil novecentos e setenta e nove? não, estamos no século vinte e um, mesmo que ainda exista quem pense que os homens e as mulheres são prateleiras diferentes de um mesmo armário, mesmo que ainda exista quem renuncie a amar abertamente quem ama, só porque tem barba e o mesmo género no bilhete de identidade.

esta cidade condenada a desaparecer debaixo das suas próprias reconstruções, um bilhete para longe daqui, o meu desejo de nunca mais ter que me masturbar para aquietar a alma, o meu querer ser cego e surdo e mudo, o meu querer a paz de mim mesmo, por uns segundos só, esta cidade condenada a desaparecer, levando-me dentro, dentro de si.

estado de espírito com citação

não é meu, é de um autor chileno, Nicanor Parra.

"
1979

Macul con Irarrázaval
a 3 ó 4 cuadras del Pedagógico
brumo
carabineros armados hasta los dientes
una mujer escarba la basura
autos pasan en todas direcciones
y los temibles plátanos orientales

esta ciudad está condenada a desaparecer

es el mundo me dicen
no te preocupes
es el año 1979"

domingo, 11 de junho de 2006

algumas verdades em sacos separados

esta manhã, andei na rua de olhos fechados. primeiro, tive medo - e se aparece alguém, e se chocar com uma árvore - mas a calçada era larga e não havia ninguém à volta. esta manhã, andei na rua de olhos fechados. e quando me senti confiante, quase levantei voo.

gosto de fotografias. tenho-as numa caixa guardadas. sento-me no tapete da sala e retiro-as com cuidado. olho-lhes para dentro com vontade de ficar dentro delas. para estar noutros tempos, noutros dias, noutras peles. passo a mão pela cara e volto a guardá-las.

agora só soletro pedaços de frase, para quê desenvolver uma ideia inteira, um pedaço, um resto de frase, chega para te transmitir toda a intensidade que posso dar - os olhos fechados, as fotografias - agora só soletro pedaços de frase, pequenos contributos para uma verdade que não existe.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

casa

ela chega e coloca um disco no leitor de cd's.

dói-me a cabeça, hoje, fizeste demasiado barulho ao acordar. a cidade parou algures na fotografia que tirei nas últimas semanas, espécie de jardim abandonado às plantas e a alguns loucos que insistem em dar-me os bons dias. dói-me a cabeça e quero que me beijes. quero, instintivamente, que me beijes. baixo os olhos e renuncio à descoberta de que certas coisas se fazem sem pensar. espero.

ela levanta-se, de novo, e procura uma outra música.

não há nada para fazer nesta casa enorme quando tu não estás. procuro dentro dos meus sacos aquele poema que me dedicaram e finjo que desta janela se vê o caminho para a minha escola quando eu era pequena. quero voltar a ter casacos compridos e neve na fita com que seguro o cabelo. quero aceitar as pequenas coisas que me oferecem os loucos do jardim. quero acreditar de que os dias não se repetem.

tocam à campaínha - a música parou - mas não é ninguém.

estou descalça. acho que assim percebo melhor os corredores. passo as minhas mãos pelas paredes cheias de fotografias de pessoas que eu não conheço. sou uma estranha, aqui, nesta casa, nesta cidade, em ti. eu sempre preferi procurar os pormenores e agora assusto-me com tanta coisa já feita, tanta construcção, tantas máscaras de meninos e meninas a fingirem-se importantes.

ela tira o disco do leitor e sai.

quinta-feira, 8 de junho de 2006

pessoas nos olhos - 1

visitou-me o meu avô inglês - vinha de sobrecasaca e chapéu de coco, com uns calções de banho azul e umas chinelas, pronto para me levar a passear na praia. não me lembro bem do seu nome, mas lembro-me que tinha um grande bigode e que sorria como uma criança pequena, enquanto me segurava a mim por uma mão, e um grande jornal de domingo na outra.

mais atrás uma rapariga da escandinávia guardava livros dentro da camisa e engordava engordava engordava. a mãe dela era uma senhora respeitável e custava-lhe ter que tolerar toda aquela literatura. quando a chamava para jantar, a rapariga deslizava por um corredor com o triplo do tamanho do meu e servia-lhe a sopa já fria. para ver o que custa a vida, dizia ela.

o pai da rapariga não existia, pelo menos no meu sonho. lembro-me de tentar falar disso durante o jantar, mas o meu avô inglês, de grandes barbatanas e óculos de mergulho, disse-me que de certos mares, é melhor não retirar marés. a rapariga da escandinávia levantava-se com dificuldade e a mãe agora ria muito porque tinha provado um copo de um vinho licoroso que eu tinha na cozinha.

sempre que o meu avô inglês me visita, eu sinto-me assim meio tonto e todas as coisas começam a rodar, pessoas nas paredes e móveis no chão, tapetes que voam não sendo do Aladino. ainda por cima, enche-me sempre a casa de outras visitas, o meu avô inglês, e fala muito pouco comigo porque não sabe a minha língua. saiu, quando amanhecia, pela varanda da cozinha, e deixou-me um iogurte aberto em cima da mesa.

quarta-feira, 7 de junho de 2006

e para não te esqueceres de mim, assino.

não tenho bem a noção mas a música parecia andar para cima e para baixo, talvez fosse do trompete, soprar com mais ou menos vigor, faz rodar o botão do volume da aparelhagem, e depois eu também não estava assim com tanta atenção ao que nos rodeava, só pensava se estaria a falar o suficientemente alto para me ouvires sempre sem qualquer esforço.

da luz, parecia estarmos iluminados para uma peça de teatro, um foco sobre a nossa mesa e, ou eram os meus olhos frágeis, ou todo o restante bar estaria às escuras, perdemo-nos a falar de coisas que guardamos dentro de nós e nem vimos as horas, esquecemo-nos até dos copos vazios e umas bolachas salgadas em forma de peixinhos foi eu que as comi porque me tinha esquecido de jantar támbém.

há certamente um encanto muito peculiar nestes encontros, quando duas pessoas se sentam a uma mesa limpa de um bar e desatam a falar de tudo como se houvesse uma ansiedade de nos conhecermos bem e sermos muito amigos um do outro. há certamente um encanto que terá a ver com os nossos olhos, os nossos ouvidos, o nosso nariz, os nossos dedos e a nossa língua. há certamente um encanto nesta forma de dizer de novo eu volto.

terça-feira, 6 de junho de 2006

capitão romance

tenho um barco à porta e em frente o deserto. estou sentado na soleira, em frente a um espelho grande que encontrei num velho sucateiro. olho-me, à espera que me cresçam asas das omoplatas. o meu corpo cada vez mais marcado pelo sol, mais magro, ansioso- tenho um barco à porta, o deserto avança.

tenho um barco à porta, desenhei-o com lápis de cor e folhas roubadas aos papelões da cidade. olhos as letras desconhecidas e as impressões falhadas, contas que nunca ninguém vai pagar. olho-me no espelho, insistentemente, à espera que me cresçam asas das omoplatas. os meus braços que se esticam pelos lápis, os olhos que choram um pequeno mar - tenho um barco à porta, o deserto avança.

tenho um barco à porta, danço pelas tardes em movimentos desconexos e invento uma lógica nova para o meu pensamento. do outro lado da casa, do outro lado da rua, pessoas passam a espreitar a minha sombra inquieta. olho-me no espelho e o meu brilho espalha-se pelo infinito, chegando até aos outros planetas, ao céu. espero que me cresçam asas das omoplatas - tenho um barco à porta e só o deserto avança.